Duquesa de Abrantes – por Elen Biguelini

Quando a articulista fez sua tese de doutoramento, uma das autoras que puderam ser analisadas, mas que foram retiradas da lista final foi Laure de Saint-Martin Permon, a duquesa de Abrantes e esposa do comandante francês que ficou responsável pela Invasão Napoleônica a Portugal.
Foi retirada por ser francesa e sua publicação não ter sido feita em Portugal, mas a articulista sempre observou a vida desta senhora como um ponto importante a ser explorado da História das Mulheres.
Laure de Saint-Martin Permon nasceu em Montpellier, no sul da França, em 6 de Novembro de 1784. Foi filha do administrador da Córsega, Charles Martin Permon (1755-?), e Panoria Stefanopoli (1760-1802). Laure afirmava que sua mãe era descendente de imperadores bizantinos, mas não conseguimos encontrar confirmações desta descendência. Conhecida como Madame Permon, após a morte do marido, sua mãe teve um salão em Paris. E este era frequentado por Napoleão.
Casou com o general francês Jean Andoche Junot (1771-1813) em 30 de Outubro de 1800, com quem teve quatro filhos: Joséphine (1802-1888), nomeada em homenagem a então esposa de Napoleão, Marie Antoinette (1803-1881), Louis Napoléon (1807-1851), este nomeado em homenagem ao próprio Napoleão, e Andoche Alfred Michel (1810).
A presença do então Imperador nos salões maternos fez de Laure Peron conhecida por este desde sua infância. Não é estranho, então, que tenha casado com um alto general do Imperador francês.
Após o casamento, acompanhou seu marido em diversas campanhas militares, tendo deixado memórias de todas suas viagens. Seu filho mais novo, Andoche, nasceu em uma destas campanhas militares, na cidade de Ciudad de Rodrigo, no norte da Espanha.
Entre 1805 e 1808 acompanhou o marido por diversas vezes durante a invasão francesa em Portugal, deixando em suas memórias algumas informações sobre suas impressões do país. Foi justamente esta invasão que rendeu a seu marido o título de duque d’Abrantes, e a sua esposa o nome pelo qual é hoje lembrada, duquesa d’Abrantes.
Apesar de ter acompanhado o marido, seu casamento era infeliz, levando a diversos casos extra-conjugais por parte de Madame d’Abranches. Entre seus amantes estiveram Klemens Wenzel Nepomuk Lothar, Príncipe de Metternich (1773-1859), estadista austríaco, Charles Alexandre Maurice Testu du Balincourt, 3º marquês de Balincourt (1789-1864) e de Balzac (1799-1850).
Seus relacionamentos extra-conjugais e sua oposição direta ao Imperador irritaram levaram a ordem de sua saída da capital francesa. Ela morou, então, diversos anos em Roma a partir de 1815.
Após o final do Império Napoleônico, retornou a Paris e abriu sua casa para salões literários. Foi frequentada, inclusive, pelo autor português Almeida Garrett. Durante este período também se tornou amante de Honoré Balzac, o celebre escritor francês que influenciou sua virada para a escrita literária. Mas esta não lhe trouxe nem sucesso econômico, nem uma continuidade na felicidade amorosa. Balzac a abandonou após seu próprio sucesso, e ela que já estava em uma situação econômica problemática, se viu obrigada a vender sua casa, sua mobília e seus livros. Estes últimos eram no período uma relíquia econômica e pessoal muito grande, e se desfazer deles para uma literata foi, possivelmente, muito dolorido.
Alugou então um apartamento na rue de La Rochefoucault, em Paris, e pediu a ajuda de amigos para restituir seu salão. Foi então frequentada pela célebre salonnière do período napoleônico, Juliette Récamier (1777-1849) e pelo poeta Theophilo Gautier (1811-1872).
Faleceu em Paris, em 7 de junho de 1838 e foi enterrada no Cemitério de Montmartre, em Paris. Já estava completamente arruinada economicamente.
Nota-se que suas memórias apresentam diversas incoerências (se não falsidades), inclusive uma imagem negativa do imperador que era amigo de sua mãe. Tendo sido escrita em um momento no qual Napoleão não era mais bem quisto pela sociedade francesa, é coerente que sua autora teria diminuído a relação familiar. O ressentimento por ter sido obrigada a fugir de Paris pode ter sido outra justificativa para a suposta maldade direcionada Napoleão em seu texto.
Obra:
“Mémoires de la Madame la duchesse d’Abrantes ou Souvenirs Historiques sur Napoléon, lá revolution, le directoire, le consulat, l’empire et la restauration”. Paris: Librairée Garniers Fréres, 1837-1838 e Bruxelles: Société Belge de Librairie, 1837. Acesso via gallica:
“Mémoires sur la Restauration, ou Souvenirs historiques sur cette époque, la révolution de Juillet et les premières années du règne de Louis I”. Paris, J. L’Henry, 1835-1836.
“L’Amirante de Castille”, Paris, Mame-Delaunay, 1832.
“Catherine II”, Paris, Dumont, 1834.
“Les Femmes célèbres de tous les pays: leurs vies et leurs portraits”, Paris, Lachevardière, 1834.
“Histoires contemporaines, Paris, Dumont, 1835.
“Scènes de la vie espagnole”, Paris, Dumont, 1836.
“Souvenirs d’une ambassade et d’un séjour en Espagne et en Portugal, de 1808 à 1811”, Paris, Ollivier, 1837.
“Une soirée chez Mme Geoffrin”, Paris, Dumont, 1837.
“La Duchesse de Vallombray”. Paris, C. Lachapelle, 1838.
“L’Exilé : une rose au désert”. Paris, Dumont, 1838.
Les Deux sœurs : scènes de la vie d’intérieur, Paris, C. Lachapelle, 1840.
Étienne Saulnier : roman historique, Paris, C. Lachapelle, 1840.
Folhetim: “La Forêt verte” no periódico “Revue des feuilletons : journal littéraire”. 1842.
Traduzido para o português: “Recordações de uma estada em Portugal, 1805-1806”. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2008.
Sua obra, com exceção do texto traduzido para o português, se encontra na Biblioteca Nacional Francesa, via Gallica.
Referências:
Registro de óbito. “Find a Grave Index”, FamilySearch (https://www.familysearch.org/ark:/61903/1:1:QVVC-GT65: Tue Apr 01 10:59:06 UTC 2025), Entry for Laure Adélaïde Constance Permon Junot d’Abrantès.
Oliveira, Americo Lopes de. “Dicionário de Mulheres Célebres”. Porto: Livraria Lello e Irmãos, 1981. 1263.
Leitão Bandeira, Lourdes. “Salões culturais abertos por figuras femininas: O salão ‘Universitas Gratie’”. Lisboa: Carvalho e Simões Lda, 2006. p. 126-127.
“Lisboa: Duquesa de Abrantes”. In. Pequenas Historietas. Acesso via: https://sites.google.com/site/pequenashistorietas/cidades/lisboa-duquesa-de-abrantes
Página sobre a autora na Encyclopedia Britannica. Acesso via: https://www-britannica-com.translate.goog/biography/Laure-Junot-Duchess-dAbrantes
Página da wikipedia francesa sobre a autora. Acesso via: https://fr.wikipedia.org/wiki/Laure_Junot_d%27Abrant%C3%A8s
(*) Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no Site.





ATENÇÃO
1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.
2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.
3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.
4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.
5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.
OBSERVAÇÃO FINAL:
A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.