Império dos fazendeiros – por José Renato Ferraz da Silveira e João Pedro Bandeira Soares
Planilha fecha. Projeto de nação, esse, fica para depois - talvez na próxima safra

O Brasil nunca deixou de ser uma grande fazenda: apenas trocou o arame farpado por Wi-Fi e a porteira por dashboard. A paisagem continua essencialmente a mesma. O lucro também.
A engrenagem histórica segue funcionando com invejável eficiência. Trocou-se a chibata pela planilha, o cativeiro formal pela precarização administrada, as antigas companhias coloniais pelas big techs, indústrias e corporações farmacêuticas. Mudou a estética, preservou-se a lógica. E ela permanece confortável – quase acolhedora – para quem lucra com ela.
A movimentação de Ronaldo Caiado, ao flertar com Donald Trump em torno das terras raras, soa menos como ousadia geopolítica e mais como a pressa típica de quem enxergou a oportunidade antes de ler o contrato. O gesto revela um certo espírito empreendedor federativo: cada estado por si, Deus pelas commodities.
Caiado parece sonhar em colar Goiás na Flórida.
O problema é que, no meio do entusiasmo, alguém esqueceu de avisar que soberania não costuma entrar em negociação como se fosse lote de safra. Recursos estratégicos passaram a circular como ativos prontos para vitrine. A coordenação nacional, por sua vez, observa de longe – talvez esperando a cotação subir.
No cenário internacional, a disputa por terras raras virou febre. As grandes potências correm atrás de autonomia tecnológica, redesenham cadeias produtivas e disputam controle sobre insumos críticos. O Brasil surge, mais uma vez, como fornecedor promissor: sempre pronto, sempre disponível, sempre com estoque.

E não são apenas as terras raras que deveriam entrar no cálculo estratégico. Em um futuro de rupturas sistêmicas, crises climáticas e disputas prolongadas, a fome pode se tornar tão decisiva quanto os minerais críticos. Alimento também é poder. Talvez, em certos contextos, seja um poder ainda maior.
É aí que a ironia se impõe. Um país que ajuda a alimentar o mundo continua tratando comida прежде de tudo como commodity, antes de reconhecê-la como instrumento de soberania e poder. Produz em escala continental, negocia em escala global e planeja em escala trimestral.
O agronegócio reina com números impressionantes e influência proporcional. Cresce, exporta, sustenta a balança comercial e pauta prioridades. A planilha fecha. O projeto de nação, esse, fica para depois – talvez na próxima safra.
A elite econômica brasileira, aliás, exibe notável consistência. Mantém o foco no curto prazo com disciplina quase admirável: aproveita ciclos, captura ganhos e evita complicações estratégicas. Pensar grande dá trabalho. Vender grande dá retorno.
O Brasil segue avançando, sempre para frente, raramente para outro lugar.
No fim, sobra uma constatação incômoda: o país se especializou em ser essencial para os outros. Para si mesmo, porém, continua em fase de testes.
A fazenda é eficiente. A nação, não.
A terra até pode ser brasileira. Mas o dinheiro, a tecnologia e, em grande medida, os corações e mentes de seus proprietários continuam voltados para o estrangeiro.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP)
João Pedro Bandeira Soares é graduando em Relações Internacionais pela UFSM e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).
Observação: a imagem que ilustra esse artigo é produção de Inteligência Artificial.





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