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Políticas Afirmativas da UFSM: acesso, reparação e transformação institucional – por Jesse da Cruz

“A implementação destas políticas gera tensões e exige vigilância constante”

Neste dia de reflexão e ação das relações afro-brasileiras, esse texto traz uma escrita de reparação e compreensão das políticas afirmativas para pessoas negras nos espaços educacionais de ensino superior no âmbito federal, como foco na UFSM e sua resolução de Nº 228/2025.

As Políticas Afirmativas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), estabelecidas pela Resolução N° 228/2025, representam um esforço institucional complexo que visa à correção de injustiças históricas e desigualdades estruturais que permeiam o acesso ao ensino superior. Tais ações buscam promover a equidade, garantindo que os corpos discentes, docentes e técnicos, reflitam a diversidade étnico-racial e socioeconômica da população brasileira e regional, enriquecendo o ambiente acadêmico com múltiplas perspectivas.

Elas atuam como um fundamental mecanismo de reparação, fornecendo rotas alternativas para grupos historicamente sub-representados, como estudantes de baixa renda egressos de escolas públicas, pretos, pardos e indígenas que, devido à desigualdade na educação básica e ao racismo estrutural instaurado pela lógica colonial, enfrentam barreiras no acesso ao ensino superior.

O sucesso desta iniciativa não se limita ao acesso, mas se estende à comprovação de que, com o apoio adequado, estudantes que adentrem via política afirmativa alcançam um desempenho acadêmico de excelência, reforçando a necessidade de investimento contínuo em programas de assistência estudantil.

A implementação destas políticas, contudo, gera tensões e exige vigilância constante. O ponto de maior controvérsia reside na autodeclaração no quesito raça/cor. A Resolução N° 228/2025, para garantir sua eficácia e legitimidade, exige ser complementada por rigorosos mecanismos de heteroidentificação para coibir fraudes, conforme podemos verificar em diversas instituições e denúncias nas fraudes em todos os âmbitos de ingresso das federais.

O foco da avaliação das Comissões de Heteroidentificação deve recair sobre o fenótipo – a aparência que submete o indivíduo ao racismo social – e não apenas a ascendência. A composição dessas comissões, com membros diversos e submetidos a treinamento contínuo, é vital para assegurar a uniformidade, a sensibilidade e a justiça nas decisões, impedindo que oportunistas desviem vagas destinadas à reparação.

Todo o processo deve ser transparente, com registro e garantia de direito ao contraditório por meio de instâncias de recurso, pois qualquer falha na fiscalização compromete a credibilidade da ação e mina o princípio de reparação histórica.

A política enfrenta também a crítica, oriunda de setores conservadores, sobre a suposta violação da meritocracia e o risco de “queda da qualidade” do ensino, conforme denúncias apresentadas por discentes na ouvidoria da própria UFSM. Essa crítica, porém, desconsidera que a meritocracia é falha em um contexto de oportunidades fundamentalmente desiguais.

O foco institucional deve ser, portanto, na manutenção da excelência acadêmica ao mesmo tempo em que se oferece o apoio pedagógico necessário aos alunos que chegam com deficiências de base. Além disso, a adequação dos critérios é vital: o foco no egresso de escola pública é acertado, mas o corte de renda e a abrangência para PcD (pessoas com deficiência) e comunidades específicas (como quilombolas da região) devem ser criteriosamente revisados e explícitos.

O segundo pilar essencial é o da permanência e do sucesso acadêmico. Garantir o acesso sem sustentar o estudante na jornada é apenas transferir a desigualdade para dentro da universidade, o que resulta em evasão. O apoio socioeconômico, traduzido em auxílios (moradia, alimentação, transporte) e bolsas, é um insumo fundamental para que a vulnerabilidade social não force à evasão. A UFSM deve gerir sua assistência estudantil de forma eficiente, reconhecendo-a como diretamente proporcional ao sucesso da política de cotas.

Paralelamente, é indispensável o suporte pedagógico e psicológico. Muitos ingressantes, devido à precarização da educação básica, chegam com deficiências de conteúdo que exigem a provisão de uma equidade de ensino através de monitorias e grupos de acolhimento. O suporte psicológico é igualmente vital, pois o estigma e a síndrome do impostor são realidades enfrentadas pelos estudantes, que lidam com a pressão de “provar que merecem” a vaga. A universidade tem o dever de criar um ambiente de acolhimento institucional que legitime suas trajetórias e proteja-os das microagressões.

Finalmente, a Resolução N° 228/2025 deve ser concebida como uma política de tempo determinado e sujeita a avaliação contínua. As métricas de sucesso precisam ir além do mero número de ingressantes, monitorando indicadores como a Taxa de Graduação e seu desempenho em avaliações externas e ingresso na Pós-Graduação, atestando a qualidade da formação.

O horizonte temporal da política, idealmente revisto periodicamente, exige que a instituição se questione: a política só deve ser descontinuada quando os indicadores de desigualdade no acesso, motivados por fatores raciais e sociais, se alinharem com a distribuição populacional.

A manutenção da política deve ser justificada pela necessidade de superação das desigualdades estruturais, e não se tornar um fim em si mesma.

A execução responsável da Resolução exige, em última instância, um compromisso financeiro e político contínuo da gestão universitária, transformando a UFSM em um verdadeiro motor de ascensão social e excelência acadêmica.

(*) Jesse da Cruz é docente ingressante pela política de cotas da Universidade Federal de Santa Maria. O artigo acima foi publicado originalmente no site da Seção Sindical dos Docentes da UFSM (AQUI) e reproduzido com a autorização dele.

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5 Comentários

  1. Resumo da opera. Não tem problema nenhum com as cotas. É um assunto que se resolve sozinho. O mundo real é muito diferente do aquario. Afinal é Brasil. Nos concursos até tem cotas. Mas na iniciativa privada tem entrevista, testes, psicotecnicos, ‘o(a) sobrinho(a) do dono’, etc. Não é um exercicio teorico num mundinho a parte.

  2. Ideologicamente há quem acredite no curso superior como ferramenta de mobilidade social. Não é mais verdade. Motivo simples, nada a ver com cotas, formaram um exercito de pessoas para trabalharem num mercado de trabalho que não consegue absorver. Saturação que só leva ao achatamento salarial. Chegou até na medicina, em SP conseguir plantões já não é tão facil e já não pagam o valor que era antigamente.

  3. ‘[…] estudantes que adentrem via política afirmativa alcançam um desempenho acadêmico de excelência,[…]’. Já vi professora das Letras afirmando isto. Porém não é uma avaliação confiável. Não ha garantia de que não ‘baixaram o sarrafo’ para todos conseguirem pular. O que é muito facil em areas onde a avaliação é subjetiva. Onde o comprometimento ideologico leva pessoas a avaliarem um filme de cinema, por exemplo, como ‘excelente’ mesmo sendo muito ruim. Com ‘diversidade’ e critica social adequados.

  4. Ensino no Brasil é deficiente. Muita gente chega com deficiencias no ensino superior. Sem exceções. Na minha epoca era assim também. Não tem ‘época boa’.

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