“Amores Materialistas”: muito além da conta bancária – por Roselâine Casanova Corrêa
Numa ‘camada superficial até pode ser (comédia romântica). Mas é muito mais’

Há sites de relacionamentos e há agências de relacionamentos. Ambos amplamente utilizados (com ou sem êxito dos usuários). Aliás, mensurar o “êxito” de sites e aplicativos de relacionamento é bem mais complexo do que se imagina. As agências são mais exitosas, uma vez que o “usuário” fornece suas exigências e a agência faz a seleção sem a frieza do algoritmo dos sites. Será?
Em ambos os casos há que se levar em consideração o que se espera na busca desses serviços: um encontro casual, um namoro de longo prazo ou um casamento. O Brasil é o segundo maior mercado do mundo no uso de plataformas digitais de namoro. Os EUA estão no topo do ranking mundial de usuários de aplicativos de namoro.
As agências físicas de relacionamento operam em um mercado mais fragmentado, local e privado e não divulgam dados. Portanto, a dificuldade em obter informações para fins de análises de mercado ou comparações competitivas entre as agências. Ou delimitar o ranking de usuários, em países variados.
E essa é a premissa (as agências de relacionamento) do filme “Amores Materialistas”, lançado nos cinemas no Brasil em julho de 2025 e disponível nas plataformas da Apple TV+ e no Prime Vídeo. Dirigido por Celine Song (cineasta, dramaturga e roteirista sul-coreana-canadense que mora nos EUA), o longa apresenta um elenco estelar: Dakota Johnson, Chris Evans e Pedro Pascal. A trama se passa em Nova York e gira em torno de uma casamenteira de luxo, interpretada por Dakota, a filha exitosa de Don Johnson e Melanie Griffith, e neta da atriz Tippi Hedren. Sim, a moça tem pedigree. E ainda namorou o Chris Martin (Coldplay) por 8 anos.
Em tudo que é site é referido que se trata de um triângulo amoroso entre os personagens interpretados por tais atores. Primeiro, não é um triângulo amoroso. Lucy (Dakota) oscila entre a segurança econômica que Harry (Pascal) pode lhe oferecer e o amor pelo pobretão John (Evans). Em tempos diferentes. À medida que arruma casamento para terceiros, a personagem inicia um questionamento acerca de sua própria vida amorosa.

Segundo, não é uma comédia romântica, categoria que foi aferida ao longa. Em uma camada superficial até pode ser. Mas é muito mais. No subtexto estão presentes a solidão, a busca pelo corpo perfeito (e desejável), a estabilidade econômica e a procura por um amor para toda a vida. E isso ainda existe, talvez questionaria o sociólogo polonês Zygmund Bauman? Aquele que escreveu sobre os “amores líquidos”. Aquele que questionou se a modernidade seria a responsável pela fragilidade dos laços humanos (e afetivos). Aquele que afirmou que as relações humanas estão competindo com as redes. E estão perdendo espaço em significativa velocidade. As redes, afinal, tanto conectam, quanto desconectam.
É nessa realidade que se encontra Lucy. O detalhamento com que os clientes da agência de relacionamentos desejam em um parceiro é como se estivessem comprando carne em um supermercado. Vai da altura precisa à cor dos olhos. Essas pessoas não têm tempo, nem disposição, para relacionar-se da forma tradicional (que consideram antiquadas).
A invocação de “amar o próximo como a si mesmo” é um dos preceitos da vida civilizada, dizia Freud. Mas estamos em tempos de “relações virtuais”, onde as conexões são estabelecidas ou cortadas muito antes de deteriorar-se. Parecem sob medida para o líquido e acelerado cenário da vida moderna, onde as relações surgem e desaparecem em uma velocidade crescente, aniquilando qualquer possiblidade de relação duradoura.
É de se considerar trágica a cena em que uma cliente de Lucy retorna à agência, pois não aprovou o parceiro que lhe foi proposto. E coloca novas exigências, afinal, pagou para ter “o par perfeito”. O filme é, portanto, uma reflexão dolorida dos “novos tempos”. Ou seja, da modernidade tão alardeada como pressuposto do desenvolvimento. Contudo, o desenvolvimento humano ficou à deriva, onde o vazio faz casa e a solidão prospera.
Engolida por essa sombria realidade, Lucy percebe que o que propõe aos clientes e o que está vivendo, é a busca do amor em tempos de relacionamentos frívolos. E materialistas, o que de fato ela é. Onde a busca por parceiros está pautada pelas características físicas e as contas bancárias. E isso, conclui, é muito pouco relevante para a construção de relacionamentos sólidos. Como Zygmunt Bauman estava certo!
(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”.





Resumo da opera. Masturbações psudo-intelecutais a parte. Bianca Zasso já teve coluna no site e fazia a mesma coisa. Adorno sobre todas as coisas. Filme tem que ter critica social para ter ‘emancipatorio’. ‘Ferramente revolucionaria’. Dai qualquer porcaria vira ‘arte’, desde que tenha critica social. Um dos motivos pelos quais o audiovisual tupiniquim não decola. Inventaram a tal Rouanet que dá dinheiro para a cupinchada (via renuncia fiscal), quase ninguém assiste, a cupinchada artistica é Vermelha e quem sofre as consequências e a população que tem que sustentar. Porque ‘cultura’ é o Estado diz que é. Viva Gramsci. Noticia boa é que esta situação tem prazo de vencimento.
Prezado Brando, boa tarde.
De fato, nunca afirmei em meus textos que a arte objetiva, necessariamente, possuir crítica social ou ser revolucionária. Arte já é tudo isso. Mas muito mais.
Pelo contrário, tenho enfocado em todas as resenhas, questões humanas, pertinentes ao mundo moderno e/ou contemporâneo.
Tento também, contextualizar o filme, o que é fundamental para entendê-lo.
E, ao contrário do que você afirma, “o audiovisual tupiniquim” já decolou a tempos.
E sim, as pessoas assistem, gera debates e concorre a prêmios diversos, com êxito.
Grata pelo comentário.
‘[…] talvez questionaria o sociólogo polonês Zygmund Bauman?’ Ele tem um livro ‘Amar liquido’. Pouco lido, como o filme será pouco visto.
Tenho o livro de Bauman que refiro na resenha e sua referência correta é:
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
Mas o autor publicou outros com o mesmo tema:
Vida Líquida; Vida para consumo; Modernidade e Holocausto; Tempos líquidos; Medo líquido; Vigilância líquida.
Muitos deles são leitura obrigatória em vários cursos superiores.
Portanto, Bauman é muito lido, citado e referenciado.
Sobre o filme “Amores Líquidos”:
No IMDb, possui uma nota média de 7,4 (o que é alta). No Rotten Tomatoes, ele obteve 82% de aprovação da crítica, com 150 críticas positivas e 32 negativas.
Quis referir “Amores Materialistas” e não “Amores Líquidos”.
Da série ‘filmes que não verei’. Pelicula formulaica. Comédia romântica com triangulo amoroso. Dakota Johnson é uma ‘nepo baby’. Mesmo assim a carreira não é das melhores. Atuou nos ’50 tons de cinza’ (outro filme dirigido ao publico feminino, não é misoginia, é marketing) e ganhou grana ali. Tentou a Julliard mas não foi aceita. Sofre de depressão. Tem um ar ‘bonitinha mas ordinária’ que não ajuda.
A filmografia de Dakota Johnson é extensa e atua desde a adolescência.
A franquia “50 tons de cinza” é apenas 01 das atuações da atriz.
Dê um Google para ver os filmes mais diversos nos quais atuou.
E veja, eu nego no meu texto que trata-se de um triângulo amoroso no filme referido.
Mas achei curioso o fato de você criticar a atuação de Dakota e não de Chris Evans, que realmente está frágil no longa.
Grata pela leitura e comentários.