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2026 para um Brasil melhor, de preferência sem Havaianas na cabeça – por Amarildo Luiz Trevisan

“O Brasil já tropeça bastante mesmo com elas no pé direito ou esquerdo”

De todas as mensagens de fim de ano que li, entre as correrias de final de ano e promessas de academia, uma me chamou a atenção além do costume. Não foi a do amigo que “vai sumir das redes para se encontrar”, nem a do parente que manda bênção em caixa alta, nem a do influenciador que deseja “um ciclo de abundância” enquanto vende um curso de não sei o quê. Foi a mensagem de Ano Novo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A nota vem com um tom de coisa séria, de quem não está interessado em ganhar curtida, mas em lembrar o óbvio que, no Brasil, precisa ser lembrado como se fosse novidade: democracia dá trabalho, requer diálogo, instituições, freios, contrapesos, e esse patrimônio não se conserva sozinho. Se a gente não cuida, ele decompõe com a mesma rapidez com que acaba uma conversa de família quando alguém resolve puxar política na sobremesa.

O texto lembra também aquilo que a nossa vida pública parece ter normalizado: discurso de ódio, manipulação da verdade, violência, radicalismos, interesses particulares travestidos de moralidade. E ainda aponta para algumas decisões e tendências que, goste-se ou não de quem está no poder, merecem atenção mais adulta do que a que se encontra num comentário de rede social. Fala de mexidas em marcos legais, fala de desrespeito a povos originários e tradicionais, fala de ameaças à proteção ambiental, fala do decoro que, em certos plenários, anda tão em falta quanto silêncio em grupo de WhatsApp.

Mas o que me pegou mesmo foi outra parte da mensagem, quase nunca discutida com a urgência que merece: o peso do pagamento de juros e amortizações da dívida, esse buraco invisível por onde o país escorre sem fazer barulho. Aí está um assunto que não rende meme fácil, não dá para transformar em figurinha, não vira trend com música de fundo. Talvez por isso fique fora do palco, enquanto o que domina a cena são as guerras diárias da polarização.

Porque, se tem uma coisa que nós aperfeiçoamos, foi a tecnologia da distração. A polarização, que já andava ridícula, conseguiu um feito: dias e dias de briga em torno da marca de um chinelo. Sim, chinelo. A essa altura, nem importa qual marca, embora a Havaianas tenha virado uma espécie de totem nacional, um símbolo. Um calçado simples, feito para proteger o pé do chão, passou a carregar a missão de explicar o Brasil. E não há exagero nisso, basta abrir as redes: de repente, a sola de borracha virou papo-cabeça de filosofia política.

Concluo que em algum lugar, num Brasil paralelo, alguém deve estar usando Havaianas na cabeça. Não é metáfora, é a consequência lógica. Um país que discute chinelo como se discutisse o seu destino é um país que já não sabe onde termina o entretenimento e começa a tal realidade. A cena é triste e cômica ao mesmo tempo: cidadãos com os pés para o alto, contemplando as tiras do próprio chinelo como quem contempla a própria importância, enquanto a casa pega fogo e o cachorro late para o incêndio.
Só que o incêndio não é abstrato. A casa é real. A conta também. Quando a maior parte do dinheiro público se transforma em pagamento de serviço da dívida, o que sobra para educação, saúde, moradia e segurança vira sempre “o que der”. E “o que der” é uma forma educada de dizer “o que não dói no mercado, o que não incomoda quem manda, o que não mexe no arranjo”. Enquanto isso, nós seguimos discutindo espuma, e o mar, esse sim, continua sujo.

O mais curioso é que a dívida, do jeito que entra na conversa pública, parece um fenômeno natural, tipo chuva de verão ou seca de inverno. A gente fala como se não fosse política, como se fosse destino, como se não houvesse escolhas por trás, como se não houvesse interesses muito bem organizados que dependem exatamente desse silêncio. Quando o assunto aparece, surge com aquele ar de coisa técnica demais, coisa para especialistas, coisa para não estragar o clima. E o clima, claro, é sagrado. Não se fala de juros no réveillon, porque dá má sorte. Melhor falar do chinelo, que dá menos trabalho.

Aí a gente volta para a nota da CNBB, e percebe que o texto, no fundo, tenta puxar o país de volta para um lugar onde o debate público não seja apenas uma rinha de vaidades. Onde a democracia não seja um slogan que se usa quando convém e se descarta quando atrapalha a aposta no candidato que eu quero eleger. Onde “bem comum” não seja um enfeite de discurso, mas um critério. Um critério que se mede justamente pelo que um país escolhe financiar, e pelo que ele escolhe abandonar.

Se a escola falta, se o hospital lota, se a cidade alaga, se a violência cresce, se o professor adoece, se o jovem desiste, não dá para explicar tudo com uma moral de rede social. A realidade é mais teimosa. E ela cobra. Cobra na forma de desigualdade, cobra na forma de rancor, cobra na forma de desespero, cobra na forma de um futuro que vai ficando estreito, como uma sala onde entram mais gritos do que ideias.
Eu queria, para 2026, um Brasil menos propenso a transformar qualquer coisa em guerra cultural, e mais disposto a encarar as engrenagens que sugam o nosso tempo e o nosso dinheiro. Queria um país capaz de discutir democracia sem transformar o outro em inimigo. Capaz de defender povos originários e tradicionais sem tratá-los como obstáculo. Capaz de proteger o ambiente sem fingir que a natureza é um cenário, não uma condição. Capaz de exigir decoro sem confundir decoro com espetáculo.

E queria, sobretudo, um país que voltasse a falar seriamente sobre as escolhas econômicas que nos paralisam, inclusive essa conta de juros que parece estar sempre sentada à mesa, comendo antes de todo mundo, e ainda pedindo sobremesa. Não para substituir uma polarização por outra, mas para recolocar as prioridades no chão, onde os pés realmente pisam.

De preferência, com as Havaianas nos pés, que é o lugar delas. Na cabeça, a gente precisa de outra coisa. Precisa de lucidez, precisa de paciência, precisa de coragem. E, se der, precisa também de um pouco de vergonha de ter gastado tanto tempo discutindo chinelo enquanto o país pedia, silenciosamente, uma conversa mais alta sobre o que nos impede de investir no que importa.

Que 2026 nos encontre com menos espuma e mais mar. Com menos grito e mais compromisso. Com menos fetiche de símbolo e mais cuidado com o real. E, por favor, com menos Havaianas na cabeça, porque o Brasil já tropeça bastante mesmo com elas no pé direito ou esquerdo.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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8 Comentários

  1. Resumo da opera. Quem não quer um 2026 melhor? O que é ‘melhor’? ‘Melhor’ para quem? O resto é sinalização de virtude.

  2. Detalhe importante. Governo leiloa titulos prometendo taxa de juros. Compra quem quiser. Ninguem e obrigado a empreestar dinheiro para o governo. França se não estivesse na zona do Euro ja tinha quebrado. Tambem nao pode emitir moeda e se livrar da divida via inflação. Instabilidade politica ja tem.

  3. ‘Quando a maior parte do dinheiro público se transforma em pagamento de serviço da dívida, o que sobra para educação, saúde, moradia e segurança […]’. O espantalho é sempre o ‘social’. Nada de fabrica de chips ou trem bala que nunca vai sair do papel. Ou recriacao de estatal para gerenciar terceiriizzadas e prover banda larga acessivel em todo pais (vide pandemia).

  4. ‘Quando a maior parte do dinheiro público se transforma em pagamento de serviço da dívida, […]’. Governo incomPeTente gasta muito e gasta mal. Culpa sempre de terceiros. No caso, dos credores indeterminados.

  5. ‘[…] o peso do pagamento de juros e amortizações da dívida, esse buraco invisível por onde o país escorre sem fazer barulho.’ Divida e antecipacao de receita. Que tem um custo, os juros. Quanto maior a divida mais provavel o calote. Maior risco mais juros. Se o recurso que gerou a divida é desperdiçado não existe beneficio e a divida fica. Dai a necessidade de boa gestao. A desculpa padrao: investimento.

  6. ‘Um calçado simples, feito para proteger o pé do chão, passou a carregar a missão de explicar o Brasil.’ Que ja foi melhor e mais barato.

  7. ‘ A polarização, que já andava ridícula, conseguiu um feito: dias e dias de briga em torno da marca de um chinelo.’ Alvo era Fernanda Torres. Tirar renda da camarilha artistica vermelha.

  8. ‘Fala de mexidas em marcos legais, fala de desrespeito a povos originários e tradicionais, fala de ameaças à proteção ambiental, […]’. Truquezinho batido. Vermelhos não têm votos. Apelam para o STCumpanhero. La nao perdem nunca. Qualquer critica é ‘discurso de odio’. Qualquer alteração legislativa contrariando a ideologia tem conotação negativa e má fé. Eles querem controlar o que pode ou nao ser dito. O que ofende ou não minorias silenciosas e agrupamentos hipoteticos.

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