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O carnaval na Sapucaí e a educação estética – por Luiz Carlos Nascimento da Rosa

“A arte é a busca, ad infinitum, de rompimentos de seus próprios limites”

A Arte necessita da Filosofia, que a interpreta, para dizer o que ela não consegue dizer, conquanto só através da Arte pode ser dito ao não ser dito. Theodor W. Adorno (Teoria Estética)

Provavelmente, como na vida da grande maioria, o Carnaval depende do tempo e nosso contexto. Nossa relação com ele depende de nossa vida cronológica, anseios e desejos.

Quando era estudante na UFSM, passava minhas férias em Tupanciretã e, com amigos e amigas, fundamos nosso bloco de Carnaval. Esse ato audacioso tinha, sempre, um duplo objetivo: brincar o Carnaval e tornar acessível esse projeto coletivo para driblar os poucos recursos financeiros que possuíamos.

No início da 80 do século XX, fui um contumaz praticante das folias de Momo. Para conhecimento público até tocava tarol na chamada charanga de nosso bloco. Além do XIII de Maio e Salgueiro (que possuíam Escolas de Samba), fomos os primeiros aventureiros a desfilar na Avenida Vaz Ferreira, embalados pelo som de nossa charanga. É certo que não éramos grande coisa na Arte de tocar samba, mas sempre deu para o gasto. Fazíamos o possível, segundo nosso conhecimento e as condições materiais que tínhamos, mas, sempre fizemos a travessia de forma prazerosa.

Hoje satisfaço-me em admirar a Arte em movimento das Maravilhosas Escolas de Samba do Rio de Janeiro e São Paulo.

William Shakespeare, em o Mercador de Veneza, afirmou que nem tudo que reluz é ouro. Na época de Shakespeare não existia a perspectiva psicanalítica, mas na época do grande Adorno, da Escola de Frankfurt e Teoria Crítica, sim.

Em comum, essas obras primas nos remetem à “Escuta Psicanalítica”. Só para não deixar um hiato no texto, quero dizer, que, no Divã, o quê vem do analisado não, necessariamente, e o que o sujeito da fala quis dizer? Para Jacques Lacan existe o significado e o significante. O bom analista tem que descobrir o que vem no significante.

Como um amante da Arte, tenho dado-me conta que a Arte é uma excelente mediadora para perceber a diferença entre o dito e o desejado ideologicamente.

Dificilmente o dito e o ouvido são coisas iguais.

Felizmente, há muito tempo que procuro estudar o Carnaval e tenho observado que os carnavais além de uma magnânima obra de Arte em movimento, têm rompido com muitos paradigmas conservadores. Esse Carnaval não foi diferente.

A Escola Vitoriosa foi a Viradouro. O Enredo e homenageado foi o Sambista que atravessou todos os postos dentro da Escola. O homenageado é um ser humano de natureza, socialmente, humilde que construiu sua História apartir de seus aprendizados nos fazeres e saberes historicamente construídos nesse maravilhoso ambiente cultural.

Acadêmicos do Salgueiro faz sua travessia na avenida tornando público livros, bibliotecas e o grande prazer que se tem nesses ambientes. A homenageada foi Rosa Magalhães. Professora e Carnavalesca apaixonada por se apropriar pelo que estão nos livros e bibliotecas.

Acadêmicos de Niterói faz a travessia da avenida, falando da História de Vida de um Retirante, que se transforma, no século XXI, em um dos maiores Estadistas da História brasileira.

Nas Escolas de Samba não há construção de Mitos e, muito menos, pré-conceitos sociais, conjunturais ou históricos.

Quem já assistiu a Arquitetura da Destruição, no tempo do nazismo de Hitler, vai verificar as atrocidades estéticas e históricas que, o ser humano, pode fazer em nome de um projeto despótico que advém da cabeça doentia de “lideranças” que obteem o consenso passivo de seus comandados e semelhantes.

O grande Poeta mexicano, Octavio Paz, afirmou: ser um grande pintor significa ser um grande poeta: alguém que trascende os limites da sua linguagem. (…) O poema não diz o que é, mas o que poderia ser.

Assim é a dinâmica da arte. A arte não se contenta com os limites do produzido e nem que o ser que produz se satisfaça com o produzido. A arte é um estado perene de insatisfações com os limites que a objetividade do mundo impõe. A arte é a busca, ad infinitum, de rompimentos de seus próprios limites.

Não sabemos reproduzir Caravaggio ou Hambrandt, mas pelo conhecimento histórico podemos entender a singularidade dessas obras no contexto universal de uma grande obra de arte.

Usando a linguagem de Adorno e de muitos estudiosos a “Experiências Estética” não é um instrumento de reprodução do mundo vivido através da Arte, mas o rompimento com as correntes da “Indústria Cultural” e a subssunção do ato criativo, na Arte, a obviedade do Mantra Capital. A Experiência Estética, se filosoficamente, bem pensada pode transformar-se numa grande mediação entre Arte e Educação.

Quantas linguagens das diferentes formas de Arte são expressas no desfile de uma Escola de Samba? Musical e portanto Poética, Escultura, Dança, Pintura e etc…

Essa pluralidade de linguagem explícita e a multiplicidade de experiências estéticas nos dão as possibilidades do vir-a-se nessa pluralidade de produção do ser humano novo. Pensemos na Educação e aprendizado para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores do ser social. A Educação e as experiências estéticas produzidas pelas artes, no desfile de uma Escola de Samba, serão importantíssimos mediadores para formar um ser humano muito melhor do quê está posto nesse modus operandis da sociedade das trocas e subservientes a indústria cultural e seu Deus Capital.

Com Adorno, podemos dizer que “a tarefa da arte é introduzir o caos na ordem”. Para nos mantermos no projeto Lírico do nosso projeto de texto podemos refletir com o grande Thiago de Mello, em Os Estatutos Homem: fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Que tenhamos um cotidiano que pressuponha uma vida Ética e que todas as linguagens das Artes sejam, também, parte de projetos educativos e que a Estética seja capaz de nos catapultar para uma vida muito melhor. A Escola vencedora na Sapucaí foi a Viradouro. Ela colocou como Enredo um sambista chamado Mestre Ciça. Pessoa humilde que galgou todos os cargos dentro da Escola até chegar em Mestre da Bateria.

A Acadêmicos de Niterói usou a figura de um Operário que construiu sua História nos movimentos sociais até tornar-se no maior estadista de todos os tempos. Um Retirante nordestino que, ao vencer a seca e a fome, é o cidadão que mais título de Dr Honoris Causa possui no mundo.

A Acadêmicos do Salgueiro escolheu uma Professora e Carnavalesca para homenagear. Rosa Magalhães foi a Professora e Carnavalesca homenageada. A Escola se tornou, esteticamente, o desfile de bibliotecas e livros.

Grandes Mitos foram derrubados nesse Carnaval. Não é dinheiro e posição social que geram arte na Sapucaí.

Entre a vida e sua possibilidade Estética, a Arte em Movimento, no Carnaval quer ter a pretensão de educar palas suas possibilidades de suas experiências estéticas.

Entre cores e versos existe o ritmo. Assim é a singularidade da Arte.

Sócrates, o maior de todos, afirmou: a única coisa que conheço é o limite de minha ignorância.

(*) Luiz Carlos Nascimento da Rosa é professor aposentado do departamento de Centro de Educação da UFSM

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9 Comentários

  1. Resumo da opera. Estas coisas da Academia, tem muito disto lá, que ficam atrás dos escudos como Tatiana Sampaio. Textos ‘ora direis ouvir estrelas’ que viram ‘ciência’.

  2. ‘Sócrates, o maior de todos, afirmou: a única coisa que conheço é o limite de minha ignorância.’ Maior de todos o quê? Frase correta é ‘Sei uma coisa, que nada sei’. Mas geralmente é citada fora de contexto. Provocado o Oraculo de Delfos decretou que Socrates era o homem mais sabio de Atenas. Geralmente, alás, citam a Apologia e deixam Criton de lado.

  3. ‘Que tenhamos um cotidiano que pressuponha uma vida Ética […]’. Gente que não pretende fazer nada gosta de uma exortação.

  4. ‘[…] o grande Thiago de Mello, em Os Estatutos Homem: […]’. Viajando não na maionese, mas nas palavras ‘bonitas’.

  5. ‘Quem já assistiu a Arquitetura da Destruição, no tempo do nazismo de Hitler, vai verificar as atrocidades estéticas e históricas que, o ser humano, pode fazer em nome de um projeto despótico […]’. Sim, mas foi só no nazismo. Por isto ‘O Encouraçado Potemkin’ é exibido pelo menos uma vez por ano na Cesma.

  6. ‘Para Jacques Lacan existe o significado e o significante.’ Outra chupinhada basica, isto é do livro ‘Curso de Linguistica Geral’ de Saussurre. Do tempo que Lacan mal sabia caminhar. Até o pessoal do jornalismo sabe disto, ou deveria, pois têm uma cadeira de semiotica.

  7. ‘Para Jacques Lacan existe o significado e o significante.’ Lacan só é levado a serio no Brasil praticamente. Noam Chomsky, sujeito de extrema-ultra-direita, dizia que ‘[…] eu pensava que ele era um completo charlatão, só posando para as camaras como muitos intelectuais de Paris fazem.’ Chomsky também falou das ‘palavras elegantes’ que significavam nada. A coisa toda gerou o livro ‘Imposturas Intelectuais’ de Sokal. Lacan misturou psicanalise (Freud revisitado basicamente) com matematica. Pessoal de exatas foi ver do que se tratava. A ‘matematica’ de Lacan era só jargão, não tinha nada a ver com a disciplina, era picaretagem intelectual.

  8. ‘[…] mas na época do grande Adorno, da Escola de Frankfurt e Teoria Crítica, sim.’ Omissão de praxe, eram neomarxistas. É um livro de receitas que não funcionam, mas a ‘capa’ muda.

  9. ‘Na época de Shakespeare não existia a perspectiva psicanalítica,[…]’. Havia outros tipos de pseudociencia.

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