Noé Século XXI – por Orlando Fonseca

Às margens do Rio Taquari, Roca Sales, uma das cidades mais atingidas pelas águas em 2024, poderá trazer à luz, concretamente, um símbolo bíblico de salvação diante de um dilúvio. Não é apenas um Noé, mas um grupo com o mesmo espírito do patriarca. Moradores do município, que sofreram com quatro enchentes no intervalo de dez meses, criaram a Associação Amigos Reconstruindo Roca Sales. E entre os projetos em andamento está a construção de uma enorme embarcação. Obviamente que os associados não pensam em se salvar das águas, entrando no barco, cujas medidas devem refletir o tamanho da Arca de Noé citada na Bíblia. A inspiração veio da Ark Encounter, que fica no Kentucky-EUA, e tem o tamanho exato da construída por Noé: “trezentos côvados o comprimento e cinquenta côvados a sua largura, e de trinta côvados a sua altura”, segundo o relato em Gênesis 6:15. Em tempos de COP 30, é importante resgatar daquele mito no Velho Testamento a circularidade da indiferença diante dos desastres naturais e do escárnio aos seus mensageiros.
A iniciativa acrescenta valor simbólico à retomada da região, pois é compreensível ser necessário mais do que um monumento, embora sua representação mítica seja poderosa. Há decisões importantes, à luz da ciência, para recuperar o Estado e o planeta, mais do que as referidas pelas Escrituras, as quais exigem fé antes do que ações concretas e urgentes. Mantendo a referência bíblica, importa reconhecer que, enquanto nos tempos míticos a Providência Divina (Deus) é quem deu as instruções, hoje temos a ciência a favor de providências decisivas para mitigar os efeitos dos extremos climáticos. Podemos ver nos ambientalistas, que estão a fazer previsões catastróficas desde a década 60 do século passado (Lutzenberger, Chico Mendes), a figura de Noé, tentando convencer os seus contemporâneos do desastre iminente. Os descrentes podem ser figurados em Donald Trump, expoente dentre os negacionistas, gente que, certamente também estaria entre os zombadores do Noé e suas profecias. Na atualidade, a Arca se emblematiza nas medidas urgentes para arrefecer os efeitos do aquecimento global.
O novo relatório Estado do Clima 2025, publicado na revista científica BioScience, alerta que os “sinais vitais” do planeta estão em estado crítico: 22 dos 34, o maior número já registrado desde o início da série histórica. Os pesquisadores são contundentes: o mundo caminha para um colapso ambiental sistêmico se não houver ação imediata. A Terra tem ultrapassado os limites seguros de aquecimento e estabilidade climática. Desde 2023 a temperatura média 1,5°C está acima dos níveis pré-industriais, e tende a subir mais; em 2024 e, tudo indica, em 2025 as emissões de CO2 serão recordes. Esse aumento coincide com as maiores anomalias térmicas oceânicas da história, com áreas do Atlântico Norte até 5°C acima da média. Os outros sinais não deixam dúvida quanto à emergência: Temperatura média da superfície global; emissões globais de CO2; consumo de energia fóssil; perda de cobertura florestal; perda de gelo no Ártico e na Antártida; nível médio do mar; perda de biodiversidade e por aí vai. Só não vê quem não quer.
Nosso planeta começou a esquentar depois das revoluções industriais, lançando mais gás carbônico na atmosfera, causando o efeito estufa. Os sintomas estão por toda parte, feito a mensagem que Noé transmitia, confiante na palavra divina. Ambientalistas têm pregado no deserto desde meados do século passado, porque negacionistas têm poder, especialmente econômico. Este poder foi amplificado e potencializado pelas redes sociais, anulando a voz da ciência, com a única pretensão de obter lucros imediatos, sem perspectiva de futuro. Noé pregou 120 anos, antes do dilúvio – mas ele veio, de acordo com a narrativa bíblica – e só conseguiu se salvar com sua família e animais porque entraram na Arca, em obediência à palavra divina. A única salvação agora é confiar nos dados que a ciência coloca à nossa disposição. E permitir que a natureza se recupere, a fim de que os níveis de calor voltem aos da era pré-industrial. Esta é a mensagem – já nem tão profética assim, mas de todo modo urgente – dos nossos tempos.
(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.





Resumo da opera III. Querem ‘salvar o mundo’, mas moram numa cidade que nem uma coleta seletiva decente possui. ‘Salvar o mundo’ e ‘salvar a humanidade’. Uma boa maneira de fazer nada.
Resumo da opera II. Vermelhos com suas soluções simples, rápidas e erradas. Para toda solução que apresentam existem dois ou mais problemas que ele acreditam resolver na base da conversa. Problemas inclusive que podem ter os mesmos efeitos, ou até piores, dos que eles pretendem evitar.
Resumo da opera. Emissões vão diminuir. Não no ritmo que os catastrofistas desejam, mas vai acontecer. Isto já foi até comentado em outros posts.
‘E permitir que a natureza se recupere, a fim de que os níveis de calor voltem aos da era pré-industrial.’ Sozinho não acontece, necessario captura de carbono. Que não tem tecnologia definida e tem custo.
‘A única salvação agora é confiar nos dados que a ciência coloca à nossa disposição.’ Previsões furadas também fazem parte. Derretimento total do gelo da Antartida. Previsões do aumento do nivel do mar entre 6 e 58 metros.
‘[…] porque negacionistas têm poder, especialmente econômico.’ Desqualificação de praxe. Falta argumentos. Vendem que ‘é só parar de usar combustiveis fosseis amanha e daqui uma semana tudo bem’. Não têm a minima idéia sobre o assunto que ‘opinam’.
‘ Os outros sinais não deixam dúvida quanto à emergência: […] Só não vê quem não quer.’ Todos veem. Só não acreditam na ‘emergencia’ que os vermelhos propagandeiam. Motivo simples, quem acha que é facil é porque nada faz de concreto em area nenhuma. Esfrega a barriga na mesa numa sala com ar condicionado.
‘[…] em 2024 e, tudo indica, em 2025 as emissões de CO2 serão recordes.’ Em 2024 subiram 0,8% por conta dos combustiveis fosseis. Paul Mccartney criticou servirem carne na Flop30. Mas quando veio ao Brasil na ultima vez andava de jatinho Falcon 7x. Que consome 1200 litros de combustivel por hora.
‘Desde 2023 a temperatura média 1,5°C está acima dos níveis pré-industriais,[…]’. Conversinha agora é que as metas do Acordo de Paris ainda estão de pé porque o aumento de 1,5º só ‘vale’ se for na média dos ultimos 10 anos.
‘Os descrentes podem ser figurados em Donald Trump,[…]’. Não tem argumentos, logo as desqualificações de praxe.
‘Há decisões importantes, à luz da ciência, […]’. Vermelhos aprenderam uma palavra nova durante a pandemia, o que é de espantar, e agora usam como bordão. ‘Ciencia, logo temos “razão”. Mesmo com suas ‘receitas’ não tendo nada de ‘cientifico’.
‘[…] e do escárnio aos seus mensageiros.’ Sim, o ‘povo escolhido’. Gente que quer utilizar os desastres como ferramenta politica. ‘O mundo vai acabar’. Apelos emocionais de costume.
‘A iniciativa acrescenta valor simbólico à retomada da região […]’. Cascata do ‘turismo religioso’. Entraram na onda do ‘Cristo Protetor’. SM queria construir uma estatua gigante da Medianeira. Coisa de cidade pequena, Roca Sales tem 10 mil habitantes, Encantado vinte e poucas mil. Serra Negra em SP tem agua mineral. Tem 30 mil habitantes e uma replica da Fontana de Trevi.
Alas, o ‘simbolico’ no Brasil foi elevado a categoria de retardamento mental. Geralmente é uma bobagem que desperdiça tempo e dinheiro. Lembra a ‘magia por simpatia’ (‘sympathetic magic’) da antropologia.
‘[…] um símbolo bíblico de salvação diante de um dilúvio.’ O simbolico da Biblio é o arco-iris. Arca foi somente um meio.