Ivorá está encontrando um jeito lindo de crescer – por Amarildo Luiz Trevisan
“A vida não corre; ela flui, límpida e generosa, como as águas da Queda Livre”

Dá gosto visitar as propriedades turísticas dos agricultores de Ivorá, no Rio Grande do Sul, sobretudo quando a gente percebe que a novidade não veio para apagar a essência, veio para iluminá-la. Eles estão evoluindo, sim, mas continuam conversando com quem chega, continuam tendo calma para explicar as coisas, continuam oferecendo os frutos da terra como se fazia antigamente, com aquele sabor que parece desatar um nó de infância na memória.
Ivorá, por si, já é uma pérola colorida, bordada pelo verde dos morros. Quando a estrada se afasta do miolo urbano e entra no interior do município, o que se descortina é um pedaço de mundo que ainda resiste a certas pressas. A gente olha e pensa, com uma alegria quieta, que talvez o futuro esteja justamente nisso, em aprender a voltar. O que era passado, hoje reaparece como caminho.
Neste carnaval, eu e meu amigo Ademir Cargnelutti, professor, filósofo e um conhecedor de turismo de verdade, daqueles que entendem tanto de paisagem quanto de gente, visitamos duas propriedades. Fomos ao Camping da Cascata Queda Livre e, depois, ao Camping Pé do Morro, na Linha 5, interior de Ivorá. Em ambos, o acolhimento é um modo de existir, não apenas um detalhe do atendimento.
Na Cascata da Queda Livre, a água despenca de uma altura de uns trinta metros e cai num fio vigoroso, reto, como se o próprio morro abrisse uma fenda para o verão respirar. A água é fria, refresca mesmo, e o corpo entende na hora por que a natureza é mais sábia do que nossas invenções para suportar o calor. Lá embaixo, forma-se um pequeno lago de tom esverdeado, tranquilo no olhar e vivo no fundo. E há um detalhe que, na fotografia, não fica muito evidente: uma névoa leve, um vapor discreto que sobe da base e faz uma moldura, como se a paisagem tivesse decidido colocar um véu para realçar o que já é bonito.

O entorno ajuda a contar a história. As paredes de pedra, úmidas, altas, abraçam a queda d’água e guardam o som como se fossem um anfiteatro natural. Ali, nos lados, pequenos arbustos e ramos se agarram às fendas da rocha, numa teimosia admirável. Não estão ali por acaso. Dá para ver a resistência das plantas em sobreviver naquele lugar paradisíaco, como se dissessem, ao seu modo, que não saem dali por dinheiro nenhum.
Depois, seguimos para o Camping Pé do Morro, propriedade da Bernardete e do Dalírio. Se na cascata a gente é recebido pela natureza, aqui a gente é recebido pela natureza e pela simpatia, que também é uma forma de paisagem.

O espaço de camping tem esse charme, um jeito cuidado de quem sabe que o simples pode ser bonito quando é bem tratado. O pessoal leva barraca, arma o seu canto, acende uma conversa, divide chimarrão, escuta a noite. É uma vida provisória, mas cheia de sentido. E foi ali que apareceu uma frase, dita como quem não quer fazer literatura, mas faz. Eu comentei, meio rindo e meio sério: – ” Quantos anos arrancando toco para descobrir que o caminho era outro.” Eles concordaram, e então veio a lembrança do velho pai, resistente à ideia do turismo. A frase ficou ecoando, com graça e firmeza: – “Enquanto eu estiver vivo, vai ser como eu quero. Depois que eu morrer, vocês fazem como quiserem.”
Tem gente que ouve isso e pensa em teimosia. Eu ouvi e pensei em pertencimento. Há um mundo inteiro dentro dessa frase. Um mundo de família, de trabalho duro, de roça, de decisão tomada com as mãos calejadas. E há também um aprendizado para quem chega de fora, a tradição não é inimiga da mudança, ela só pede que a mudança saiba bater palma antes de entrar.
No Pé do Morro, além do ambiente, há os frutos, e aqui eu falo no sentido mais literal e mais afetivo da palavra. Comprei coisas de café, rosca, pão caseiro, geleias, e é preciso dizer com honestidade, tem que ver como são boas. O suco de butiá merece um elogio separado. É uma espécie de cuidado engarrafado. É daquelas bebidas que a gente toma devagar, não por cerimônia, mas para não deixar escapar a experiência. As geleias são de frutas do mato, guabiju, pitanga, cereja do rio-grande, bananinha-do-mato, jabuticaba, e outras que aparecem num painel de catálogo que eles mantêm ali, como se fosse um pequeno museu da fartura. Esse catálogo, visto na imagem, é uma delicadeza à parte. É um cartaz com fotografias e desenhos, nomes, referências, um verdadeiro inventário do que a terra oferece quando é respeitada. E, ao lado, a cena cotidiana completa a ideia: a Bernardete atrás do balcão, os potes alinhados, as tampinhas, as etiquetas, o gesto de quem transforma colheita em memória comestível. Não é só preocupação com venda. É transmissão.

O lugar tem limpeza, organização, farta arborização, e, ao fundo da propriedade, corre o rio Melo e ele não passa apenas, ele permanece. Há um poço ali, continuação do conhecido poço do Pé Seguro, só que mais acima. A água faz o seu serviço de sempre, convida, acalma, renova, e a gente entende por que tantas pessoas procuram um recanto assim em feriados e fins de semana.
Ademir, do jeito dele, fez gravações nos dois lugares. Ficou registrando e chamando atenção para algo que faz falta em muitas cidades pequenas: união. União entre os empreendedores, entre os agentes de turismo, e também presença do poder público, não para mandar, mas para apoiar, orientar, divulgar, criar condições. Porque há um tesouro ali, e tesouro, quando fica escondido demais, não ajuda ninguém.
Voltei com sacolas cheias e com uma certeza simples. Ivorá está encontrando um modo bonito de crescer, sem perder o jeito de conversar. Está aprendendo a receber, sem virar vitrine. Está abrindo portas, mas mantendo a casa com cheiro de pão. E talvez seja isso que a gente procura quando viaja para o interior: um lugar onde a beleza não está só na cascata que cai, está também na palavra que fica. Enquanto eu estiver vivo, será do meu jeito. E que esse jeito, o da calma, o da terra, o do acolhimento, continue vivo por muito tempo. Afinal, em Ivorá, a vida não corre; ela flui, límpida e generosa, como as águas da Queda Livre.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





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