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A filosofia como leitura de mundos – por Amarildo Luiz Trevisan

Ler bem “é compreender sentidos, perceber silêncios, reconhecer intenções...”

Paulo Freire costumava dizer que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. É uma frase que se tornou quase um mantra educacional, mas que corre o risco de ser esvaziada pela repetição mecânica. O que raramente notamos é que, nessa transição do olhar para a palavra, da leitura do mundo para o conceito, habita a Filosofia. Desde os primeiros traços, a criança já está fazendo o exercício filosófico de interpretar a realidade. O problema é que estamos tentando ensinar a ler a palavra sem dar as ferramentas para ler o mundo.

Vivemos um tempo de “aligeiramento”. Nas universidades, a filosofia da educação perde espaço para o tecnicismo; nas escolas, disciplinas reflexivas são suprimidas. Num tempo em que a Filosofia vai sendo empurrada para as margens dos currículos, como se fosse um luxo inútil diante das urgências do presente, recordar isso se torna ainda mais necessário. O resultado é um recurso episódico a autores, sem sistema, sem profundidade. É o “fast-food” do pensamento aplicado a dilemas complexos, como a inteligência artificial. Sem a filosofia como bússola ou farol de análise, a interpretação das práticas escolares torna-se rasa, incapaz de dar conta da formação humana diante do algoritmo.

Antes de ser disciplina, a Filosofia é uma disposição do espírito. Ela começa quando a criança pergunta o porquê das coisas, quando estranha o óbvio, quando percebe que o mundo não está simplesmente dado, mas pede interpretação. Há, portanto, algo de profundamente filosófico no próprio ato de alfabetizar. Quem ensina uma criança a ler sem ajudá-la a pensar sobre o que lê, sobre o que vê e sobre o que vive, ensina apenas uma técnica empobrecida de reconhecimento de sinais.

Diante disso, perguntamos: estamos, de fato, alfabetizando? E, mais do que isso, estamos refletindo sobre os fins da alfabetização? Nas escolas, o quadro não é menos preocupante. Há instituições em que faltam prática e teoria. Há outras em que sobra prática, mas falta pensamento. E há ainda aquelas em que a teoria se acumula em excesso, desligada da vida concreta, como se refletir fosse um exercício que pudesse dispensar o mundo real. Também no ensino privado as diferenças se acentuam de modo inquietante. Para os setores emergentes, muitas vezes se oferece uma escola de desempenho, pressão e competição. Para os muito ricos, ao contrário, reserva-se com frequência uma formação mais humanizada, culturalmente sofisticada, quase como se houvesse duas ideias de educação em circulação, uma para vencer provas, outra para cultivar a existência. A desigualdade educacional, então, já não se limita ao acesso, ela se infiltra na própria concepção de humanidade que cada escola transmite.

Ler bem não é apenas ler depressa. Ler bem é compreender sentidos, perceber silêncios, reconhecer intenções, desconfiar de evidências, abrir-se ao que um texto revela e ao que ele oculta. Quando a escola reduz a leitura a uma habilidade operacional, ela prepara consumidores de informação, não intérpretes do mundo.

Porém, a reforma educacional atual parece obcecada com a performance: ler mais rápido, decorar signos, recitar sons. É uma “alfabetização papagaiada”, mecânica e funcionalista. Mas a leitura de mundo de hoje não é apenas textual; ela é, sobretudo, visual. Vivemos na ditadura da imagem, onde a estética molda a política e a mercadoria dita a comunicação. Se a escola não ensinar a criança a interpretar a imagem, ela estará entregando-a à passividade de uma cultura visual que consome sem discernir.

Por isso precisamos ir além de Paulo Freire. Porém, ir além não significa abandoná-lo. Significa reconhecê-lo em sua grandeza e continuar o caminho que ele próprio ajudou a abrir. Ir além é incluir novas camadas da experiência contemporânea, sem deslocar aquilo que permanece essencial em sua obra. Precisamos de uma nova práxis. Habermas já apontava o caminho através do discurso e da ação comunicativa. É preciso ir além de Freire, não para descartá-lo, mas para incluí-lo em um diálogo maior, como propõe Morin. Uma abordagem radical que nos inclua — a nós, ao outro e à nossa evolução conjunta. Educamo-nos na totalidade do fenômeno, não no recorte técnico de um currículo engessado.

Urge uma “pedagogia das imagens”. Precisamos ensinar a crítica diante da estetização da vida e da crise dos fundamentos. Se a leitura do mundo hoje passa por telas e cliques, a alfabetização precisa ser o filtro crítico que impede o indivíduo de ser apenas um receptor de pixels. A sociedade da imagem molda a opinião pública, produz afetos instantâneos, simplifica conflitos e estetiza a política. Nela, o que aparece tende a valer mais do que o que é, e o impacto imediato muitas vezes substitui a reflexão. Uma educação que ignore esse cenário corre o risco de formar sujeitos perfeitamente adaptados à recepção passiva, mas incapazes de resistência crítica.

A guerra em curso entre Estados Unidos, Israel e Irã, que volta a assombrar o mundo com o risco de uma escalada de grandes proporções, evidencia de forma brutal que nenhuma imagem de guerra é inocente. Imagens de guerra nunca são neutras, porque também servem para legitimar intervenções, fabricar consenso e organizar quem aparece como “ameaça” e quem aparece como “salvador”. Ler imagens, nesse caso, é perguntar quem produz a cena, que sofrimento é mostrado ou ocultado, e como o poder transforma destruição em narrativa moral aceitável para a opinião pública.

Como lembra Susan Sontag, retomando Virginia Woolf em Diante da Dor dos Outros, a guerra é um jogo masculino, e por isso suas imagens também carregam a assinatura de um poder que decide quais corpos serão expostos, quais dores serão ocultadas e quais violências poderão parecer legítimas.

Ler imagens de guerra, então, é romper esse roteiro visual, é desconfiar do enquadramento, recusar o espetáculo da destruição e perceber que toda cena de ruína, fogo ou ataque “cirúrgico” tenta ensinar à opinião pública quem deve ser temido, quem pode ser sacrificado e quem será absolvido como salvador.

No fundo, voltamos a um enigma antigo. Diante das portas de Tebas, a esfinge lançava sua ameaça, decifra-me ou te devoro. A advertência permanece surpreendentemente atual. Também nós estamos diante de uma cultura que precisa ser decifrada. Se não aprendermos a lê-la criticamente, se não ensinarmos nossas crianças e jovens a interpretar palavras, imagens, discursos e silêncios, seremos devorados por aquilo que já nos cerca. Talvez a Filosofia continue sendo, ainda hoje, essa arte paciente de não se deixar devorar. Ela não oferece atalhos, mas oferece algo mais raro: a coragem de ler o mundo antes que o mundo nos leia apenas como números, consumidores ou sombras passageiras na tela.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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Um Comentário

  1. Excelente texto. De uma importância fundamental na compreensão da nossa sociedade atual. Bom seria que nossos políticos ou os que atuam na educação brasileira, desde a equipe que compõem o mec tivesse voltados para pensar a educação com olhos mas críticos para educação mas político e humanizada. Para só assim sermos uma nação realmente comprometida com o bem comum. gratidão por compartilhar esse fala. abraço

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