Espelhos, caipirinhas e a arte contra o narcisismo global – por Amarildo Luiz Trevisan
“Abrir-se à diferença, primeiro passo para não se tornar prisioneiro de si mesmo”

Como preparar o espírito para viver em outro mundo? Era 2014. Com o pós-doutorado aprovado, arrumava as malas para Madri, enquanto o coração, inquieto, dançava entre a alegria da partida e a vertigem do desconhecido. Mas não era só isso, nem somente comprar as passagens para toda a família e preparar o passaporte para os costumeiros carimbos. Sentia que antes de sair do Brasil e pousar noutro canto do mundo, eu precisava aprender com quem já fez a travessia.
Enquanto preparava tudo isso e enviava os e-mails de praxe, fui ao meu cantinho favorito na universidade buscar inspiração: a biblioteca central da UFSM. Em seguida, como quem consulta os búzios ou oráculos, lancei meu olhar pelas bases de dados online, esperando que algum livro me puxasse pela mão e dissesse: “Você precisa me ler antes de embarcar.”
E realmente ele me puxou. João Ubaldo Ribeiro, com seu Um brasileiro em Berlim, me caiu nas mãos como uma mensagem dentro de uma garrafa jogada ao mar por alguém que já atravessara a linha tênue entre o familiar e o estrangeiro. Comecei a leitura quase por curiosidade, mas logo percebi que algo mais fundo me acenava. As crônicas de Berlim me tomaram como uma conversa rara e fui até o fim, embalado pela sensação de que ali havia algo diferente que eu precisava compreender antes de partir.
Ubaldo narrava não apenas os choques culturais de sua temporada alemã, mas também os pequenos abalos sísmicos que a diferença provoca em quem ousa habitá-la. Foi convidado pelo governo alemão, através do DAAD, a viver 15 meses em Berlim no ano de 1990, em plena reunificação alemã e, de quebra, escrever sobre isso. Seu compromisso incluía, além de algumas palestras, a publicação regular de crônicas no jornal Frankfurter Rundschau. O que produziu foram crônicas deliciosas, onde o brasileiro libidinoso e o alemão glacial se encontram, batem cabeça, se estranham e, por fim, se reconhecem.
No meio do estranhamento linguístico – onde cada palavra parecia uma centopeia ortográfica – Ubaldo fez o que todo baiano de boa-fé faria: inventou um jeito. Reuniu alemães em festas regadas a moqueca e caipirinha, temperou o desconforto com afeto e fez da cozinha o idioma universal da aproximação. Sua casa virou ponto de encontro, terreiro intercultural, antídoto contra a solidão e, veja só, contra o preconceito.
Mas foi uma conversa específica que virou chave para mim. Quando perguntou ao seu anfitrião por que um país rico financiaria a estadia de um escritor estrangeiro apenas para observá-los, ouviu: “Para que possamos nos ver com os olhos de vocês.”
Ali está, talvez, o cerne do livro e o coração da filosofia: ver-se pelos olhos do outro. Eis o antídoto contra o narcisismo que hoje grassa pelo mundo. Contra esse impulso infantil – ou senil – de se olhar no espelho e achar que é o único reflexo possível. A alteridade não é apenas aprender sobre o outro, mas permitir que o outro nos veja. É um espelhamento mútuo, uma dança de reflexos.
Freud já nos advertira: o narcisismo é a armadura psíquica do bebê-rei. Piaget, mais generosamente, chamava de egocentrismo infantil. E nos dizia que o auge do desenvolvimento humano se dá quando somos capazes de descentração – de perceber que o outro também pensa, sente e existe. É quando compreendemos que não somos o sol ao redor do qual tudo gira, mas um planeta entre tantos, habitando o mesmo céu de possibilidades. Ou, dito poeticamente, é quando paramos de ver o mundo como reflexo do nosso espelho e começamos a habitá-lo como quem caminha por um jardim, onde cada flor tem seu tempo e sua beleza.
Se isso vale para pessoas, como bem demonstrou o anfitrião alemão na conversa com Ubaldo, deve valer também para nações. Um país que se dobra sobre si mesmo como um origami narcísico, que se recusa a escutar vozes externas, corre o risco de virar caricatura de si próprio. Trump, uma espécie de Narciso em traje presidencial, ilustra com perfeição essa lógica do “eu primeiro, o mundo que se resolva”.
É por isso que os intercâmbios são mais do que experiências acadêmicas, surgem como pequenas revoluções educativas silenciosas. São exercícios éticos. Atos de humildade diplomática. Ensaios da convivência. Abrir-se à diferença é o primeiro passo para não se tornar prisioneiro de si mesmo. Não por acaso, os regimes autoritários desconfiam das viagens, das trocas, das línguas estrangeiras. Eles sabem que onde há alteridade, há também relativização do poder.
João Ubaldo, com sua panela de barro e seu olhar sagaz, ensinou isso sem precisar dar lição. Mostrou que, às vezes, um bom prato de vatapá diz mais do que um tratado de filosofia. Que dançar frevo na sala de estar com alemães pode ser uma forma delicada, e saborosa – de filosofia aplicada.
A Alemanha que o acolheu também deu um passo admirável: trouxe um estrangeiro para que ele a visse, a narrasse e, assim, lhe ajudasse a se enxergar de fora. Esse gesto, vindo de um país que acabava de se reunificar, foi em si uma lição silenciosa de alteridade.
Ambos, anfitrião e hóspede, fizeram do encontro um espelho recíproco, onde cada um pôde se ver pelos olhos do outro e, quem sabe assim, se ver melhor.
E eu, naquela tarde de despedidas, compreendi que a melhor bagagem que eu podia levar para Madri não era a mala cheia de casacos – até porque, como fui descobrir depois, na Feira do Rastro, ou simplesmente El Rastro, há roupas de estilo impagável sendo vendidas nos brechós por preços que fariam inveja até um camelô brasileiro. A feira acontece aos domingos e feriados no centro histórico de Madri, mais precisamente no bairro de La Latina. É um programa tradicional e popular, com mais de quatro séculos de história, onde se encontra de tudo: de quinquilharias encantadoras a peças raras, de antiguidades a novidades com cheiro de passado.
Mas, enfim, o que eu realmente levei foi uma ideia simples e, ao mesmo tempo, revolucionária: o mundo é maior do que o nosso espelho. Na mente, um livro de crônicas; no espírito, uma disposição serena: não de resistir à diferença, mas de me deixar atravessar por ela.
E o antídoto contra o narcisismo é simples, embora raro, chama-se alteridade. Porque, ao fim e ao cabo, a alteridade é isso: um chamado a deixar-se ver, a deixar-se tocar, a reconhecer que há muitos mundos dentro do mundo. Ou, se quisermos um nome mais saboroso: caipirinha servida com empatia.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera. ‘Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é.’
Lucas 4:23. ‘Médico cura-te a ti mesmo’. Ao narcisismo junta-se a megalomania. O narcisismo é dos outros. E global ainda por cima.