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Não foi um episódio. Foi um alerta – por João Luiz Vargas

O caso recente ocorrido em um reality show expôs mais do que um episódio de assédio. Expôs uma ferida antiga, profunda e ainda aberta na nossa sociedade. Quando uma mulher não está segura nem em um espaço vigiado por câmeras, sob regras claras e diante de milhões de olhos, o que se revela não é uma falha pontual, mas um sistema inteiro que insiste em falhar com elas.

O reality show, nesse momento, deixa de ser apenas entretenimento e se transforma em espelho. O que vimos ali acontece todos os dias, longe das telas, longe da audiência, longe da comoção coletiva. Acontece dentro de casa, nos almoços em família, nos corredores do trabalho, nas festas, nas ruas, nos espaços públicos e privados. A mulher aprende cedo que nenhum lugar é totalmente seguro e que o cuidado constante passa a ser parte da rotina.

Não são casos isolados. São repetições. São histórias que mudam de cenário, mas não de dor. O assédio se mantém porque foi normalizado, silenciado, relativizado. Porque ainda há quem questione a vítima antes de questionar a violência. Porque a cultura que protege o agressor segue mais organizada do que a rede que deveria proteger quem sofre.

Em 2025, o Rio Grande do Sul recriou a Secretaria da Mulher, reconhecendo que não há democracia possível enquanto mulheres vivem sob ameaça constante. A existência dessa pasta é um avanço necessário, fruto de luta, escuta e pressão social. Ela simboliza a responsabilidade do Estado em proteger, acolher e garantir direitos. Mas nenhuma estrutura pública cumpre seu papel se não vier acompanhada de orçamento, prioridade e compromisso real.

Não basta se indignar por alguns dias. É preciso sustentar o debate, fortalecer as redes de proteção e transformar a indignação em ação contínua. A luta por dignidade, respeito e segurança não é uma pauta secundária. É urgente. É permanente. E precisa ser assumida por todos nós.

(*) João Luiz Vargas, ex-prefeito de São Sepé, ex-deputado, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado). Ele escreve no site às sextas-feiras.

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