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Entre o custo e a responsabilidade de repensar a gestão do lixo – por Luís Henrique Kittel

“O desafio não é apenas operacional, mas também cultural e político”

Por décadas, a gestão dos resíduos sólidos foi um tema relegado aos bastidores das administrações municipais: um serviço caro, complexo e, na prática, pouco debatido com a sociedade. Esse cenário, no entanto, começa a mudar. O Consórcio Intermunicipal da Região Centro (CIRC) tem assumido um papel central nesse movimento ao aprofundar o debate e buscar soluções estruturantes para a região.

Em parceria com a Caixa Econômica Federal, o CIRC vem trabalhando conjuntamente com os municípios na modelagem de uma concessão para a coleta e o manejo desses serviços, propondo um sistema mais justo de financiamento. Nesse modelo, a tarifa básica é calculada a partir do consumo de água de cada domicílio, de modo que quem consome mais, e logo tende a gerar maior volume de descarte, passa a pagar mais. Trata-se de uma mudança conceitual importante, que aproxima o serviço do princípio do poluidor-pagador.

Ainda em 2026, os debates sobre esse tema tendem a se intensificar. O avanço do projeto exige não apenas amadurecimento técnico, mas também legitimação política, e isso passa, necessariamente, pelo diálogo democrático. Haverá ampla discussão nos Legislativos Municipais, uma vez que cerca de metade dos municípios consorciados ainda depende do aval das Câmaras de Vereadores para autorizar o prosseguimento da proposta. Esse processo é natural e correto, pois se trata de uma decisão estruturante, que impacta diretamente a vida das pessoas, o orçamento público e a forma como cada cidade lida com o lixo.

Muitas cidades, e isso inclui Agudo, ainda carecem de uma atenção mais efetiva a esse tema. Em geral, esses serviços sempre foram tratados apenas como despesa obrigatória, mas raramente debatidos de forma estratégica com a comunidade. O resultado é conhecido com sistemas pressionados financeiramente, baixa adesão à coleta seletiva, pouco aproveitamento dos materiais reaproveitáveis e uma conta que acaba sendo socializada de maneira injusta.

Quando o assunto entra na pauta pública, quase sempre aparece associado ao aumento de custos, e não às oportunidades que uma gestão eficiente pode gerar. Essa lógica mantém os municípios presos a modelos ineficientes, que até resolvem o problema no curto prazo, mas empurram consequências financeiras, ambientais e sociais para o futuro.

É justamente nesse ponto que o debate começa a amadurecer. Tratar essa questão como política pública significa reconhecer que há escolhas envolvidas: quanto custa tratar o que é descartado, quem gera maior impacto ambiental e quem deve, de fato, pagar essa conta. O desafio não é apenas operacional, mas também cultural e político.

Avançar na coleta seletiva exige educação ambiental contínua, diálogo permanente com a comunidade e coragem para enfrentar debates difíceis sobre custos, responsabilidades e justiça tarifária. Não é simples, não é imediato, mas é necessário.

Aquilo que é gerado de resíduo todos os dias é um reflexo direto do nosso modo de vida. Fingir que isso “some” depois da coleta é uma ilusão cada vez mais cara. O caminho passa por encarar o tema com seriedade, planejamento regional e participação social, porque cuidar do lixo é, no fim das contas, cuidar do futuro das nossas cidades.

(*) Luís Henrique Kittel, 40 anos, é jornalista formado pela então Unifra, atual UFN). É prefeito de Agudo (o único do PL na região), e é o atual presidente da Associação dos Municípios da Região Central (AM Centro) e já foi vice-presidente do Consórcio de Desenvolvimento Sustentável da Quarta Colônia. Ele escreve no site às quintas-feiras.

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7 Comentários

  1. Resumo da opera. Efeaga citava um professor da poli da USP. Segundo este o problema não é o corrupto, porque o corrupto só comete corrupção de vez em quando. Problema é o burro, porque este é burro sempre.

  2. ‘Avançar na coleta seletiva exige […]’. Um(a) prefeito(a) com espinhaço e culhão. Aqui em SM, para variar, a politica é o ‘faz de conta’. Colocaram meia duzia de postos de coleta e serve para o anuncio e para a foto. Mas muita gente está preocupada com o cachorro Orelha. Até porque tira espaço do Banco Master no noticiario.

  3. Lei 14026 de 2000 até permite. ‘As taxas ou as tarifas decorrentes da prestação de serviço de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos […] poderão, ainda, considerar: IV – o consumo de água;’. Os jenios devem ter pensado ‘vamos estimular a economia d’agua’. Pois bem, criatura pode economizar agua, gerar até mais lixo e pagar menos.

  4. Lembrando que a taxa de esgoto é proporcional ao consumo d’agua. Não é permitido poço artesiano. Se usar para regar o jardim a agua vai para o subsolo, mas a taxa de esgoto permanece.

  5. ‘Nesse modelo, a tarifa básica é calculada a partir do consumo de água de cada domicílio, de modo que quem consome mais, e logo tende a gerar maior volume de descarte, passa a pagar mais.’ Não tem pé nem cabeça. Em SM a taxa é cobrada junto com o IPTU em função da área do imovel, localização e destinação.

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