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Muito além da estatueta – por João Luiz Vargas

“Há vitórias que não cabem em vitrines. Estar ali já é romper barreiras”

Mais um domingo em que o brasileiro se mobiliza, torce e espera diante da tela, como quem aguarda não apenas um prêmio, mas um reconhecimento coletivo. O Oscar deixa de ser apenas uma cerimônia e se transforma em um ritual de pertencimento, onde o país inteiro respira expectativa.

Como no ano passado, a torcida veio forte. Havia, mais uma vez, um filme e talentos brasileiros entre os indicados. As categorias chamavam atenção, ampliavam o olhar, convidavam o público a sonhar junto. O Oscar, principal premiação do cinema mundial, organizado pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences em Los Angeles, reconhece produções lançadas no ano anterior, mas também revela, ano após ano, quais histórias conseguem atravessar fronteiras.

Se no ano passado celebramos a conquista de melhor filme internacional com “Ainda Estou Aqui”, neste domingo a vitória não veio em forma de estatueta. “O Agente Secreto” não levou os prêmios nas categorias em que concorria, incluindo melhor filme, melhor filme internacional, melhor elenco e melhor ator, com Wagner Moura, além da indicação de melhor fotografia para Adolpho Veloso em “Sonhos de Trem”.

Ainda assim, há vitórias que não cabem em vitrines. Estar ali já é romper barreiras, é inscrever o Brasil no mapa simbólico do cinema mundial. É como se cada indicação fosse uma fresta aberta, por onde a nossa história insiste em entrar, mesmo quando tentam manter a porta fechada.

O brasileiro tem um jeito único de transformar tudo em narrativa, em emoção, em coletivo. Assim como se entusiasma ao acompanhar cada anúncio da premiação, também se reinventa quando as luzes se apagam. Surgem os memes, as críticas bem-humoradas, as brincadeiras sobre injustiças e revisões necessárias. Há nisso uma dimensão política, quase instintiva, de quem não aceita o lugar do silêncio. Mais do que nacionalismo, é orgulho. Orgulho de existir, de produzir, de resistir e de seguir chegando. Porque, no fim, o Brasil não cabe em um prêmio. O Brasil é como sua própria história, insiste, ocupa espaço, atravessa fronteiras e permanece, mesmo quando o mundo ainda demora a reconhecer aquilo que já é impossível ignorar.

(*) João Luiz Vargas, ex-prefeito de São Sepé, ex-deputado, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado). Ele escreve no site às sextas-feiras.

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