O PowerPoint da suspeita -por Amarildo Luiz Trevisan
“O problema é que os fatos (...) contam história muito diferente da mostrada”

A mídia, em geral, já percebeu há muito tempo o ponto fraco dos brasileiros, até os escândalos políticos precisam virar novela. É preciso haver um fato chamativo no primeiro capítulo. É preciso um enredo que prenda a atenção. Elegem-se os investigadores que trarão à luz o mal escondido. Distribuem-se os papéis dos justos e dos culpados. Reservam-se os castigos para o desfecho. E, como em toda novela, o roteiro vai sendo ajustado ao sabor das circunstâncias, dos interesses editoriais e, quase sempre, dos interesses do mercado, que prefere a emoção contínua do conflito à paciência difícil da verdade.
O quadro exibido pela GloboNews sobre o escândalo do Banco Master não inventa propriamente um mundo inexistente, mas reorganiza o mundo existente de tal maneira que a aparência passa a valer mais do que a explicação. Daniel Vorcaro é colocado no centro, rostos conhecidos surgem em volta, linhas vermelhas atravessam a tela, e em poucos segundos o público já não recebe uma investigação, recebe um enredo. A notícia deixa de ser apuração e se converte em mural de propaganda enganosa.
O problema é que os fatos, quando lidos com um mínimo de sobriedade, contam uma história muito diferente da que foi mostrada. O caso Banco Master envolve crise de liquidez, deterioração econômico-financeira, suspeitas de fraude, tentativas de influência e relações de natureza muito distinta entre personagens do mundo político, econômico e institucional. O quadro televisivo, porém, apaga essas diferenças. Comprime tempos diversos, mistura vínculos de pesos incomparáveis e oferece tudo sob a mesma gramática da culpa visual. Reunião institucional, consultoria pretérita, mensagem privada, registro de voo, aproximação política, tudo passa a parecer equivalente quando alinhado pela mesma cor, pela mesma seta e pela mesma lógica de exposição. O que se vende como explicação já chega ao público como sentença declarada.

Também por isso o maior problema talvez não esteja apenas no que foi mostrado, mas no que se resolveu omitir. Quando certas figuras aparecem em destaque e outras, igualmente relevantes para a compreensão pública do caso, desaparecem da moldura, a notícia deixa de ser informação e passa a ser marketing político para um lado só. Não se trata apenas de informar pela metade. Trata-se de organizar a percepção, distribuir desgastes, escolher os nomes que serão associados ao escândalo e poupar aqueles que convém manter ao abrigo da exposição pública. O recorte, então, deixa de ser inocente. Ele passa a agir silenciosamente sequestrando a memória do público.
A política já não é apresentada como trama contraditória, cheia de mediações, disputas, ambiguidades e zonas cinzentas. Ela é reduzida a uma ficção moral de consumo rápido, com heróis pré-fabricados, pecadores escolhidos e reviravoltas cuidadosamente editadas para manter acesa a atenção da plateia.
O escândalo deixa de ser objeto de análise e passa a funcionar como capítulo de entretenimento. Não importa mais compreender os fatos em sua densidade, importa prender o olhar, produzir afeto, orientar a indignação e entregar ao público a catarse de um julgamento visualmente persecutório.
É por isso que o PowerPoint da GloboNews incomoda tanto. Não apenas por seus equívocos, nem somente pelas suas omissões, mas porque ele revela um modo de operação que se tornou familiar nas ditaduras. E quando o jornalismo aceita esse papel, ele já não apenas noticia a política, ele passa a roteirizá-la e manipular as nossas mentes de maneira desavergonhada. Escolhe os protagonistas, distribui a luz e a sombra, determina quem será salvo, quem será punido e quem desaparecerá discretamente no esquecimento conveniente do próximo capítulo.
O que parece evidente é que a GloboNews conseguiu com esse gesto foi deixar claro, com vergonhosa eloquência, que, nas próximas eleições, não pretende estar ao lado do público bem informado, isto é, do lado da verdade, mas de interesses que alimentam o negacionismo histórico. Tal narrativa se insere no cenário da desinformação, servindo para conferir falsa credibilidade a versões distorcidas da história.
Embora, em 24 de março de 2026, Andréia Sadi tenha se retratado ao vivo pelas informações incorretas que ligavam o banqueiro Daniel Vorcaro ao PT, é improvável que isso baste para desfazer a dramaturgia já instalada. Quando a mídia distribui máscaras de heróis e vilões, o falso enredo já contaminou a imaginação pública. E então a verdade, quando finalmente chega, encontra um terreno já devastado, onde o espetáculo já cumpriu a sua função social de rotulagem em detrimento do rigor. Assim, a correção ao vivo converte-se num ritual esvaziado de sentido. A verdade já não retorna como soberana, capaz de restabelecer a ordem dos fatos, mas como uma humilde varredora de escombros, condenada a recolher, tarde demais, os destroços de uma imagem que o espetáculo já se encarregou de deformar diante do público.
O mais grave é que, mais uma vez, o feitiço se volta contra o feiticeiro: na ânsia de produzir impacto, sacrifica-se o próprio jornalismo, enquanto se confirma, com amarga atualidade, o diagnóstico de Lukács, formulado há mais de cem anos em História e consciência de classe: “A ausência de convicção dos jornalistas, a prostituição de suas experiências e convicções só pode ser compreendida como ponto culminante da reificação capitalista.”
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





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