Cansaço informacional – por Guilherme Bicca
“Um retrato: não é só muito conteúdo… é uma avalanche de estímulos”

Chega novembro e os smartphones e TVs de todo mundo se transformam em um grande megafone digital. Tudo é preto, vermelho e piscante. As marcas gritam em coro, os influenciadores perdem a voz (de rouquidão, não por falta de representatividade) e as nossas telas parecem um carnaval de liquidações.
Eu até tento acompanhar, mas sempre desisto. Porque, pra mim, nada cansa mais do que a sensação de que tudo é urgente. Até porque, quando tudo é urgente, na verdade, nada é.
Pois dia desses me peguei refletindo sobre isso e resolvi dividir com vocês, por aqui: essas campanhas intermináveis, que se estendem por todo mês de novembro, são o espelho do modo como a comunicação funciona hoje.
O ritmo ficou frenético, a atenção virou commodity, e quando consumimos conteúdo, sendo bombardeados 24 horas por dia, a atenção se esgota e a mensagem deixa de ser absorvida. Por puro cansaço.
O que os estudos revelam
O relatório “Constant Companion: a Week in the Life of a Young Person’s Smartphone Use” da Common Sense Media e da University of Michigan Health diz que adolescentes recebem em média 237 notificações por dia.
Em contrapartida, uma análise da Reuters Institute for the Study of Journalism indica que nos 28 países em que a pesquisa foi realizada, 43% dos usuários optaram por desativar notificações de notícias pois se sentem sobrecarregados pela frequência e irrelevância das mesmas.
Além disso, segundo pesquisa da University of California, o tempo médio de atenção por conteúdo caiu de aproximadamente 2,5 minutos em 2004 para cerca de 47 segundos em 2025.
Esses dados formam um retrato: não é só muito conteúdo… é uma avalanche de estímulos. E nosso cérebro, coitado, vem se adaptando. Mas se adaptar cansa.
Promoções, notificações e a comunicação que vira ruído
Imagine só: de manhã você liga o celular, já tem vinte notificações. Depois trabalha, abre redes sociais, recebe mensagem de anúncio, newsletter, pop-up, banner, vídeo… e ao final do dia… você está exausto.
Por isso digo que em novembro o cenário apenas se repete em uma escala maior: descontos aqui, ofertas ali, contagem regressiva, “só até domingo”, “últimas unidades”. Estímulo demais, atenção de menos.
Assim como a comunicação ficou saturada, nosso sistema de escuta individual também está. O “ruído” das ofertas e dos conteúdos instantâneos minou o ambiente de atenção. A consequência? Menos capacidade de refletir, menos paciência para ler, mais escolhas impulsivas ou desistência completa.
Para fechar
A era da hiperconectividade parece que recém chegou. Mas já estamos há quase duas décadas nessa toada. O que está dando lugar à era do cansaço informacional.
A comunicação hoje, em geral, exige tudo: atenção, resposta, engajamento e devolve pouco em qualidade de experiência.
Então se em meio a tanta “promoção imperdível” em “última chamada” faz você chegar no fim do dia com a cabeça pesada, talvez o maior “desconto” que possa dar a si mesmo seja de estímulos.
(*) Guilherme Bicca é jornalista graduado na Universidade Franciscana (UFN) desde 2008. Nesses anos, especializou-se em assessoria de comunicação integrada, quando realizou trabalhos junto a instituições como Sociedade de Medicina; Apusm; Sindilojas; e, mais recentemente, CDL Santa Maria. Está à frente da comunicação de entidades como Adesm e Secovi Centro Gaúcho; presta assessoria especializada ao Fidem Bank; é redator sênior na Jusfy, legaltech eleita a startup mais escalável do último South Summit. Também é um dos âncoras do Semanário, programa veiculado aqui mesmo em claudemirpereira.com.br; e criador do podcast Bocas do Monte, da TV Santa Maria. Guilherme Bicca escreve às sextas-feiras no site.





Resumo da opera IV. Se ‘[…] os influenciadores perdem a voz […]’ agora é literalmente. Porque o anuncio pode ser bloqueado. Ou ‘pulado’. Atenção sai do que é anunciado para se concentrar no bloqueio ou no ‘pulo’. Com mais controle de quem recebe a mensagem e da interação entre os receptores o jogo muda muito. Obviamente nos cafundós do Judas como SM ainda não.
Resumo da opera III. Noticias via, nesta ordem, Youtube, Instagram, Zapzap, Facebook e depois Tik Tok. Uso geral mais popular Zapzap. 33% somente compartilham noticias.
Resumo da opera II. Reuters Institute for the Study of Journalism Digital News Report. Parceria com a Universidade de Oxford. Destaque do Brasil. Somente 10% acessam noticia por meio impresso. Era 50% em 2013. Empatou com podcasts (também com 10%) e tecnicamente empatou com chatbots de inteligencia artificial (9%). Somente 17% pagam por noticias online. Confiança dos noticiarios em geral é 42% (58% não confiam). Era 62% de confiança em 2015.
Resumo da opera. Estudos feitos no exterior não pegam todas as peculiaridades tupiniquins. Existem diferenças culturais importantes.
‘[…] se em meio a tanta “promoção imperdível” em “última chamada” faz você chegar no fim do dia com a cabeça pesada, talvez o maior “desconto” […]’. Pessoal da comunicação ainda não se deu conta de que o mundo mudou. Só no discurso. Continuam fazendo tudo como era antes. É a ‘escassez’, a familia, criança, cachorrinho, ‘muitas emoções’. Não conseguem ser objetivos. Anuncio em 5 segundos.
‘O que está dando lugar à era do cansaço informacional.’ Pessoal mais jovem está adaptado. Não são as ‘vitimas’ que muitos tentam vender a imagem.
‘[…] não é só muito conteúdo… é uma avalanche de estímulos.’ Sim, o mundo vai acabar!
‘Além disso, segundo pesquisa da University of California, […]’. Universidade da California. A citada fica em Irvine.
‘[…] 43% dos usuários optaram por desativar notificações de notícias […]’. Metade da ‘noticia’ para variar. Estudo mostra que 79% dos usuarios de smartphones não receberam alertas de noticias e 43% desabilitaram porque acharam o numero demasiado ou porque eles não eram uteis.’
‘[…] , a atenção virou commodity […]’. Pegando emprestado da politica. Constituição garante a liberdade de expressão. Dizem que todos tem direito a opinião, o que é mais ou menos respeitado, mas poucos tem o direito a serem ouvidos.