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O Natal não é o dia – por Marcelo Arigony

“Talvez o verdadeiro sentido desse tempo não seja celebrar, mas reconhecer”

O Natal não é o dia.

É o que acontece antes dele – e quase nunca depois.

Minhas filhas perguntam se eu gosto do Natal.

Respondo que sim, mas explico: o que realmente gosto é do tempo que o antecede.

Porque o Natal é rápido demais.

Chega cheio de promessas e vai embora sem pedir licença.

A gente pisca – é Réveillon.

Respira – acabou o ano.

E o mundo retoma o tom duro de sempre, como se essa pausa nunca tivesse existido.

O encanto não está na data.

Está na espera.

Na sensação de que o tempo desacelera um pouco.

De que as ruas mudam de humor.

De que a vida permite uma fresta – pequena, mas real.

As luzes não servem só para enfeitar.

Elas avisam.

Avisam que, por alguns dias, é permitido sentir mais.

Mas esse período carrega uma tensão silenciosa.

É quando a alegria e a tristeza caminham juntas, sem pedir desculpa uma à outra.

Quando o riso vem acompanhado de um aperto.

Quando a memória resolve trabalhar.

O Natal não cria saudades.

Ele apenas as revela.

É nesse tempo que lembramos dos que já não sentam mais à mesa.

Dos abraços que ficaram no passado.

Das casas que não existem mais – e das pessoas que moram nelas apenas na lembrança.

E a memória não é justa.

Ela escolhe.

Apaga as discussões, os cansaços, as frustrações.

Guarda só o riso, a voz, o gesto simples que hoje faria falta.

Guarda a saudade do meu pai, da minha sogra, de muitos tipos e de amigos queridos.

Por isso dói.

E por isso emociona.

Não é contradição.

É condição humana.

Talvez o verdadeiro sentido desse tempo não seja celebrar, mas reconhecer.

Reconhecer que tudo passa rápido demais.

Que nada é permanente.

E que justamente por isso importa tanto.

O período antes do Natal é mais honesto que o próprio dia.

Ali ainda existe expectativa.

Ainda existe promessa.

Ainda não existe despedida.

Depois, o dia chega.

Cumpre o ritual.

E vai embora.

Mas a gente insiste em esperar de novo no ano seguinte.

Acende as luzes outra vez.

Arruma a mesa outra vez.

Cria esperança outra vez.

Porque, no fundo, não é o Natal que a gente quer segurar.

É a chance – rara e breve – de lembrar que viver não é só cumprir dias.

É sentir o tempo passar.

E, mesmo assim, continuar esperando.

(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil e atual Diretor da ULBRA Santa Maria. Ele escreve no site às quartas-feiras.

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Um Comentário

  1. Toca Raul! ‘Prefiro ser/aquele clichê ambulante/do que ter alguma ideia original sobre tudo”. Kuakuakuakuakua!

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