Da resposta à antecipação: a maturidade prevencionista da Defesa Civil e a estrutura estratégica montada em Santa Maria – por Rosito Zepenfeld Borges
“Um marco na forma como o poder público encara a gestão de emergências”

As imagens das enchentes que marcaram o Rio Grande do Sul nos últimos anos permanecem vivas na memória dos gaúchos. Elas deixaram um legado de perdas humanas, sociais e econômicas, mas também uma importante lição: diante dos eventos climáticos extremos, esperar que o desastre aconteça para então agir já não é uma opção.
Nesse contexto, a estrutura montada pelo Governo do Estado, em parceria com a Defesa Civil de Santa Maria e a Prefeitura Municipal, representa um marco na forma como o poder público encara a gestão de emergências. A instalação de uma Central Regional da Defesa Civil e de um Centro Logístico em Santa Maria, aliada ao monitoramento hidrológico permanente e à emissão antecipada de alertas, demonstra que a resposta à emergência começa muito antes da chegada da chuva.
Essa mudança de postura reflete uma evolução significativa na cultura de segurança. Durante muito tempo, o sucesso das instituições era medido pela eficiência da resposta após o desastre. Hoje, a maturidade organizacional está justamente na capacidade de antecipar cenários, integrar informações, posicionar recursos estrategicamente e preparar as equipes antes que a situação se agrave. Trata-se de uma mudança de paradigma: a prevenção deixa de ser uma atividade secundária para assumir papel central na proteção da vida.
Outro aspecto que merece destaque é a integração entre diferentes órgãos e esferas de governo. Defesa Civil Estadual, Defesa Civil Municipal, Prefeitura, Corpo de Bombeiros Militar, Brigada Militar, serviços de saúde, assistência social e demais instituições passaram a atuar de forma coordenada, compartilhando informações e planejando ações conjuntas.
Esse modelo fortalece a capacidade de resposta, reduz o tempo de mobilização e otimiza a utilização dos recursos disponíveis. Nas emergências complexas, nenhuma instituição consegue atuar isoladamente; a cooperação tornou-se uma das principais ferramentas para salvar vidas.
Sob a ótica da Engenharia de Segurança, essa mobilização evidencia um princípio amplamente consolidado: as melhores emergências são aquelas cujos impactos são minimizados graças à preparação realizada previamente. Monitorar rios, acompanhar previsões meteorológicas, emitir alertas graduados, posicionar equipamentos, organizar centros logísticos e definir protocolos de atuação são barreiras preventivas que reduzem significativamente as consequências de um evento extremo. Quando essas medidas funcionam, muitas vezes a população sequer percebe a dimensão do trabalho realizado nos bastidores, justamente porque o pior cenário foi evitado.
Existe, inclusive, um paradoxo bastante conhecido na gestão de riscos: quanto melhor funciona a prevenção, maior pode ser a sensação de que ela foi desnecessária. Se o temporal perde intensidade ou os danos são menores do que o esperado, surgem questionamentos sobre a mobilização de recursos.
No entanto, esse raciocínio ignora que a preparação é planejada para enfrentar o pior cenário possível, e não apenas o mais provável. Na segurança do trabalho aprendemos que é muito melhor investir em prevenção e nunca precisar utilizá-la plenamente do que descobrir sua importância quando já não há tempo para agir.
Mais do que uma resposta às previsões meteorológicas deste fim de semana, a estrutura instalada em Santa Maria simboliza uma mudança cultural construída a partir das duras experiências vividas pelo Rio Grande do Sul. Ela demonstra que o Estado está incorporando as lições aprendidas e fortalecendo sua capacidade de proteger a população diante de eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos.
A verdadeira evolução da cultura de segurança não está apenas em responder bem às emergências, mas em desenvolver a capacidade de antecipá-las, preparar-se para elas e, sempre que possível, impedir que se transformem em tragédias.
(*) Rosito Zepenfeld Borges é Engenheiro de Segurança do Trabalho. Ele escreve no site às segundas-feiras.





Resumo da opera. O Monumento ao Puxa-Saco na rotula das Dores tem sua razão de ser.
‘[…] representa um marco na forma como o poder público encara a gestão de emergências.’ Marco da incompetencia. Porque a coisa só saiu depois da enchente de 24. Porta arrombada, tranca de ferro e ainda se dão tapinhas nas costas.