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Lendo palavras, números e… imagens? – por Amarildo Luiz Trevisan

E então “a escola volta ao centro. Não por messianismo, e sim por prudência”

Em tempos de polarização, cada passo vira suspeita de queda para um lado ou para o outro. Parece impossível falar de qualquer outra coisa no Brasil recente, porque tudo escorrega para a armadilha do negacionismo ou do afirmativo automático, seja quando tratamos de ciência, cultura, artes, saúde ou educação.

Hoje arrisco uma crítica que procura não se deixar capturar por nenhum dos lados. Lembro de um colega, em uma banca de doutorado, que comparou o pesquisador a um malabarista de circo. Sem rede de proteção, que seria a teoria, a boa ciência, basta um deslize para o tombo ser feio.

Com a polarização acontece algo parecido. Para não cair no abismo de visões parciais, resta o apelo sincero à reflexão. Foi nesse espírito que me veio à mente uma série recente, Adolescência, celebrada por prêmios e repercussão. O mérito do enredo está em escancarar os riscos de uma comunicação dominada por imagens quando falta formação crítica. Pais, professores e autoridades desconhecem esse território. O resultado, na trama, é a dificuldade para responsabilizar quem precisa ser responsabilizado. A série foi capa da Revista Veja, em 04/04/2025.

Disponível em: https://veja.abril.com.br/edicoes-veja/2938/

A provocação cai como luva na educação. A escola alfabetiza em palavras, ensina a trabalhar com números, porém quase não toca na alfabetização visual. Enquanto isso, adolescentes criam e partilham códigos que funcionam como gatilhos de comportamento, alimentam bullying, assédio e linchamentos digitais.

Vale insistir na pergunta incômoda. Interessa apenas apontar um culpado, escolher o Judas da vez, ou é hora de repensar as estruturas que nos moldam, o currículo que priorizamos, os objetivos que perseguimos, a didática que praticamos? Talvez devamos ativar desde cedo um músculo esquecido. Ensinar a desconfiar das imagens. Interrogar o que dizem, o que calam, o que pretendem.

A humanidade conhece tanto os perigos quanto as potências do pensar por imagens. Do bezerro de ouro na travessia do deserto, imagem da idolatria que seduz e cega, às cenas de 11 de setembro nas torres gêmeas de Nova York, quando um avião atinge uma torre e, quarenta e cinco minutos depois, outra, por que essa encenação? O que se quis comunicar ao insistir na espetacularidade do gesto? Qual papel as imagens receberam naquele evento? E o que dizer do noticiário sobre Gaza e do horror que chega às telas, acompanhado por uma sensação inquietante de impotência coletiva?

Rita Von Hunty, influenciadora no papel de drag queen criada pelo professor Guilherme Terreri, anunciou que precisava interromper as atividades. Pesquisar e gravar sobre a Palestina, somado a uma vigília em defesa do direito de existir daquele povo, trouxe à tona para ela a filósofa Susan Sontag. Em Diante da Dor dos Outros, Sontag sugere uma hipótese dura de engolir. A exposição contínua ao massacre não produz necessariamente o clamor que interrompe a barbárie. Pode produzir apatia. Pode normalizar o absurdo.

Diante desse cenário, assim como na trama da série Adolescência, a escola volta ao centro. Não por messianismo, e sim por prudência. Se alfabetizamos para ler palavras e números, por que não alfabetizar para ler imagens? Ler não no sentido de decorar códigos, mas de perguntar: Quem produziu esta imagem, para quem, com qual objetivo declarado e qual objetivo provável? Que enquadramento, recorte e perspectiva foram escolhidos; o que ficou fora do quadro e por quê? Onde está a evidência e onde está o truque? Que consequências públicas esta circulação provoca?

A leitura de imagens não substitui a ética, embora a convoque. Não dispensa a política, embora a ilumine. Não exclui a ciência, embora a desafie a mostrar seus critérios de validação para além do laboratório. Precisamos criar exercícios de lente, capacidades de foco, práticas de pausa. Um rito simples já ajuda. Olhar a imagem. Respirar. Descrever sem adjetivos. Identificar fontes. Buscar versões diferentes do mesmo fato. Perguntar quem ganha e quem perde, a serviço de quem e contra quem está essa versão. Somar o que se sente ao que se sabe. Só então seguir.

Nietzsche lembrava que as tragédias antigas ensinavam por meio de enigmas. Às portas de Tebas, a Esfinge avisava: “Ou você me decifra, ou eu devoro você”. É uma boa chave para a chamada nova cultura mediada por telas. Ou aprendemos a decifrar as imagens, ou elas nos engolem com sua fome de cliques e certezas instantâneas. Quanto mais cedo começarmos essa alfabetização visual, menores serão os danos. E talvez, quem sabe, cresçam as chances de que a inteligência coletiva volte a ser uma rede de proteção. Teoria e prática de mãos dadas. Palavra, número e imagem em diálogo. Mais reflexão. Menos idolatria.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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5 Comentários

  1. Resumo da opera. Fases. Quando a tradição oral perdeu espaço para a escrita os anciões perderam importancia e status. Possivelmente agora existem as dores da transição para a volta a linguagem visual. Sim, bom lembrar das pinturas rupestres. De novo tem gente que não quer largar o osso.

  2. ‘Quanto mais cedo começarmos essa alfabetização visual, menores serão os danos.’ São coisas diferentes. Linguagem escrita muda devagar, a visual muda a cada par de anos. Alas, quase ninguém fala no perigo das traduções automaticas e nas respostas instantaneas das AI.

  3. ‘ Se alfabetizamos para ler palavras e números, por que não alfabetizar para ler imagens? ‘ Ideologico. A maioria é hipossuficiente e não pode chegar as proprias conclusões. Muito ‘perigoso’. Se na religião o Divino precisa de intermediarios, no mundo da ‘razão’ os fatos precisam dos ‘iluminados’.

  4. ‘Foi nesse espírito que me veio à mente uma série recente, Adolescência, celebrada por prêmios e repercussão.’ Se vermelhos e jornalistas ficam falando muito numa série é porque existe uma ‘mensagem’ na mesma que eles desejam divulgar para o maior numero de pessoas. Ou seja, propaganda.

  5. ‘[…] em uma banca de doutorado, que comparou o pesquisador a um malabarista de circo.’ Se foi até a banca é porque não tinha risco nenhum de ser rejeitada. Até porque o nome do orientador está junto. Podem pedir um milhão de modificações, mas vai ser aprovada.

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