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Dissonância cognitiva e o bolsonarismo: algumas situações – por José Renato Ferraz da Silveira

Exemplos: “esperem 72 horas”, “Alexandre preso por uma junta militar”,...

“Chegando uma Raposa a uma parreira, viu-a carregada de uvas maduras e formosas e cobiçou-as. Começou a fazer tentativas para subir; porém, como as uvas estavam altas e a subida era íngreme, por muito que tentasse não as conseguiu alcançar. Então disse:- Estas uvas estão muito azedas, e podem manchar-me os dentes; não quero colhê-las verdes, pois não gosto delas assim. E, dito isto, foi-se embora”.

Essa icônica fábula de Esopo retrata um exemplo de dissonância cognitiva. Dissonância cognitiva é o desconforto psicológico que sentimos quando temos crenças, ideias ou valores que entram em conflito com nossos comportamentos ou novas informações, criando uma inconsistência interna.

Para aliviar essa tensão, as pessoas tendem a mudar o comportamento, justificar a ação, mudar a crença ou buscar informações que apoiem sua decisão, como a raposa de Esopo que, ao não pegar as uvas, diz que eram azedas para não se sentir mal.

Portanto, a dissonância cognitiva é um viés cognitivo que ocorre quando as pessoas precisam dar coerência às suas crenças quando estas são desmentidas pelos fatos. O termo foi criado pelo psicólogo social americano Leon Festinger (1919-1989).

Leon Festinger e a dissonância cognitiva

A teoria de Festinger da dissonância cognitiva dá conta das consequências psicológicas de expectativas não-confirmadas. Um dos primeiros casos publicados sobre o tema é descrito no livro When Prophecy Fails (Festinger et al. 1956). Festinger e seus colegas leram uma nota num jornal local intitulada “Prophecy from planet clarion call to city: flee that flood”, onde um grupo de pessoas dizia que uma tempestade de proporções catastróficas destruiria o Planeta Terra.

Festinger e seus colegas viram nesse fato algo que levaria o tal grupo a sentimentos dissonantes/divergentes quando a profecia falhasse. Os pesquisadores se infiltraram, então, no grupo para observar o seu comportamento. Quando a profecia revelou-se falsa, o grupo não abandonou suas crenças e, em vez disso, buscou explicações para a sua não-realização, apegando-se mais ainda às suas ideias.

A discrepância entre aquilo em que acreditavam e a realidade transformou-se na base para que Festinger e seus colegas elaborassem a Teoria da Dissonância Cognitiva que é, grosso modo, um descasamento entre as crenças pessoais de alguém e suas atitudes ou a realidade ao seu redor.

A dissonância cognitiva no Brasil

O novo exemplo de dissonância cognitiva na política brasileira foi do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Flávio Bolsonaro defende que a retirada de sanções contra Moraes é um “gesto americano pela anistia no Brasil”. É o melhor delírio que o presidenciável Flávio Bolsonaro encontrou para dar “aparência de vitória”. O que na verdade foi uma tremenda derrota e atormentará a consciência dos bolsonaristas para as eleições de 2026. 

A narrativa de perseguição política contra Bolsonaro a ser usada na campanha perdeu seu trunfo mais forte com a decisão do governo americano. A rápida passagem do ministro do Supremo pela lista da Magnitsky, menos de cinco meses, aliás, é motivo de piada. “Nem doeu no Xandão”, ironizou um desses líderes do Centrão.

De qualquer modo, Flávio Bolsonaro delira para embalsamar e confundir a mente dos seus seguidores mais fanatizados.

A dissonância cognitiva bolsonarista é terrivelmente doentia. A cada fracasso, criam-se narrativas ficcionais de que “o melhor está por vir”. A famosa e inesgotável “72 horas” é criada e recriada a cada fracasso retumbante.

Desde a derrota nas eleições presidenciais (2022), cria-se um suspense paranoico e uma possível reviravolta (num eterno looping retórico).

Looping retórico

O “Looping retórico” refere-se a um ciclo contínuo e repetitivo de argumentos ou discursos que não levam a uma conclusão ou solução prática, mas apenas reafirmam um propósito ou a sensação de um problema sem, contudo, permitir que seja resolvido. É a reiteração de um mesmo ponto sem progresso real no debate. É similar a um “andar em círculos” na comunicação ou no pensamento. É uma técnica retórica que tenta vender a sensação de caos permanente, ignorando debates sérios. O Bolsonarismo abraça com força esse “looping retórico”.

Lembremos algumas pérolas e sandices bolsonaristas ao longo dos anos: “as urnas foram fraudadas e Bolsonaro será reeleito”, “Alexandre de Moraes foi preso por uma junta militar”, “Bolsonaro é um estrategista militar, por isso, viajou para os Estados Unidos”, “Trump garantirá o retorno de Bolsonaro ao poder”, “As sanções de Trump derrotarão o governo de Lula”, “a lei Magnitsky enfraquecerá Alexandre de Moraes que será obrigado a recuar”, “O Brasil será mergulhado no caos se não ceder a Trump”, entre outras.

Essas frases mostram uma linha de comunicação direta, muitas vezes inflamada, com foco em seus opositores e na defesa de um projeto político, utilizando linguagem forte, delirante e polêmicas para marcar posição.

A dissonância cognitiva reforça a polarização política. Pois, mesmo diante de evidências contrárias, as pessoas continuam a defender as mesmas ideias, preconceitos, decisões e até fanatismos.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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Um Comentário

  1. Interessante . Bolsonaro é meio e não fim. A direita nunca esteve organizada no Brasil. Bolsonaro só despertou um direito de opinião. É um fenômeno pois desmontou toda uma arquitetura ideológica elitizada de esquerda e um grupo que se fortalece por interesses pessoais e financeiros . Esquerda e direita. Acho que a experiência cognitiva é válida para o fracasso do comunismo com a revolução do operariado. Mudou o santo de reza…. Se vier qualquer João representante da direita vão falar que “joanista de extrema direita”. E por aí vai.

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