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ESTADO. Tição, revista fundada em meio à ditadura, retoma publicações após mais de 40 anos de hiato

Publicação volta traçando paralelos entre o Brasil de antes e o Brasil de hoje

Capa das duas primeiras edições da Revista Tição, lançadas em 1978 e em 1979, respectivamente (Foto Jeanice Dias/Arquivo)

Reproduzido do jornal eletrônico SUL21 / Texto assinado por Lucas Azeredo

Após mais de quatro décadas de hiato, a Revista Tição, um dos principais marcos da imprensa negra gaúcha, lançará sua segunda edição no próximo sábado (8). Criada durante a ditadura militar, a Tição é reconhecida como patrimônio histórico da intelectualidade negra. Agora, a revista volta às bancas com o tema “Protagonismo da Mulher Negra”, reunindo artigos, entrevistas e conversas que celebram e discutem o papel das mulheres negras em diferentes campos.

O lançamento ocorre durante o Seminário Caminhos de Resistência – Mulheres Negras e Quilombolas, a partir das 15h, no Ritter Hotel (Largo Vespasiano Júlio Veppo, 55 – Centro Histórico). A Tição integra acervos de museus como o Museu Afro Brasil e o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa. Agora, seus membros remanescentes retomam o trabalho com a produção de novas edições.

Entre os antigos colaboradores está Emílio Chagas, editor da revista e um dos fundados originais. “Alguns anos atrás eu já tentei trazer a revista de novo, mas não conseguimos. Reunimos os fundadores remanescentes. Ainda somos quatro vivos. Apresentei essa proposta para o grupo e voltamos”, conta Emílio.

O retorno oficial foi no dia 28 de janeiro deste ano, em evento na Biblioteca Pública do Estado que reuniu mais de 200 pessoas. “Tinham os militantes históricos presentes, mas muita gente nova. A receptividade foi muito grande, até surpreendeu a gente”, comenta Chagas.

A volta da Revista Tição aconteceu de uma maneira muito distinta de como ela foi criada. Com apoio financeiro vindo de uma emenda parlamentar da ex-deputada federal Reginete Bispo (PT-RS), quando a parlamentar ainda estava no Congresso, a Tição pode estruturar melhor a sua produção em comparação com as origens da revista.

“Teve uma grande influência, uma grande aceitação. Houve até uma certa surpresa com a nossa volta. Uma volta mais organizada, com 1.500 exemplares. É uma estrutura melhor atendida do que aquela forma artesanal de quase 50 anos atrás”, relembra Emílio

“Publicação negra jornalística política”

“A revista teve início com o Jorge Freitas e comigo. Nós éramos militantes do movimento estudantil e estudávamos no Julinho. E a gente via ali nos anos 70, de ditadura, que tinha muito forte aquela imprensa alternativa, também chamada de ‘imprensa nanica’”, relembra o editor da revista. Emílio Chagas diz que, na concepção, o objetivo era criar uma “publicação negra jornalística política”.

A revista seria uma novidade editorial. Há mais de 40 anos, o Brasil não tinha uma publicação negra. A última tinha sido o jornal “O Exemplo”, também da Capital gaúcha, mas que “não trazia as denúncias, o enfrentamento”,  diz Chagas. Assim, a Tição viria a ser pioneira na denúncia do cotidiano negro.

“Não havia nada, nenhuma imprensa voltada para a expressão negra. Então, a partir daí, nos juntamos e fomos procurar os jornalistas negros de Porto Alegre. Tínhamos uma meia dúzia”, relata Chagas. Um dos jornalistas negros da Capital era a repórter Jeanice Dias, da Fundação Educacional Padre Landell de Moura.

“Nós éramos jornalistas recém-formados trabalhando nos veículos de Porto Alegre e achávamos que a mídia hegemônica invisibilizava o negro. Nós queríamos trazer coisa interessante que falasse com a comunidade negra de Porto Alegre”, diz Jeanice. 

“Nós trouxemos questões sobre o racismo na escola, a violência policial, o apagamento negro no Rio Grande do Sul, a questão estética como o cabelo, o negro no futebol, entre outros temas. Assuntos que não eram abordados ainda. Eram coisas que estavam subjacentes no imaginário negro”, ressalta Jeanice Dias.

“Eram temas que não eram levantados na grande imprensa”, reitera. Jeanice participou desde o começo da formação da revista, principalmente na parte operacional de arrecadação de dinheiro. O que atraiu a repórter para o projeto foi a possibilidade de tratar de assuntos inéditos em um veículo que falasse da sua própria realidade, invisibilizada na imprensa até então.

“Eu sentia falta de um veículo nosso. Tu pode ver que as pautas da Tição são contemporâneas ainda, embora tenham sido feitas em 1978”, comenta.

Os “intelectuais” da revista

Apesar de concebida por um grupo de jornalistas da Capital, em seguida a revista abriu espaço para outros que queriam contar e debater suas experiências como pessoas negras em Porto Alegre.

“A gente não deixou só jornalista participar. Tinha office boy, auxiliar administrativo, estudante… Era catártico. As pessoas queriam ser ouvidas”, comenta Jeanice. “A gente conseguia reunir muita gente. As pessoas se sentiam contempladas”, destaca.

Por conta dessa diversidade e o anseio de discutir o racismo estrutural no Brasil, o viés político comandava a definição das pautas da Tição. “As reuniões de pauta se tornaram grandes nuvens de militância. As pautas eram verdadeiras discussões políticas. Intermináveis discussões políticas. Por isso também que a revista custou a sair”, conta Emílio.

Entre os não-jornalistas, dois tiveram papel essencial na fundação da revista: o sociólogo Edilson Nabarro e o poeta e ativista do movimento negro Oliveira Silveira.

“Eu moro em Porto Alegre há 50 anos. Vim de Cruz Alta em 1976. Mas, desde 1976, eu milito organicamente no movimento negro. Eu me dava com alguns militantes, entre ele o Oliveira Silveira. Aí eu soube das tratativas desse grupo de jornalistas negros e me incorporei a esse grupo, mais o Oliveira Silveira e o Walter Carneiro”, relembra Edilson Nabarro, que também é professor da UFRGS.

Apesar de não ser do meio da imprensa, Nabarro se interessou pela ideia de fundar um veículo voltado às questões negras, ao cotidiano negro na Capital e sobre a experiência de uma militância fora do movimento negro.

Ainda, Edilson destaca que a época em que a revista foi criada era um momento ímpar no movimento negro pelo mundo, com as lutas contra o apartheid na África do Sul, pelos direitos civis nos EUA e por independência nas colônias africanas. “Estamos em um momento de efervescência do protagonismo negro nas lutas libertárias”, enfatiza.

Com isso, surgiu a necessidade de refletir sobre a nova cara do movimento negro no país, já que as entidades negras militantes estavam se reorganizando após muitos anos. No Brasil, a principal luta era para denunciar e desmistificar o mito da democracia racial, conceito que diz que a miscigenação do povo brasileiro criou uma convivência harmônica entre as raças que formam o país.

“Eu, com a Sociologia, temperei um pouco o ‘formalismo’ do jornalismo clássico. E o Walter Carneiro trouxe a política mais radical. Nós contribuímos para dar um viés mais reflexivo, mais crítico do que uma mera reprodução de notícias”, diz o sociólogo.

Oliveira Silveira, por sua vez, contribuiu com uma parte fundamental da Tição: o nome.

“Tição” significa um pedaço de carvão ou de lenha queimado. O termo era usado com intuito racista, usado para ofender pessoas pretas com a pele mais escura. Silveira quis reverter o significado da palavra.

“Foi uma sugestão do Oliveira Silveira”, lembra Emílio Chagas. “Como pesquisador da cultura negra rio-grandense, ele buscava muito essas referências. Linguajares, termos herdados trazidos pelo povo escravizado. Era de Rosário do Sul, tinha intimidade com essa lida campeira”, comenta.

“Resolvemos assumir o termo como uma espécie de ressignificação antirracista”, destaca o editor da revista. Assim nasce, em 1977, a Revista Tição.

“A Tição não se caracterizou por ser uma imprensa negra ‘panfletária’. Nós sempre fomos uma revista de reflexão, de resgate histórico, de dar visibilidade para as questões negras. Uma revista de qualidade editorial e de bons textos”, frisa Edilson Nabarro.

Publicando em meio à ditadura

Ao todo, a Revista Tição teve três edições, sendo uma em 1978, a segunda em 1979 e a terceira, e última antes do retorno da publicação agora em 2025, em 1980.

Além das longas reuniões de pautas e a coordenação de um grande grupo de militantes, a falta de recursos atrapalhava a produção da revista.

“Foi um processo muito coletivo e a revista foi feita praticamente de uma forma artesanal. Não tínhamos recursos, era um autofinanciamento”, diz Emílio.

Entre as ações para arrecadar dinheiro, shows com artistas locais no festival Música Negra do Sul, com presença da Polícia Federal observando o evento, e uma mostra de filmes negros, entre outras atividades coordenadas por Jeanice.

Outra dificuldade foi com relação à comercialização da Tição. Os fundadores até levaram cópias para as bancas de revista, mas não recebeu tanto destaque, ficando na parte mais baixa da banca. Assim, a única forma de vender as edições era de mão em mão.

“A revista era vendida em espaços culturais da cidade: saída de shows, saídas de teatros, clubes negros… Vendidas de mão em mão. Uma forma muito ‘amadora’, digamos assim”, comenta Chagas.

“Foi tudo um parto, tudo muito difícil”, diz Jeanice Dias. Ainda, havia um complicador maior na produção de uma revista independente politizada, o que atrasou a publicação da revista: passar pela censura da ditadura militar.

“Nós tivemos uma particularidade que a revista levou um tempo porque estávamos esperando autorização do Ministério da Justiça para que a revista fosse publicada”, aponta Edilson Nabarro.

A publicação das três edições da Tição aconteceu nos anos finais da ditadura militar no Brasil, em que não só apenas as liberdades políticas e individuais foram suprimidas, mas como a liberdade de imprensa se tornou alvo dos militares e da censura.

“A gente levava a revista para a censura e não sabia se ia voltar. Não só a revista como a gente”, diz a repórter Jeanice Dias. “Lá na censura tem todos os nossos nomes como sendo observados”.

Os encontros da revista eram vigiados de perto pela polícia, com agentes infiltrados nas reuniões e participando dos eventos de arrecadação de fundos. Jeanice chegou a ser visitada por um policial na sua casa. “Eles foram muito inteligentes. Eles mandaram um policial negro para nos entrevistar. Então eles pegaram todos os nossos dados e da revista”, recorda a repórter.

À época, os integrantes da revista foram até a sede do MDB, único partido de oposição permitido pela ditadura, relatar que eles estavam se sentindo pressionados.

“Três pessoas se reuniam na Esquina Democrática e a polícia já vinha falando: ‘circulando, circulando’. Imagina uma reunião de pauta de uma revista de negros”, comenta Jeanice.

Com a publicação da primeira edição e continuidade dos trabalhos, a Tição se tornou referência para o movimento negro em todo o país. “Ela saiu do Sul, né? Ela é uma revista que a marca dela é ser pioneira e ser do Rio Grande do Sul, um estado onde a cultura negra é mais oprimida”, aponta Emílio Chagas.

“O que era para ser uma revista, ganhou um vulto imenso e se tornou praticamente um movimento. A demanda era grande. A questão negra era latente e não havia nenhum canal para tratar essa questão”, observa Chagas.

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