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O possível fim de Orbán e o esgotamento da democracia iliberal – por José Renato Ferraz da Silveira

Hungria: não se trata, portanto, apenas de eleição, mas ‘de um teste histórico’

Por anos, Viktor Orbán foi tratado como um ponto fora da curva – um desvio autoritário tolerado dentro da própria União Europeia. Hoje, talvez estejamos diante de algo mais relevante: não apenas a persistência de seu modelo, mas os sinais concretos de seu esgotamento.

Desde 2010, Orbán construiu o que ele próprio chamou de “democracia iliberal”: um sistema formalmente eleitoral, mas progressivamente esvaziado de seus elementos substantivos. A lógica foi clara e sistemática – controle institucional, pressão sobre a imprensa, reconfiguração do Judiciário e uma engenharia política que transformou maioria eleitoral em hegemonia prolongada.

Esse arranjo, durante anos, funcionou.

Funcionou porque entregou estabilidade, porque dialogou com o medo difuso da globalização e porque ofereceu uma narrativa nacionalista capaz de reorganizar identidades políticas. Funcionou também porque a oposição fragmentada não conseguiu produzir alternativa competitiva.

Mas sistemas políticos não colapsam apenas por oposição externa. Eles se desgastam internamente.

E é exatamente aí que Orbán enfrenta seu ponto mais sensível: os jovens.

Com níveis de aprovação dramaticamente baixos entre eleitores com menos de 30 anos – algo próximo de 8%, segundo levantamentos recentes – o governo passou a operar em modo corretivo. Cortes de impostos, programas de financiamento imobiliário e incentivos econômicos surgem como tentativa de recompor legitimidade onde o discurso ideológico já não alcança.

O problema é estrutural.

A nova geração húngara não se socializou politicamente no caos pós-soviético, mas sim dentro do próprio regime de Orbán. E, paradoxalmente, é essa mesma geração que demonstra menor adesão ao modelo. Para eles, a promessa de ordem já não é suficiente; a restrição de liberdades pesa mais do que a estabilidade oferecida.

Ao mesmo tempo, a pressão externa se mantém constante. A União Europeia há anos acusa o governo húngaro de erosão do Estado de Direito, especialmente no que diz respeito à liberdade de imprensa e à autonomia institucional. O caso húngaro deixou de ser uma anomalia para se tornar um problema estrutural dentro do bloco.

Mas há um ponto crucial que transcende a Hungria.

Orbán não é apenas um líder nacional. Ele se tornou uma referência simbólica para a extrema-direita global – um laboratório político de como capturar instituições democráticas sem romper formalmente com elas.

Se seu modelo fracassa eleitoralmente, o impacto não será apenas doméstico. Será interpretado como sinal de limite para esse tipo de engenharia política.

Não se trata, portanto, apenas de uma eleição.

Trata-se de um teste histórico: até onde a “democracia iliberal” pode ir antes de encontrar seu ponto de ruptura?

Se Orbán perder, não será apenas a derrota de um governo. Será a evidência de que regimes híbridos, por mais resilientes que pareçam, carregam dentro de si uma contradição fundamental: precisam do voto, mas corroem as condições que legitimam o próprio ato de votar.

E, mais cedo ou mais tarde, essa tensão cobra seu preço.

A Hungria pode estar prestes a mostrar exatamente quando isso acontece.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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