Alice e o sistema internacional: quando a lógica falha, o poder fala – por José Renato Ferraz da Silveira
“O que está em jogo não é a verdade, mas a imposição de uma ordem”

Há momentos na história em que o mundo parece abandonar qualquer pretensão de coerência. As regras deixam de ser claras, os discursos tornam-se elásticos e aquilo que ontem era considerado inaceitável passa, subitamente, a ser tolerado – ou até legitimado. Nesses momentos, talvez devêssemos recorrer menos aos manuais tradicionais de política internacional e mais à literatura. Em especial, àquela escrita por Lewis Carroll.
A jornada de Alice, ao cair no buraco do coelho, não é apenas uma fantasia infantil. É, sob uma leitura mais rigorosa, uma poderosa metáfora para o funcionamento do sistema internacional contemporâneo. Um espaço em que a racionalidade não desaparece completamente – mas torna-se insuficiente.
No País das Maravilhas, Alice tenta compreender o ambiente à sua volta utilizando lógica, linguagem e previsibilidade. Fracassa repetidamente. Não porque lhe falte inteligência, mas porque as regras do jogo são mutáveis, arbitrárias e frequentemente contraditórias. O que está em jogo não é a verdade, mas a imposição de uma ordem – ainda que absurda.
No sistema internacional, a estrutura é, como nos lembra a tradição realista, essencialmente anárquica. Não há uma autoridade central capaz de impor regras de forma universal e consistente. Nesse vazio de poder, normas são constantemente reinterpretadas, instrumentalizadas ou simplesmente ignoradas. O resultado é um ambiente em que o comportamento dos atores oscila entre o cálculo estratégico e a improvisação oportunista.
A Rainha de Copas, com seu célebre “cortem-lhe a cabeça”, não governa pela racionalidade, mas pela arbitrariedade. Ainda assim, sua autoridade é reconhecida – não por legitimidade normativa, mas por força e temor. A analogia é incômoda, mas pertinente: quantas vezes, no cenário internacional, decisões são tomadas menos por princípios e mais pela capacidade de impor custos?
O Chapeleiro Maluco, preso a um tempo que não avança, dialoga com um mundo em que negociações se arrastam indefinidamente, enquanto crises se intensificam. Já o Gato de Cheshire nos oferece talvez a lição mais sofisticada: “Se você não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve”. Em termos estratégicos, trata-se da ausência de grandes projetos, substituídos por respostas reativas e fragmentadas.
Alice, no entanto, não é passiva. Ela questiona, estranha, resiste. E é justamente essa postura que a torna relevante para além da literatura. Em um ambiente marcado pela incerteza e pela manipulação da realidade, a tentativa de compreender – ainda que incompleta – torna-se um ato político.
Talvez o maior ensinamento de Alice no País das Maravilhas não esteja na lógica que falha, mas na persistência diante do absurdo. O sistema internacional contemporâneo, com suas tensões, contradições e rupturas, aproxima-se cada vez mais desse universo instável. Um espaço onde normas existem, mas não garantem previsibilidade; onde instituições operam, mas não asseguram ordem; onde a verdade disputa espaço com narrativas.
No fim, a pergunta não é se estamos vivendo em um País das Maravilhas – mas se estamos preparados para navegar nele.
Porque, como Alice aprende ao longo de sua jornada, compreender o mundo não significa torná-lo lógico. Significa, antes, reconhecer as suas regras – por mais absurdas que elas pareçam – e agir apesar delas.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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