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Nem o Enem escapou – por Guilherme Bicca

A anulação de três questões e o que cerca o concurso que interessa a milhões

Num país em que absolutamente tudo que é público parece viver sob risco permanente de corrosão, era só uma questão de tempo até que o Enem entrasse em uma zona cinzenta de suspeitas.

Em 2025, o Exame Nacional do Ensino Médio, teste final que define o futuro de tantos brasileiros, cravou uma estaca no coração de um pacto social que tenta manter a educação como caminho legítimo de ascensão.

A bomba começou quando o INEP anunciou que vai anular três questões da prova do Enem 2025. A razão? “Similaridades pontuais” entre aquilo que caiu no exame e “dicas” que circularam na internet, de acordo com o próprio instituto.

“Ah, mas todo ano, tudo que é concurso público e vestibular tem questões anuladas”. Sim… porém, nesse caso em específico, o INEP acionou a Polícia Federal, alegando possível “quebra de confidencialidade ou ato de má-fé”.

Até porque, isso não se restringe às questões anuladas: a suspeita é de que um “professor” (mais um “jênio” do mercado digital) estaria (há anos) oferecendo mentoria online para o Enem, na qual ele, magicamente, apresenta exercícios com texto muito similares a questões que vem a cair na prova posteriormente. E o conteúdo se resume a “se esta questão cair, e houver esta alternativa aqui, nem precisa ler… é só marcar”.

Segundo as investigações, ele pagaria para os testadores memorizarem as questões da prova.

Este mentor, que sequer professor é, possui a credencial de ter sido aprovado em medicina. E alega (para quem quiser ouvir) ter desenvolvido, através de engenharia reversa, uma técnica… um algoritmo. E que basta seguir o passo a passo para acertar as questões da prova, mesmo sem ter estudado.

Ou seja, não estamos falando de um candidato que tirou vantagem ao “colar na prova”. Mas de um sistema de vazamentos, estratégias prévias, de todo um mercado para aprovar quem pode pagar pela vantagem, aparentemente ilegítima, oferecida pelo guru do Enem.

O que mais me preocupa é que para muitos estudantes pobres, o Enem representa um divisor de águas, com potencial para ser um dos momentos mais importante de suas vidas.

Uma boa nota representa a chance de conseguir bolsa ou vaga pública naquilo que é o passaporte para uma vida mais digna. E perder essa oportunidade pode ser irreversível. Afinal, a maioria não pode seguir tentando, não com o mesmo afinco, por anos seguidos. É preciso pagar as contas… e com essa necessidade premente, lá se vai o sonho de ser médico, advogado, engenheiro, professor.

Além disso, a credibilidade do exame é posta em xeque. O INEP e a Polícia Federal terão que “queimar em praça pública” os responsáveis por essa artimanha para exorcizar a desconfiança que recai sobre o Enem.

O que está em jogo é muito maior do que algumas questões anuladas por suspeita de vazamento: é a vida de milhões de jovens que depositam tudo nesse exame.

E quanto ao “jênio” que supostamente fraudou o sistema… não dá pra negar o quanto foi ousado e inovador. Aliás, inovador não… porque no Brasil, fraudar a coisa pública, desiludir e prejudicar milhões, e ainda colocar a cara em vídeo alegando que não fez nada errado, não chega a ser inovação.

(*) Guilherme Bicca é jornalista graduado na Universidade Franciscana (UFN) desde 2008. Nesses anos, especializou-se em assessoria de comunicação integrada, quando realizou trabalhos junto a instituições como Sociedade de Medicina; Apusm; Sindilojas; e, mais recentemente, CDL Santa Maria. Está à frente da comunicação de entidades como Adesm e Secovi Centro Gaúcho; presta assessoria especializada ao Fidem Bank; é redator sênior na Jusfy, legaltech eleita a startup mais escalável do último South Summit. Também é um dos âncoras do Semanário, programa veiculado aqui mesmo em claudemirpereira.com.br; e criador do podcast Bocas do Monte, da TV Santa Maria. Guilherme Bicca escreve às sextas-feiras no site.

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4 Comentários

  1. Resumo da opera. Brasil é Brasil. Achar que podera ser diferente ‘daqui 50 anos’ é excesso de otimismo.

  2. ‘[…] para muitos estudantes pobres, o Enem representa um divisor de águas, com potencial para ser um dos momentos mais importante de suas vidas.’ Isto é pura teoria. Mundo ‘adivinhado’ no ar condicionado. Imaginar que a experiencia pessoal (seja propria ou de ‘conhecidos’) se repete infinitamente. O curso superior como ferramenta de mobilidade social. Mundo mudou.

  3. Existe um aspecto cultural. As vezes certas praticas ‘vazam’ do setor publico. Vide comercio e serviços (incluindo saude) da aldeia. Muita gente se comporta com a falta de diligencia e atenção do setor publico.

  4. Por partes como diria Elize Matsunaga. ‘Num país em que absolutamente tudo que é público parece viver sob risco permanente de corrosão […]’. Existem ‘incentivos extras’ na iniciativa privada também. Setores de compras de empresas privadas são altamente vigiadas, mesmo assim o sucesso não é total. Setor de contas a pagar idem.

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