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Precisamos falar muito sobre Tatiana Sampaio e sua equipe – por Valdeci Oliveira

Ela “não faz propaganda de Bet, não cobra dízimo e não desfilou na Sapucaí”

A inovação brasileira tem nome e sobrenome. A mulher mais influente do Brasil no momento – e se não é deveria ser – não faz propaganda de Bet, não cobra dízimo e não desfilou na Sapucaí. Mas está fazendo andar quem já tinha perdido esta condição. A primeira vez que li sobre Tatiana Sampaio foi em setembro do ano passado e fiquei impressionado.

Cientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cria do ensino superior público federal – cursou graduação, mestrado e doutorado na mesma universidade – ela é a responsável por chefiar o grupo que vem efetuando os estudos da polilaminina, iniciado por ela em 1997.

Grosso modo, se trata da versão sintética de uma substância (laminina) presente em nosso organismo e que atua no apoio à reconexão dos neurônios e por tabela na regeneração de lesões na medula. A recuperação se dá total ou parcialmente nos movimentos do corpo de pessoas que enfrentam o problema. Noves fora, uma tremenda revolução no campo da medicina.
A dedicação e o talento de Tatiana se mostraram eficazes. Dos oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos que receberam aplicações, a polilaminina atuou positivamente na recuperação dos movimentos perdidos de seis. Tatiana e seu estudo são a prova – mais uma – que na universidade pública se trabalha, se realizam pesquisas extraordinárias, se elabora conhecimento e se divide com todos os bons resultados deste.

E tudo de forma soberana, pensando no povo e no país. Tatiana e seu estudo são a prova de que os inimigos da ciência e aqueles que veem a educação pública e de qualidade como custo a ser cortado não merecem o respeito de quem pensa.

De forma prática, o produto desenvolvido pela equipe de Tatiana é a mais nova, ampla e sem sombra de dúvida a mais concreta esperança para quem, seja pelo motivo que for ou intensidade e amplitude do traumatismo, espera um dia recuperar lesões medulares e poder voltar a andar. E esta esperança, a depender das escolhas políticas que fazemos diariamente, pode chegar mais rápido ao nosso SUS – o que será outra revolução.

Diante de quadro tão animador, e confiando em seu potencial, o Ministério da Saúde e a Anvisa estabeleceram como prioridade absoluta acompanhar todos os estudos que agora estão sendo realizados focados na segurança e eficácia da polilaminina. As avaliações de quem está envolvido neste processo asseguram que assim é possível se acelerar o acesso da população ao tratamento. E de forma 100% gratuita. Mas isso somente poderá acontecer porque estamos falando de ensino e saúde públicas e de qualidade.

Mas nem tudo são flores. Por conta dos cortes orçamentários infringidos à UFRJ e demais universidades federais, principalmente a partir de 2016, no governo Michel Temer, o Brasil perdeu o direito à patente internacional da polilaminina, que havia sido solicitada, mas que segundo as regras para esse tipo de processo dependia de pagamentos para mantê-la.

E isso aconteceu porque a universidade não conseguiu deixar em dia os desembolsos necessários e que iriam garantir para si – e para o Estado brasileiro – os direitos daquele conhecimento que foi totalmente desenvolvido nas suas dependências, financiado em grande parte com dinheiro do povo brasileiro e por uma das suas pesquisadoras. Com isso, lá fora, todo o trabalho poderá ser copiado, pois não está mais protegido. Estamos falando de vários bilhões de Reais.

Como bem disse a própria Tatiana, cortes de gastos têm suas consequências – que nunca são pequenas.

Assim como a Saúde, a Educação é uma área sensível. Qualquer mexida para menos em seu orçamento significa retroceder passos já dados e que depois serão mais custosos – quando não impossibilitados – de serem colocados no lugar, de voltarem ao ritmo, aos trilhos.

Assim como a Saúde, a Educação é uma área que traz consigo um enorme passivo formado em sua maioria pela histórica falta de prioridade e investimento de governos liberais, que somados às suas vertentes neo e ultraliberais compuseram um pesado passivo que, se incluirmos o crescimento vegetativo da demanda, torna a área vulnerável a qualquer restrição, por mínima que seja.

Mesmo com as recomposições e garantias orçamentárias aplicadas pelo governo federal desde 2023, o que fortaleceu e ampliou as políticas públicas de acesso e manutenção de jovens no ensino superior e apoio à pesquisa, elas ainda não estão em patamar ideal quando se pensa em manter o pleno custeio e funcionamento das nossas unidades de ensino como devem ser.

A descoberta de Tatiana, e sua aplicação prática na vida real, nos mostra que quando a gente acredita no saber das nossas universidades e no investimento e apoio à capacidade do nosso povo, quem verdadeiramente ganha é o Brasil. E isso nada mais é que escolhas políticas.

(*) Valdeci Oliveira, que escreve sempre as sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria.

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13 Comentários

  1. Resumo da opera III. Molusco com L., abstemio, honesto e famigerado dirigente petista: “O que vai ganhar essa eleição é a narrativa política”.

  2. Resumo da opera II. Pegaram uma pesquisa que ainda está andando, não tem resultados confirmados. Inflaram a importancia. Maquina de propaganda transformou em ferramenta politica. Culpa unica e exclusiva do Temer. A pesquisa citada, exceção que confirma a regra, ‘redime’ todo o dinheiro gasto em ‘ciência’ no Brasil. Inclusive mestrados e doutorados em direito, sociologia, contabilidade, administração, teatro, musica, etc. E ainda por cima ninguém precisa trazer retorno para a sociedade. É como o Fundo Setorial do Audiovisual e a Lei Rouanet, não interessa se ninguém vai ver o filme ou o espetaculo, o que interessa é o ‘se faz cultura’. Um pais de faz de conta.

  3. Resumo da opera. Pior que os ‘inimigos da ciencia’ são os inimigos da verdade! Alas, nesta hora algum imbecil vai querer discutir ‘filosoficamente’ o que é verdade. Para quem acredita nesta gente tenho um viaduto para vender na BR158. Tem uma curva no meio, a vista é sensacional. Tenho uma universidade a venda no bairro Camobi também, baratinho!

  4. ‘Por conta dos cortes orçamentários infringidos à UFRJ e demais universidades federais, principalmente a partir de 2016, no governo Michel Temer […]’. Em 2015 Dilma, a humilde e capaz, cortou 10 bilhões dos orçamentos das federais. Isto ficou de fora. Gente querendo ser esperta sem ter o equipamento adequado.

  5. ‘[…] a polilaminina tem levado pessoas, com diferentes tipos de lesão medular, a entrar na Justiça para obter acesso ao tratamento por meio de liminares.’

  6. ‘[…] Pesquisa e Desenvolvimento da farmacêutica Cristália — que trabalha junto com a UFRJ na produção do medicamento […]’. ‘[…] Para obter a proteína em sua forma mais próxima da estrutura humana, ela é extraída da placenta, um material naturalmente rico em laminina. […]’.

  7. ‘Tatiana e seu estudo são a prova de que os inimigos da ciência […]’. ‘[…] o estudo ainda não reúne todas as características necessárias para afirmar a eficácia da polilaminina, mas a diferença observada sugere a existência de um resultado promissor.’ ‘Vale lembrar que essa pesquisa foi divulgada como um pré-print — tipo de artigo que não recebeu uma avaliação de especialistas independentes, que não estavam envolvidos com a pesquisa.’

  8. ‘Noves fora, uma tremenda revolução no campo da medicina.’ Uma das pesquisas conduzidas pela UFRJ envolveu um grupo de oito pacientes com lesões medulares completas, classificadas como tipo A […]’. ‘O resultado indicou uma taxa de 75% de recuperação de movimentos — um percentual muito superior aos 15% observados em dados históricos da literatura científica que acompanharam pacientes com lesões semelhantes […]’,

  9. Ainda BBC. ‘À época, já se sabia que a laminina desempenha um papel fundamental no crescimento dos axônios — estruturas que são rompidas em uma lesão medular.’ Mais ainda, o que confirma o acaso: ‘Anos atrás, um pesquisador da UFRJ comprou a laminina para um experimento, mas acabou não usando a proteína.’ Ou seja, iria fora. Resolveram aproveitar.

  10. ‘[…] ela é a responsável por chefiar o grupo que vem efetuando os estudos da polilaminina, iniciado por ela em 1997.’ BBC News Brasil. 2 de fevereiro deste ano. Da própria Tatiana: ‘A princípio, eu não sabia nem para que servia aquilo. Eu não estava procurando um medicamento para lesão medular e aí encontrei a polilaminina. Foi o contrário: eu tinha uma coisa chamada polilaminina, que nós que demos o nome, que era um complexo de moléculas da laminina”

  11. ‘Ela “não faz propaganda de Bet, não cobra dízimo e não desfilou na Sapucaí”. Tem gente que faz propaganda em site de noticia interiorano. O que há de errado com quem cobra dizimo e desfila na Sapucaí? Alás, Estatuto. ‘Art. 176. Os recursos financeiros do Partido dos Trabalhadores serão originários de: I – contribuições obrigatórias de seus filiados e filiadas na forma deste Estatuto; II – contribuições obrigatórias dos filiados e filiadas ocupantes de cargos eletivos, de confiança e dirigentes na forma deste Estatuto; III – contribuições espontâneas de filiados ou filiadas e simpatizantes;’. Além do ‘dizimo’ não tem uma ‘rachadinha’ aí?

  12. Promotor em SC dando aula. ‘Não precisa se exasperar se alguém ‘escapou’, quem é freguês sempre volta’.

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