Opinião é uma coisa, desinformação é outra – por Amarildo Luiz Trevisan
Não se trata de torcida, mas “responsabilidade com o que se fala em público”

No fim da tarde, chegou ao meu celular um vídeo enviado por um amigo. Na tela, o apresentador Ratinho provocava a esquerda, dizia que muita gente defende ideias progressistas no Brasil, mas manda os filhos estudar nos Estados Unidos. Em seguida, arrematava que os Estados Unidos seriam a direita, e que, se você gosta da esquerda, deveria enviar seu filho para a Venezuela. Assisti até o fim, respirei fundo, depois disso fiquei com aquela sensação de que faltava contexto, faltava precisão, faltava o simples cuidado com as palavras.
Opinião é uma coisa, desinformação é outra. Nos Estados Unidos, quando se fala em “esquerda”, a referência mais comum é ao Partido Democrata, enquanto o Partido Republicano ocupa o campo da direita. Ao longo do último século, Democratas e Republicanos se alternaram no governo, portanto os méritos e deméritos do país não se explicam por um lado único. As universidades que viraram referência global cresceram por décadas de financiamento consistente, por políticas públicas de longo curso, por uma cultura de pesquisa que atravessa governos. Soma-se a isso a mobilização histórica de trabalhadores, que pressionaram por direitos, salários, bolsas e acesso, e que ajudaram a sustentar o ambiente no qual ciência e educação florescem.
Quando alguém afirma que Estados Unidos é sinônimo de direita e sugere que quem simpatiza com a esquerda deveria mirar a Venezuela, cria-se um falso dilema. O mundo não cabe em um mapa binário. Existem esquerdas e direitas em plural, existem países com arranjos políticos complexos, existem nuances históricas que não cabem em frases de efeito. Transformar a escolha de um destino de estudos em prova de lealdade ideológica empobrece o debate e desvia o foco do que realmente importa na formação acadêmica, que é a qualidade das instituições, a liberdade de pesquisa e o compromisso público com a educação.
A propósito do barulho em torno do vídeo, existe um dado objetivo. Chico Buarque acionou a Justiça depois que o apresentador afirmou, sem apresentar provas, que o cantor receberia dinheiro da Lei Rouanet. A decisão judicial determinou um prazo de cinco dias para que o apresentador se retrate publicamente ou comprove em juízo o que disse. Diferentes veículos registraram que, se descumprida a determinação, a conduta pode caracterizar desobediência, conforme a própria decisão destacada pela imprensa. Não se trata de torcida política, trata-se de responsabilidade com o que se fala em público.
A palavra é um instrumento de construção do comum, por isso exige lastro, fonte, cuidado. O ruído que um vídeo descontextualizado produz pode parecer leve no instante do compartilhamento, porém, quando se multiplica, vira pedra no caminho do diálogo democrático. O primeiro antídoto é simples, embora dê um pouco de trabalho, consiste em checar a informação em veículos sérios, comparar versões, ler a decisão, separar o que é fato do que é slogan.
Minha sugestão é singela. Antes de encaminhar conteúdo desse tipo, faça uma pausa, pergunte qual é a fonte, veja se há documento, verifique se o título corresponde ao corpo do texto, procure outra matéria sobre o mesmo tema. Isso evita que boatos ganhem ares de verdade. Isso ajuda a manter a conversa no terreno das evidências, onde concordâncias e discordâncias podem existir sem que se sacrifique a honestidade intelectual. Eu prefiro debater com base em dados verificáveis e em veículos confiáveis. Se você tiver outras fontes, compartilhe, eu leio e comparamos.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera. As pessoas procuram conveniencias e facilidades. Qualquer coisa que ‘aumente a mão de obra’, de ‘muito serviço’, não vai rolar. Simples assim. Esta historia de ‘cidadãos conscientes em prol da democracia’ é coisa da Globo. Sugestão muito aquem de se inteligente, ‘qualquer meme tem virar uma DR’. Só dando risada! Kuakuakuakuakua!
‘Minha sugestão é singela.’ Vai ser devidamente ignorada, jogou uma coluna fora. A menos da ‘sinalização da virtude’ obviamente.
‘O ruído que um vídeo descontextualizado produz pode parecer leve no instante do compartilhamento, porém, quando se multiplica, vira pedra no caminho do diálogo democrático.’ Só que isto deveria valer para os dois lados. Ou vai dize que a esquerda não usa a mesma ‘tatica’? Como um certo ministro num certo tribunal eleitoral durante um periodo eleitoral? Vide vaza toga.
É Brasil. Se peguntarem na rua se Chico Buarque recebe dinheiro da Lei Rouanet no imaginario popular a resposta será possivelmente ‘sim’. Ou coisa pior. Difamação dá cestas basicas e os danos morais no processo civil darão uma grana a mais para o cantor, mas para Ratinho não fará falta. Reprovação moral por perder processos judiciais é algo que já não existe mais, alguns ainda vão dizer que o Judiciario foi parcial contra Ratinho porque criticou um dos ‘amigos do rei’.
‘Diferentes veículos registraram que, se descumprida a determinação, a conduta pode caracterizar desobediência, conforme a própria decisão destacada pela imprensa.’ Desobediência não creio. Deve tratar-se de processo relativo a difamação. A retratação extinguiria a punibilidade, salvo melhor juizo. Comprovar o que foi dito lembra exceção a verdade, mas isto só serveria se Chico fosse funcionario publico. Há que consultar um(a) advogado(a) para saber o certo, mas tem algo bem errado na noticia.
Chico Buarque tem 81 anos. Vem de uma familia de intelectuais. Tem apartamento no Leblon e na Ilha de São Luis em Paris. Este ultimo pode valer entre 3 e 12 milhões de euros dependendo da area e localização. É um artista altamente nichado e Lei Rouanet não financiaria este padrão de vida.
Não acompanho Ratinho. Mas não precisa ir longe para detectar a hipocrisia. Muita gente na aldeia defende o SUS porque é ‘uma maravilha’. Mas frequenta o hospital do plano de saúde (não precisa dizer qual). Socialismo de iPhone.
‘O mundo não cabe em um mapa binário. Existem esquerdas e direitas em plural, […]’. No brinquedo para crianças tentam socar o pino cilindrico no lugar do cubo. Em muitos lugares esta ‘classificação’ esquerda-direita já é bastante questionada.
Falacia aqui é ‘nunca deu resultado, mas é só continuar mandando dinheiro porque daqui 100 anos pode ser que saia alguma coisa que preste’.
‘As universidades que viraram referência global cresceram por décadas de financiamento consistente, por políticas públicas de longo curso, por uma cultura de pesquisa que atravessa governos.’ Financiamento consistente principalmente privado. Exceções existem como o sistema de universidades estaduais da California. Em outras instituições o dinheiro aparece porque existe competencia e resultados. Massachusetts Institute of Technology recebe muito dinheiro do Pentagono e do dito ‘complexo militar industrial’. Principalmente durante e depois da Segunda Guerra. Produziu mais de 100 premios Nobel. Alunos do curso de engenharia nuclear tem uma usina nuclear dentro do campus para ‘brincar’. Não é financiamento a fundo perdido e nem para resultados simbolicos. Dinheiro volta para a sociedade.
As coisas ‘mudaram de lado’ com Franklin D. Roosevelt. Partido Republicano ainda passou pela fase do Tea Party. Desembocou no Agente Laranja. Partido Democrata também já não é o mesmo. Governador da California, Gavin Newson, está proximo do PT. Bernie Sanders é proximo de um PDT. Alexandria Ocasio-Cortez se aproxima de um PSOL. Existem outras pessoas, mas alguns exemplos ilustram as mudanças.
‘Nos Estados Unidos, quando se fala em “esquerda”, a referência mais comum é ao Partido Democrata, enquanto o Partido Republicano ocupa o campo da direita.’ Há controvérsias. Uma supersimplificação. O partido que patrocinou a abolição da escravatura por lá foi o Republicano. ‘Progressismo’ na acepção daquela epoca foi algo tocado adiante por Theodore Roosevelt. Que fundou um Partido Progressista.