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O preço da palavra – por Marcelo Arigony

“Se fala, divide - mas carrega um rótulo que não sai: traidor”

A sala é silenciosa.

Mas não é calma.

Ali, ninguém fala alto.

Mas tudo pesa.

De um lado, o Estado.

Do outro, alguém que sabe – e precisa decidir o que fazer com isso.

Ficar em silêncio cobra um preço.

Falar cobra outro.

Ele não reage. Calcula.

Se cala, segura tudo.

Se fala, divide – mas carrega um rótulo que não sai:

traidor.

Essa palavra não está no processo.

Mas está em volta dele.

O sistema, porém, não trabalha com lealdade.

Trabalha com resultado.

Importa menos quem fala

e mais o que é dito.

Se a informação ajuda a esclarecer fatos, alcançar outros envolvidos e influenciar a investigação criminal, ela passa a ter valor.

E, no processo penal, valor não é gratuito.

É troca.

Informação por benefício.

Silêncio por consequência.

É aí que surge o incômodo.

Até onde é legítimo premiar quem rompe…

em nome de um bem maior?

No direito penal brasileiro, isso tem nome –

e ele quase sempre aparece só no final da conversa:

colaboração premiada.

(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil. Ele escreve no site às quartas-feiras.

https://arigonyadvocacia.com

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