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“Depois da Caçada”: os meandros do universo acadêmico – por Roselâine Casanova Corrêa 

Um mundo “indigesto. Corrosivo. Corrompido. E a vaidade grassa, sem dó”

Indigesto. Corrosivo. Corrompido. E a vaidade grassa, sem dó. Visto de longe – mas muito longe mesmo – a realidade acadêmica aparenta certo glamour, capaz de seduzir as inteligências mais diversas. Mas só de longe. Em seu interior, a disputa implacável, em meio as complexidades da cultura universitária; a dificuldade em enfrentar acusações que podem respingar nos mais diversos âmbitos da academia; a ambiguidade entre imagem pública e imagem privada. E, finalmente, o mais trágico: o quanto a verdade pode ser manipulada, sem vestígios de culpa ou reparação.

Os diálogos são escassos, mas há muito ruído. Da música, do celular, do relógio de parede, dos saltos dos sapatos, dos cochichos. E assim é embalado um corpo docente mais preocupado em ser promovido a professor titular do que assumir que uma orientanda plagiou sua tese de doutorado. Estudantes muito jovens, porém nada inocentes, capazes de destruir as mentes mais brilhantes. Mas também frágeis e vulneráveis.

É nesse meio que transitam Alma Imhoff (Julia Roberts), uma professora de literatura apaixonada por sua profissão, casada com o terapeuta Fred (Michael Stuhlbarg). Ao redor deles duas personagens difíceis de se decifrar: Maggie (Ayo Edebiri), tutorada de Alma, e o trágico professor Hank (Andrew Garfield). O enredo enfoca uma possível agressão sexual e a “cultura do cancelamento” no ambiente acadêmico. 

Todo o tempo, faz parecer que todos ali sustentam duas caras e uma adoração narcísica pelo próprio reflexo. Aliás, há muitos espelhos nas mais variadas cenas. “Depois da Caçada” (After the Hunt) foi lançado em outubro de 2025 nos cinemas e está disponível no Prime Vídeo, sob a direção do produtor e roteirista italiano Luca Guadagnino e ambientado na cara Universidade Yale (EUA). 

Ninguém é vilão e ninguém é puro nesse enredo. Omissões? Há várias. Afinal, quem é vítima e quem é predador é uma discussão ao longo de suas 2h19min. As críticas ao filme seguem a lógica do universo acadêmico retratado: transitam entre o excelente e o detestável. Até as críticas são coerentes com o enredo.

A fotografia oferece uma sensação claustrofóbica, claramente para compactuar com os conflitos ali travados. Mas, é curioso perceber, que ao migrar da universidade privada e cara para a escola pública, a protagonista passeia sobre a linda paisagem que a neve proporciona, envergando um figurino mais leve e em tons pasteis, em contraste com a sobriedade de outrora.

Sobre os diálogos, há pérolas como aquela de Alma para Maggie: “Nem tudo foi feito para te deixar confortável […]”. Nem todos irão curtir, uma vez que o filme não foi feito para agradar. Guadagnino sendo o siciliano que [quase] todos amam odiar.

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”.

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11 Comentários

  1. Resumo analítico: Às vezes parece que a vida entrou na sala de cinema errada e saiu anotando o roteiro. Outras vezes, é a arte que espia pelos corredores da universidade e resolve copiar tudo, sem nem disfarçar. Entre uma coisa e outra, fica difícil saber quem imita quem — se é a vida imitando a arte ou a arte imitando a vida.

    O fato é que o glamour só funciona à distância. De perto, há ruídos, papéis bem ensaiados e verdades que trocam de figurino conforme a cena. E assim o espetáculo segue: a vida fingindo que é ficção, a ficção jurando que é exagero — enquanto, no fundo, ambas riem do mesmo segredo.

    Do que se trata, afinal?

    1. Paulo, essa questão de quem imita quem, é um tema central em debates sobre estética e filosofia, mostrando como a arte e a vida estão intrinsecamente ligadas, tornando a linha divisória entre elas muitas vezes indistinguível. Mas também há a questão de que as criações artísticas podem influenciar o comportamento humano e a percepção da realidade. Acredito nisso. Grata pela lúcida “análise”.

  2. Resumo da opera. Não há o que não haja no ambiente academico. Apesar do nariz empinado de alguns e atitude de quem solta pum ‘aroma de rosas’. Alas, uma universidade em SP é famosa pela proliferação de grupos de pesquisa. Forma-se um e quando os egos inchados colidem acontece uma brigaçada. Acontece um racha e logo existem dois (ou mais) grupos com linhas de pesquisa muito semelhantes. Para não dizer identicas. E de-lhe construir predios e comprar equipamentos.

    1. Olá, Brando.
      O ambiente de ensino superior, abrange pesquisa e produção de conhecimento, aulas, debates, orientações e elaboração de artigos científicos, dissertações e teses.
      Em um espaço que exige dedicação, atualização constante, pensamento crítico e habilidades específicas.
      Estima-se que os desafios, a competição e o desgaste emocional sejam responsáveis por expressiva
      percentagem de adoecimento mental.
      Isso é grave.

  3. ‘Ninguém é vilão e ninguém é puro nesse enredo.’ Como em todo ambiente onde existem humanos. De verdade, não os ‘humanos’ dos Vermelhos (papinho altamente n@zist@).

    1. Imaginei que seus “vermelhos” fossem tão humanos quanto os demais.
      Ou teriam chegado à terra em disco voador??

  4. Aqui alguns assuntos não podem ser tratados porque são classificados de ‘ataque a ciencia’ ou ‘ataque as universidades’. Por lá volta e meia estoura um escandalo de falsificação de dados nas pesquisas, resultados que não se consegue reproduzir, autoplagio (mudam o titulo do artigo, reorganizam o texto e publicam em meia duzia de periodicos diferentes; ‘conta’ como meia duzia de publicações diferentes e infla o curriculo).

  5. Contraste com a situação tupiniquim. Aqui a criatura faz a graduação, emenda um mestrado e doutorado. As vezes um pos-doutorado.(as vezes mais do que um). Há concursos sérios e concursos ‘cumpanheros’ (em todas as ideologias). Eugenia nas universidades publicas basicamente (por lá também existe). Termina o estagio probatorio (tres anos?) e estabilidade automatica. Não importa o que foi feito no periodo, se a criatura só lecionou esta valendo.

  6. ‘[…] um corpo docente mais preocupado em ser promovido a professor titular […]’. Não é esta a questão. O busilis é a famigerada ‘tenure’. Uma especie de estabilidade (como garantia de liberdade academica). Que só é adquirida apos um periodo que varia entre 5 e 7 anos. Não é para todos. Criatura tem que estabelecer reputação de pesquisador(a) (ter visibilidade), publicar um horror e ser bastante citado(a), capacidade de atrair recursos para pesquisa (governo, fundações, empresas, etc.), alta capacidade para lecionar, capacidade administrativa (ocupar cargos) e até serviços comunitarios. Quem faz tudo isto e não logra exito é convidado(a) a procurar outra instituição.

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