Trump e a vassalagem mundial – por Leonardo da Rocha Botega
Posição inesperada? “Diferente da Venezuela, a reação do Irã tem sido outra”

Mais uma vez, o presidente estadunidense Donald Trump ordena um ataque unilateral a um país soberano. Os bombardeios realizados em 28 de fevereiro contra o Irã repetiram a mesma tática utilizada em 3 de janeiro contra a Venezuela: um ataque surpresa visando as principais lideranças do governo. Na Venezuela, o ataque culminou com o sequestro do presidente Nicolás Maduro. No Irã, o ataque culminou com o assassinato do líder supremo Ali Khamenei, sua família e cerca de 160 meninas em uma escola.
Apesar das semelhanças, os desfechos tem sido totalmente diferentes. Na Venezuela, o governo Trump conseguiu seu principal objetivo. Os Estados Unidos passaram a controlar a comercialização do petróleo do país sul-americano. Trump e seus principais assessores já nem falam mais em mudança no “regime” e o reestabelecimento das relações entre os dois países está praticamente encaminhada. O novo governo venezuelano, literalmente, “entregou os anéis para não perder os dedos”.
O desfecho do ataque à Venezuela veio ao encontro da “nova” estratégia da política externa trumpista. Diferentemente de seus sucessores e a até mesmo do primeiro governo Trump, a meta principal dos ataques estadunidenses não é mais a derrubada de “regimes” opostos aos seus interesses, mas sim a submissão dos governos aos seus interesses. Os fracassos das ações na Líbia, no Iraque e no Afeganistão indicaram que o “melhor caminho” é a transformação de governos opositores em vassalos.
O presidente estadunidense tem feito seguidamente referências a necessidade de os Estados Unidos retomarem o que, em seu entendimento, lhes foi “roubado”. A afirmação é coerente com o slogan que dá origem ao movimento Make America Great Again (MAGA) e indica a necessidade de reversão no processo de decadência da hegemonia estadunidense. Um dos motivos dessa decadência, segundo o MAGA, é a soberania nacional conquistada por países como Irã, Venezuela, Cuba e o território da Groenlândia.
Uma das frases mais utilizadas por Donald Trump ao comentar reuniões de negociações com países que não cedem aos interesses estadunidenses tem sido “ou eles nos dão o que é ‘nosso’ ou terão consequências”. Ao “despontamento” apontado pelo presidente estadunidense seguem os bombardeios, como vimos no Irã. O ataque ao país persa ocorreu em meio às negociações sobre a suspensão do proclama nuclear iraniano. Porém, diferente da Venezuela, a reação do Irã tem sido outra.
No mesmo dia do ataque, o Irã lançou centenas de drones e mísseis balísticos contra Israel. O ataque dos Estados Unidos ao Irã, contou com a participação do governo israelense do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, condenado pelo Tribunal Penal Internacional pelo genocídio palestino. Além do ataque a Israel, o Irã também revidou atacando bases militares estadunidenses na Jordânia, no Kuwait, no Bahrein, no Qatar, no Iraque, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos.
O governo iraniano também determinou o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do fornecimento global de petróleo e gás. A medida tem repercutido na economia global. No mesmo dia em que o fechamento foi anunciado, o preço do petróleo teve uma alta de 3% no mercado global e a previsão é que o valor do barril chegue a 100 dólares nas próximas semanas. Além do impacto econômico, aliados do governo do Irã como os Houthis do Iémen e o Hezbollah libanês anunciaram o ingresso no conflito.
O conflito não deve ter uma solução rápida. A forte reação do Irã tem preocupado os governos aliados aos Estados Unidos no Oriente Médio. Alguns desses governos têm reclamado da ausência de uma prometida proteção estadunidense aos seus territórios. De forma estratégica, o governo iraniano, na figura do presidente Masoud Pezeshkian, pediu desculpa pelos ataques e afirmou que esses países somente serão atacados novamente se novos ataques ao Irã tiverem como origem seus territórios.
A desproteção estadunidense aos aliados árabes é coerente como a Doutrina Trump. O autointitulado “senhor feudal” do mundo quer ter vassalos sem ser suserano. A submissão incondicional é a verdadeira (des)ordem internacional proposta pelo governo estadunidense. Até esse objetivo ser atingido muitos ataques contra países soberanos ainda poderão ser vistos. A cada dia que passa uma realidade tem ficado mais evidente: a volúpia trumpista torna o mundo mais imprevisível e inseguro.
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).





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