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O fim das certezas: do otimismo liberal às incertezas do Século XXI – por José Renato Ferraz da Silveira

Então, a história “se reinventa em ciclos de expansão, ruptura e reorganização”

Se o século XIX acreditou estar construindo o ápice da civilização, o século XX tratou de demolir essa certeza – e o século XXI, ainda em curso, nos obriga a perguntar se não estamos diante de uma nova mutação histórica sem precedentes.

Para Eric Hobsbawm, o longo século XIX foi marcado pela expansão do capitalismo industrial e do colonialismo europeu, uma era que projetava confiança quase ilimitada no progresso. Como ele sintetiza, tratava-se de uma civilização capitalista na economia; liberal na estrutura jurídica e constitucional; burguesa na hegemonia social; entusiasmada com a ciência, a educação e o progresso material; e profundamente convencida da centralidade da Europa como motor do mundo moderno. Essa lógica estruturou relações econômicas, políticas e culturais até o abalo sísmico representado pela Revolução Russa e pelo encerramento da Primeira Guerra Mundial, em 1918.

O século XX, que Hobsbawm denominou de “breve século XX”, rompeu com o otimismo liberal do período anterior. Foi um tempo de revoluções sociais, guerras mundiais, genocídios, crises econômicas devastadoras e polarização ideológica entre comunismo e democracia liberal. A ameaça nuclear pairou sobre a humanidade, enquanto antigas estruturas sociais e imperiais desmoronavam. Ao seu final, com o colapso do bloco soviético, consolidou-se uma ordem global marcada pela financeirização, pela hegemonia do mercado e pela crescente redução do papel dos Estados nacionais, muitas vezes vistos como entraves às dinâmicas transnacionais.

Já o século XXI inaugura uma fase ainda mais complexa. A globalização digital, a ascensão de novas potências asiáticas, as crises ambientais, as pandemias, o retorno de conflitos armados de grande escala, a intensificação das desigualdades e a fragmentação política desafiam as categorias herdadas do passado. O Estado-nação, antes considerado em declínio, ressurge em muitos contextos como agente estratégico; ao mesmo tempo, corporações tecnológicas e fluxos financeiros globais exercem poder sem precedentes. A promessa liberal de progresso contínuo convive com incertezas estruturais: mudanças climáticas, transformações no mundo do trabalho, disputas geopolíticas e crises de representação democrática.

Se o século XIX acreditou no progresso inevitável e o século XX testemunhou o colapso de suas ilusões, o século XXI parece viver a tensão permanente entre interdependência global e fragmentação política. O desafio contemporâneo não é apenas administrar crises, mas redefinir os fundamentos da convivência internacional, da democracia e do próprio capitalismo.

Ao olhar para essa trajetória – da euforia burguesa oitocentista à turbulência do presente – compreendemos que a história não avança em linha reta. Ela se reinventa em ciclos de expansão, ruptura e reorganização. E talvez seja justamente essa consciência histórica que nos permita interpretar com maior lucidez os dilemas do nosso tempo.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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