Artigos

Filhos no banco de trás: a preparação para o mundo que não existe – por Marcelo Arigony

“Resolver problemas inéditos... Comunicar com clareza. Decidir sob pressão”

Deixei recentemente a direção de um campus universitário.

Não por ruptura. Por percepção.

Levo minhas filhas à escola todos os dias.

Vão no banco de trás, discutindo aulas, trabalhos, pequenos dramas.

Eu dirijo e penso no tempo.

A universidade continua sendo espaço de convivência e amadurecimento. Isso permanece. Mas o diploma já não é promessa de futuro. Tornou-se apenas requisito formal. O mercado está cheio de certificados – e escasso de competências reais.

Aprender rápido.

Desaprender sem apego.

Resolver problemas inéditos.

Interpretar dados. Comunicar com clareza. Decidir sob pressão.

Enquanto a tecnologia acelera em ciclos cada vez mais curtos, todas as grades curriculares ainda se movem como um paquiderme: pesadas, lentas, confiantes demais em modelos que nasceram para antanho.

No Direito, a prova digital e a investigação tecnológica já transformaram a prática. Quem não acompanha deixa de compreender o próprio processo.

A questão não é abandonar a formação clássica. É reconhecer que ela sozinha não basta.

Base importa.

Mas autonomia importa mais.

E enquanto sigo dirigindo, a cena é simples.

Minhas filhas estão no banco de trás.

E seguimos preparando-as para um mapa que já foi rasgado.

Elas não sabem.

Nós sabemos – ou deveríamos.

E o tempo não reduz a velocidade para quem insiste em dirigir olhando pelo retrovisor.

(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil. Ele escreve no site às quartas-feiras.

Arigony Advocacia – Escritório de Advocacia

Observação: a imagem que ilustra este texto foi produzida via inteligência artificial.

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

10 Comentários

  1. Resumo da opera. Educação é só mais um assunto que está sendo empurrado com a barriga. Sem susto, negocio é ‘controlar a imagem e a narrativa’. Proibe o uso de celulares aqui, chama a imprensa e faz uma cerimonia de distribuição de tablets acolá (como o MEC fez no Maranhão), destaque para as notas altas da redação do Enem, etc. Nada está errado e o futuro é brilhante. Outras maquiagens: distribuir uniformes, construir escolas novas (‘inaugurar’ reformas em antigas não dá voto), etc.

  2. ‘Minhas filhas estão no banco de trás. E seguimos preparando-as para um mapa que já foi rasgado.’ O ‘boleto historico’, a ‘conta’, é delas para pagar. Simples assim.

  3. ‘[…] todas as grades curriculares ainda se movem como um paquiderme: pesadas, lentas, confiantes demais em modelos que nasceram para antanho.’ Stanley McChrystal. General ianque. Escreveu um livro. ‘Risco: guia do usuario’. Pega um termo emprestado da fisica. Inercia. A tendencia de manter o mesmo curso de ação ou permanecer inerte a despeito das alterações das circunstancias. Vai na linha do ‘fazer sempre a mesma coisa e esperar resultado diferente é insanidade’.

  4. ‘A questão não é abandonar a formação clássica. É reconhecer que ela sozinha não basta.’ Formação clássica já foi abandonada há mais de 60 anos. ‘Modernizações’. Ao invés de cobrar raciocinio começaram a cobrar memorização. Sistema se realimentou. Ninguém ensina o que não sabe, não se aprende tudo só lendo resumos. Alunos de hoje, os docentes de amanha.

  5. ‘No Direito, a prova digital e a investigação tecnológica já transformaram a prática. Quem não acompanha deixa de compreender o próprio processo.’ Alguns cursos por ai oferecem a disciplina de medicina legal. Para os causidicos de penal poderem entender os laudos (corpo de delite, cadavérico). Para o digital nada. Falam no ‘algoritmo’, uma espécie de varinha de condão que tudo pode. Se não está tudo perfeito a culpa, anticapitalismo, é ‘das grandes corporações bobas, feias e chatas’. Patético.

  6. Pessoal da computação grafica para efeitos especiais nos filmes também está procurando recolocação.

  7. ‘Enquanto a tecnologia acelera em ciclos cada vez mais curtos,[…]’. Jack Dorsey, fundador do Twitter, tem uma nova empresa. Block, serviços financeiros. Colocou 40% dos funcionários na rua recentemente. Más linguas falam em crise na empresa, das criptomoedas, etc. Sujeito afirma que equipes pequenas com auxilio de IA irão desempenhar melhor. Lembrando que Musk quando comprou o Twitter mandou 80% do pessoal para a rua.

  8. ‘Decidir sob pressão.’ Isto só se aprende em alguns lugares e com o tempo. Porque depende do que está em jogo e das consequencias de uma decisão errada.

  9. ‘Mas o diploma já não é promessa de futuro. Tornou-se apenas requisito formal. O mercado está cheio de certificados – e escasso de competências reais.’ Na aldeia numa certa época surgiu o chavão ‘exportadora de cerebros’. Diploma de curso superior em determinadas instituições proporcionava entrevistas para primeiro emprego. Depois do primeiro emprego o foco sai do diploma e se tranfere para as ‘realizações’.

  10. ‘Deixei recentemente a direção de um campus universitário.’ Muita coisa de ruim acontece porque alguns não sabem a hora de largar o osso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo