Cartão vermelho – por Orlando Fonseca

Um dos princípios fundamentais do futebol é a “não interferência externa sobre as decisões do árbitro no campo”. Isso se aprende muito cedo, mesmo quando se joga uma pelada com os amiguinhos na rua. Acertando ou errando, o que o árbitro diz é a palavra final, pois o sentido é a continuidade do jogo. De resto, é assim entre humanos, é assim a vida. Dentre as novidades desta “maior Copa de todos os tempos”, está a intervenção de Donald Trump, que produz uma flagrante alteração desse antigo protocolo. O cartão vermelho dado pelo árbitro brasileiro, Raphael Claus, ao jogador americano, atacante Balogun, foi anulado pela Comissão de arbitragem da FIFA, beneficiando a seleção dos EUA. Infantino nega a intervenção, que o próprio Trump tripudia, ao reafirmar seu telefonema para o presidente da Federação. Não é de admirar, embora cause revolta nos aficionados do esporte. Ainda bem que a seleção da Bélgica nos redimiu a todos, vencendo os americanos com quatro gols.
O futebol virou um grande negócio, com métricas referidas em dólares, o que vale para arrecadações, transações de craques da bola, valores de transmissões, direitos de imagem. Neste campo, tudo vira mercadoria, passível, portanto de um valor de mercado. Os jogadores passam a ser ativos importantes dos clubes (não por se mexerem mais em campo, embora valham mais de acordo com análise de desempenho, por potentes equipamentos de IA). Sempre foram alvo de negócios para manter as contas dos clubes em dia, mas tudo agora segue as determinações de ser mercadoria. Isso inclusive, por vezes, é assimilado pelo caráter de alguns.
Nesta Copa a FIFA está testando a “pausa para hidratação”, que tem recebido vaias dos torcedores em todos os estádios. Tal medida pode ter um sentido de humanizar o jogo, afinal, os extremos climáticos estão aí para recomendar um alívio no aquecimento corporal de quem se mexe pelo campo, sob o sol. E, depois, quem disse que 45 minutos sem parar era o melhor? Também não sei, pois não entendo das demandas físicas, da fisiologia dos atletas. Mas, desconfio que a medida tenha mais relação com o negócio futebol do que com o conforto dos jogadores. A pausa também significa minutos preciosos para a publicidade. Tem até um vídeo antigo do craque argentino, Maradona, profetizando esta decisão atual da FIFA.
O certo é que, com o negócio rendendo milhões, a escala de tudo passa a ser necessária, e medida em dólares. Estádios deram lugar a modernas arenas, maiores, e mais equipadas com todo tipo de traquitanas modernosas, desde a iluminação por led, até tratamento tecnológico do gramado. Algumas, inclusive, com coberturas retráteis, que deixam o esporte em um meio termo de definição, um tanto indoor, um tanto outdoor – como se distinguem as modalidades praticadas ao ar livre, ou em ginásios fechados. E tudo pode ser negociado a peso de ouro, incluindo o próprio nome da arena, transação que recebe uma designação sofisticada: “naming rights”.
Nesta indústria do entretenimento, surgem em campo jogadores, já com status de craque, muito mais novos. Isso os torna milionários ainda jovens, para o bem e para o mal. Por outro lado, manter-se no topo, vai exigir que tenha um staff multidisciplinar, dedicado e custoso (por suposto). Entre fisiologistas, nutricionistas, personal disso, personal daquilo, torna-se uma empresa, o que demanda cada vez mais dinheiro. Evidente que com todas as regalias e com todas as benesses deste novo mundo, os jogadores estejam sujeitos a uma vida útil para o esporte mais estendida (por exemplo, Cristiano Ronaldo e Messi).
Tudo é negócio dentro e fora das quatro linhas, mas a interferência nas decisões dos árbitros, coloca tudo em xeque. Esta é uma novidade que não deve se tornar rotina. A própria FIFA não aceita em seus princípios que haja interferência da justiça comum, nem da política. De modo que as consequências de o futebol estar se tornando uma preferência mundial, cada vez maior, deve receber melhor respeito das autoridades mais altas do setor. Sei que é pedir muito, pois o Infantino já deixou claro sua submissão a Trump, mas para um fã do esporte, como este cronista, tudo o que se quer é assistir a um bom jogo sem o peso de suspeitas. Há momentos que, se pudéssemos, entraríamos em campo para fazer o que achamos melhor para o nosso time. Se a nós não é permitido, se entendemos como certo o princípio fundamental da FIFA, tudo o que queremos é que não se chame um Trump intrometido para melar as nossas expectativas.
(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.





Resumo da opera II. Gastança continua e a conta não demora. Vermelhos com seus truquezinhos. Distorcem o passado e chutam o futuro. ‘Policiam’ o mundo porque os problemas tupiniquins antes da eleição não interessam.
Resumo da opera. Irrelevancias. Pelada com arbitragem? Agente Laranja não é problema meu. Faltou mencionar que a Associação de Futebol Argentina esta sob investigação do FBI por desvio e lavagem de dinheiro. Tambem que as ‘previsões’ dos periodistas não se confirmaram, ingressos muito caros e estadios vazios, excesso de jogos com seleções ‘fracas’.