Artigos

Quando o lobby erra a mão: Banco Master, STF e a reação silenciosa da política – por Marco Jacobsen

‘Cada ator defendendo seu espaço, seu poder e sua sobrevivência institucional’

Ao analisar o noticiário recente, o comportamento da imprensa e o tom adotado por diferentes atores públicos, fica difícil ignorar a sensação de que algo maior está em curso na República brasileira. Algo que não se revela completamente nas manchetes, mas que se insinua nos bastidores, nos vazamentos seletivos e na súbita convergência de narrativas antes improváveis.

O que segue é uma opinião, uma hipótese analítica, construída a partir de lógica de poder, não uma denúncia, nem uma afirmação factual. Ainda assim, há momentos em que a lógica se impõe de tal maneira que certas conclusões se tornam, no mínimo, plausíveis. O caso envolvendo o Banco Master e seu controlador não parece ser o centro do problema. Ele funciona mais como gatilho. Um ponto de ruptura que expôs tensões latentes entre duas forças fundamentais do sistema político brasileiro: a classe política e a classe judiciária.

Imaginemos um banqueiro dono de uma instituição financeira pequena, cuja sobrevivência não se dá pela solidez clássica do sistema bancário, mas por uma operação complexa e, no mínimo, arriscada sustentada por relações políticas intensas. Relações que não se mantêm apenas com discursos, mas com capital financeiro, capital social e, sobretudo, acesso.

Quando investigações relacionadas ao INSS começam a avançar, um fio é puxado. E, como costuma acontecer, ao puxar esse fio, o novelo inteiro começa a se desenrolar. O rastro do dinheiro aparece. As conexões surgem. O resultado não é apenas a implosão de um banco específico, mas a revelação de um drama social maior: aposentados lesados, descontos indevidos em benefícios, recursos evaporados e uma confiança pública ainda mais corroída.

Diante desse cenário, o movimento seguinte é quase automático dentro da lógica do sistema brasileiro: a aposta no Judiciário. Não na justiça como ideal abstrato, mas no Judiciário como estrutura de poder. Contratos vultuosos de advocacia entram em cena. A expectativa implícita não é um julgamento técnico, mas a blindagem institucional. A velha lógica nacional, lucros privatizados, prejuízos socializados reaparece com naturalidade, a aposta, contudo, falha. O banco é liquidado. O controlador é preso. E, talvez mais importante do que esses fatos isolados, expõe-se uma fragilidade inédita: a limitação do lobby judicial quando comparado ao lobby político tradicional.

É aqui que o episódio deixa de ser apenas financeiro ou criminal e passa a ser estrutural.

Nos últimos anos, especialmente após o fortalecimento do Supremo Tribunal Federal em meio a crises políticas sucessivas, ministros passaram a ocupar um espaço de poder antes restrito a mandatários eleitos. Não dependem de urnas, não se submetem à lógica eleitoral, não respondem diretamente à opinião pública. Em tese, isso lhes confere autonomia. Na prática, também cria incentivos. A partir desse novo arranjo, o Judiciário passa não apenas a arbitrar conflitos, mas a participar, ainda que indiretamente, do jogo de interesses. E é justamente aí que o sistema reage. Porque, em Brasília, há uma regra tácita: o dinheiro e o poder toleram quase tudo, menos perder espaço.

O que se observa após o escândalo do Banco Master e a frustração dessa aposta judicial é uma reação que parece coordenada. Ataques simultâneos, vindos de diferentes espectros ideológicos, contra o STF e, em especial, contra o ministro Alexandre de Moraes. Algo raro em um país profundamente polarizado. Quando esquerda e direita passam a convergir, geralmente não é por acaso.

A mensagem implícita dessa reação parece clara: o Judiciário pode ser forte, pode ser central, pode ser temido mas não é soberano dentro do jogo político. Ministros não enfrentam urnas, mas enfrentam indicações. Chegam ao topo não por aclamação popular, mas pela bênção da classe política. E essa classe, quando se sente ameaçada ou preterida, responde. Há, portanto, menos moralismo e mais realismo nesse conflito. Não se trata de heróis e vilões, mas de interesses em choque. Cada ator defendendo seu espaço, seu poder e sua sobrevivência institucional.

No fim, talvez a lição mais dura e mais brasileira seja esta: a toga é poderosa, mas a urna ainda pesa mais. E quando o equilíbrio entre essas forças se rompe, o sistema se encarrega de lembrar a todos qual é, afinal, o tamanho de cada um.

(*) Marco Jacobsen é administrador, professor e assessor na secretaria municipal de Parcerias, na Prefeitura de Porto Alegre.

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

7 Comentários

  1. Resumo da opera. Muita gente graudissima envolvida no imbroglio. Um pequeno vislumbre da verdadeira BSB, não a que o noticiário comum cobre e encobre.

  2. Lobby nenhum é feito com base na amizade, seja juridico, seja politico. Existem honorarios, pagos de alguma forma.

  3. Falam em 18 fundos de pensão pendurados no caso. Quase dois bilhões de reais. Rioprevidencia e fundo do Amapá são os principais.

  4. Banco Master oferecia de 120 a 190% do CDI em aplicações. No mercado financeiro situações muito fora da média chamam atenção. Vide caso Madoff na Ianquelandia.

  5. Dizem que em BSB as coisas ‘se ajeitam’ num almoço ou num jantar. Um dos principais lobistas juridicos do pais teve por muito tempo um restaurante finissimo. Seria fácil lançar o custo e não cobrar a despesa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo