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A reorganização do campo político gaúcho – por João Luiz Vargas

“Centro-esquerda em torno de Juliana surge como gesto de recomposição”

No cenário político do Rio Grande do Sul, a recente aproximação entre o PT e o PDT, em torno da pré-candidatura de Juliana Brizola ao governo do Estado, reabre antigas passagens da história trabalhista brasileira. Mais do que uma costura eleitoral, o gesto parece tocar uma memória que insiste em permanecer viva, feita de afinidades interrompidas, de projetos que se reconheceram no horizonte, mas nem sempre conseguiram se encontrar no tempo.

No campo da direita, também se desenha um movimento de recomposição. A aproximação dos Progressistas com a chapa de Luciano Zucco sugere um reencontro de forças que, por anos, caminharam dispersas no tabuleiro gaúcho. Desde os anos 1980, com Jair Soares, não se via uma articulação tão orgânica entre o agronegócio e setores vinculados à pauta militar. Há nesse rearranjo menos improviso e mais desenho, uma reorganização que devolve nitidez às fronteiras ideológicas.

Na centro-esquerda, o movimento ganha contornos quase simbólicos. A lembrança recorrente das tentativas de aproximação entre Lula e Leonel Brizola permanece como uma espécie de machucado da história política brasileira, uma fratura que ainda ecoa quando se fala em unidade, fragmentação e projetos nacionais interrompidos antes de amadurecerem.

É nesse ambiente que a frente formada por partidos da centro-esquerda gaúcha em torno de Juliana Brizola surge como um gesto de recomposição. Num tempo marcado pela polarização e por projetos que se enfrentam em campos opostos, trata-se menos de um arranjo eleitoral e mais de uma tentativa de reorganizar sentidos, de recolocar a política como espaço de convergência possível.

Há ainda um efeito que se projeta para além das siglas. Santa Maria volta a respirar o centro do tabuleiro majoritário, com a pré-candidatura de Paulo Pimenta ao Senado. A região, tantas vezes relegada a coadjuvante, reencontra uma possibilidade de protagonismo nacional, como se a geografia também voltasse a disputar seu lugar na história.

No conjunto, a reaproximação entre petistas e trabalhistas no Rio Grande do Sul parece menos um acerto conjuntural e mais uma tentativa de recompor um campo que sempre existiu em afinidade, mas raramente em unidade. O nome de Brizola, nesse contexto, não é apenas referência, é evocação. Um imaginário político que ainda insiste em atravessar gerações.

(*) João Luiz Vargas, ex-prefeito de São Sepé, ex-deputado, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado). Ele escreve no site às sextas-feiras.

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