Um natal amargo para os servidores municipais – por Guilherme Bicca
13º: ‘Alternativa? Receber parcelado. E parcelado não combina com dezembro’

Dezembro costuma ser o mês em que a cidade respira fundo, afrouxa o colarinho e, pela primeira vez no ano, tenta acreditar que as coisas podem ser um pouco mais leves.
É o mês dos pequenos planos que fazem uma grande diferença: roupa nova para celebrar; uma ceia caprichada; visita da (ou à) família; ou até mesmo um passeio no shopping com as luzes de natal acesas e o sorvete escorrendo pela casquinha.
Uma tentativa (talvez inconsciente) de compensar, num período de trinta dias, onze meses de correria.
Mas há um motor que impulsiona praticamente todas essas pequenas alegrias: o 13º salário.
Para boa parte dos santa-marienses que trabalham no serviço público municipal, porém, esse motor engasgou. O que se desenha para o fim de 2025 é um natal amargo.
A retirada do projeto de lei que previa o pagamento dos juros e encargos dos empréstimos feitos pelos servidores para receber o 13º salário integral foi, para muitos, o equivalente àquele fio gelado que corre pelas costas depois do balde de água fria.
A situação já era desconfortável: depender de consignado bancário para receber um direito constitucionalmente garantido não é exatamente o sonho de nenhum trabalhador. Agora, nem isso mais tem (ao menos por enquanto).
A alternativa? Receber parcelado. E parcelado não combina com dezembro.
Parcelado não compra ceia, não paga presente, não enche o tanque para visitar a família. Parcelado não conforta ninguém e só aumenta o estresse passado nos outros onze meses do ano.
Segundo a Prefeitura, o orçamento municipal de 2025 já nasceu deficitário, com um impacto de cerca de R$ 85 milhões adicionais somente pelo aporte previdenciário.
Mesmo com revisão de contratos, renegociação com fornecedores e controle de gastos, o desequilíbrio permanece. E a conta cai no colo de quem, óbvio, não tem margem para absorver prejuízo: o servidor.
O projeto retirado previa que:
- Quem optasse por antecipar o 13º via empréstimo consignado teria todos os juros pagos pelo município;
- Quem não quisesse (ou não pudesse) se endividar teria o salário extra quitado em dez parcelas, a partir de fevereiro de 2026.
Mas a situação se deteriorou rápido: a proposta entrou em regime de urgência, gerou protestos e bate-boca entre vereadores, interrupções, reforço policial e acusações nos bastidores.
O clima se tornou tão hostil que a Câmara declarou não enxergar viabilidade na proposta diante do atual cenário fiscal, e o Executivo retirou o projeto.
Qualquer cidade média sente o tranco quando o setor público trava. Mas em Santa Maria, quando o setor público não pode ir às compras, o tranco vira solavanco.
E há um acúmulo de desgaste que torna tudo ainda mais indigesto: os servidores municipais passaram o ano de 2025 esperando uma reposição salarial que não veio.
Tiveram que resistir a uma reforma previdenciária que, em alguns casos, elevaria o desconto da folha em 11% e empurraria a aposentadoria ainda mais para frente.
Viram a relação com o Executivo se deteriorar em mobilizações sucessivas, sempre em clima de tensão.
E agora, para fechar o ano, o aviso de que dezembro não será doce. Ao contrário: será de um amargor parcelado em doses homeopáticas.
O que se tem, no fim das contas, é um retrato nítido da precarização do serviço público. Mais especificamente da vida do servidor, que mantém a máquina rodando.
Está na servidora que segurou a onda o ano inteiro no posto de saúde. No fiscal que trabalhou em feriado. Na professora que tira dinheiro do próprio bolso pra fazer atividades lúdicas com os alunos…
Todos eles, agora, olham para dezembro e percebem que se nem o básico está garantido, quem dirá os planos que costumam trazer alívio e “salvar” o ano.
Que venha 2026. E que ao menos ele seja doce para os servidores municipais de Santa Maria.
(*) Guilherme Bicca é jornalista graduado na Universidade Franciscana (UFN) desde 2008. Nesses anos, especializou-se em assessoria de comunicação integrada, quando realizou trabalhos junto a instituições como Sociedade de Medicina; Apusm; Sindilojas; e, mais recentemente, CDL Santa Maria. Está à frente da comunicação de entidades como Adesm e Secovi Centro Gaúcho; presta assessoria especializada ao Fidem Bank; é redator sênior na Jusfy, legaltech eleita a startup mais escalável do último South Summit. Também é um dos âncoras do Semanário, programa veiculado aqui mesmo em claudemirpereira.com.br; e criador do podcast Bocas do Monte, da TV Santa Maria. Guilherme Bicca escreve às sextas-feiras no site.





Resumo da opera. Servidores também tem culpa no que esta acontecendo. Como na previdência. Estão lá dentro, acompanham o funcionamento da maquina e acharam que estavam com o boi na sombra. Simples assim. O resto da população, desta nem se fala. Também só se mexem quando a agua bate no queixo. Negocio é empurrar os problemas com a barriga e viver na ilusão propiciada pelas patotinhas.
Em tempo. Pessoal do jurídico anda espalhando que tudo se resolverá no município com a reforma tributaria. Único detalhe que eles sempre ignoram: o sistema se adapta. Inclusive os de fluxo de valor. Soluções faceis, rapidas e caidas do céu geralmente não funcionam.
‘Na professora que tira dinheiro do próprio bolso pra fazer atividades lúdicas com os alunos…’. Não deveria. Alas, alguém colocou uma arma na cabeça dela e obrigou? Alas, tinha que ter brigado para que o poder publico fornecesse o necessário. Alas, é mais uma afirmação sem base para açodar o imaginário popular (casos isolados que viram regra) e vitimizar os professores e professoras. Infantil.
‘Está na servidora que segurou a onda o ano inteiro no posto de saúde. No fiscal que trabalhou em feriado.’ Outro problema cultural tupiniquim. Se estão recebendo para fazer um determinado serviço têm que fazê-lo da melhor maneira possível. Profissionalismo. Se alguém acha que o que recebe não está de acordo com o valor do proprio trabalho que procure um lugar que pague de acordo. No serviço publico tupiniquim as criaturas passam no concurso, fazem o estagio probatorio, ganham estabilidade e escolhem o tanto que vão trabalhar e querem escolher o tanto que irão receber.
‘[…] é um retrato nítido da precarização do serviço público. Mais especificamente da vida do servidor, que mantém a máquina rodando.’ Isto é um problema. Serviço publico é o serviço que se presta para o publico. Em todas as areas e em todo lugar no pais é na base do ‘é o que a casa tem para oferecer’. A mesma falácia da educação, se triplicarem o salario dos servidores amanha, daqui um ano os serviços publicos terão exatamente o mesmo nivel que hoje.
‘[…] elevaria o desconto da folha em 11% e empurraria a aposentadoria ainda mais para frente.’ Vai acontecer. E como todo mundo. Muito em breve.
Pergunta: por que não se ve isto na midia? Porque soluções atraem problemas. Vide crise migratoria nos paises desenvolvidos.
‘Qualquer cidade média sente o tranco quando o setor público trava.’ Afirmação tirada do orificio corrugado situado na região ínfero-lombar. Isto é não conhecer minimamente o pais. Existem cidades nas quais o setor publico travando nem faz cocegas. Alas, a iniciativa privada é tão forte que ‘controla’ o setor publico para que as coisas funcionem. Inclusive com programas sociais tocados com dinheiro da sociedade civil organizada.
‘Segundo a Prefeitura, o orçamento municipal de 2025 já nasceu deficitário […]’. Mas na lei aprovada a despesa total e a receita total eram iguais, não eram?
‘[…] para receber um direito constitucionalmente garantido […]’. Kuakuakuakuakua! Estou vendendo um viaduto na BR-158. Vista formidável. Uma curva no meio. Em setembro supersticiosos enfeitam de amarelo.