Gratidão pela companhia – por José Renato Ferraz da Silveira
“Para que o novo nasça, o velho precisa ir não por rejeição, mas por evolução”

Todo fechamento de ano carrega um gesto silencioso de despedida. Não é apenas o calendário que muda. Somos nós que, mesmo sem perceber, somos chamados a refletir naquilo que já cumpriu sua função.
O ano velho não é inimigo do novo; ele é o solo cultivado (experiências) de onde o novo tenta nascer. Mas nenhum broto viceja onde a terra permanece endurecida, estagnada, enrijecida pelo apego. O apego desestimula o crescimento, o aprendizado, o conhecimento e a maturação.
É fundamental desapegar-se de velhos conceitos, hábitos, ideias e enxergar no horizonte as perspectivas que irão aparecer. Viver o presente concebendo o futuro. O presente é uma dádiva.
Para que o novo nasça, o velho precisa ir não por rejeição, mas por evolução.
Há conceitos, hábitos, regras, ideias e costumes que já nos ensinaram o que podiam, relações que nos mostraram seus limites, versões de nós mesmos que fizeram sentido em um tempo que já não existe.
Insistir nelas é confundir fidelidade com medo. Às vezes, o que chamamos de tradição é apenas resistência à inovação.
Fechar um ano é reconhecer que a vida se move por ciclos, não por garantias. É entender que acumular não é o mesmo que adaptar.
O excesso de passado pode sufocar o futuro. O espaço que não é liberado se torna prisão.
“Deixar ir” é um ato de coragem íntima. A música Let it be (Deixe estar) de Paul McCartney e John Lennon remete ao fluir da vida nos altos e baixos, curvas e retas de nossa caminhada existencial.
Somos causa e efeito, efeito e causa nas tomadas de decisão.
O novo não entra à força; ele precisa de passagem.
E a passagem só se abre quando aceitamos que nem tudo que foi precisa continuar sendo.
Assim, o fim não é fracasso, é um rito. Um gesto de sabedoria que diz: agradeço o que fui, honro o que vivi, respeito a história passada, mas não carrego comigo o que já não me acompanha. O futuro me aguarda. Estou aberto e receptivo ao que der e vier.
Só então o novo encontra morada.
2025, gratidão pela companhia.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





ATENÇÃO
1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.
2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.
3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.
4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.
5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.
OBSERVAÇÃO FINAL:
A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.