Por uma estatal de pesquisa em educação- por Amarildo Luiz Trevisan
Sim, precisamos de uma "Edubrás" ou uma "Embrapa do Conhecimento"

Qual será a estatal capaz de, finalmente, abraçar a escola brasileira e enfrentar seus déficits históricos com a mesma voracidade com que exploramos o pré-sal ou revolucionamos o campo?
Recentemente, os números do Indicador Criança Alfabetizada trouxeram um alento: o Brasil atingiu 66% de alfabetização na idade certa em 2025, superando a meta de 64% do MEC. É um avanço em relação aos 59,2% de 2024, com mais de cem municípios atingindo a marca simbólica de 100%. Contudo, o Rio Grande do Sul ainda caminha a passos lentos: com 52% de crianças alfabetizadas, o estado ainda tenta se reerguer do trauma das enchentes de 2024, mas permanece distante da meta de 64% e da média nacional.
A pergunta que fica, entretanto, é se temos o que comemorar. No recorte nacional, de cada 100 crianças que atravessam a pré-escola e os dois primeiros anos do Ensino Fundamental – três anos de convivência escolar -, 36 ainda são deixadas para trás. No Rio Grande do Sul, o cenário é quase de um “cara ou coroa”: praticamente metade da população infantil (48%) falha em dominar o código escrito na idade certa.
Para entender por que estagnamos no “quase”, precisamos olhar para os nossos sucessos em outras áreas. Entre 1935 e 1941, Monteiro Lobato foi alvo de charges e chacotas ao pregar que o Brasil era rico em petróleo. Em 1953, o Estado respondeu com a criação da Petrobras. Hoje, o Brasil é uma potência na prospecção de petróleo, praticamente autossuficiente, e, se o combustível ainda pesa no bolso, isso decorre muito mais de decisões políticas que desmontaram refinarias do que de qualquer incapacidade técnica.

O mesmo fenômeno ocorreu no solo. Em 1973, nasceu a Embrapa. Antes dela, o cerrado era considerado terra infértil; depois dela e da rede de Organizações Estaduais de Pesquisa Agropecuária (OEPAs), o Brasil explodiu em produtividade. O agronegócio tornou-se nossa locomotiva econômica porque houve um investimento estatal massivo, sistêmico e continuado em pesquisa e tecnologia.
Na educação, tentamos um atalho. Em 2007, a Capes passou a olhar para a educação básica. Mas a Capes já carrega o piano de toda a pós-graduação nacional; é um transatlântico tentando manobrar em um rio estreito. O resultado? Quase duas décadas depois, o progresso é lento e a precarização galopante. Os dados recentes revelam apenas a ponta de um problema mais fundo. A precarização da educação básica tornou-se estrutural. O dado de 2025 revela que, pela primeira vez, o número de professores temporários nas redes estaduais superou o de concursados (50,04% contra 49,96%). A contratação massiva de professores temporários, em substituição a profissionais concursados, corrói a continuidade pedagógica, fragiliza vínculos institucionais, aprofunda a insegurança jurídica e compromete a qualidade do ensino. Não se constrói uma escola sólida com vínculos frágeis, nem se consolida um projeto nacional de educação sobre bases provisórias.
Enquanto isso, o Inep – idealizado por Anísio Teixeira para ser o cérebro da nossa inteligência educacional – foi reduzido a uma mega-agência de aplicação de exames. O Inep mede a febre, a Capes sugere o remédio, mas quem está no laboratório criando a cura sistêmica?
Os países que lideram o PISA – Cingapura, Finlândia, Coreia do Sul – não tratam a educação como um “serviço temporário”. Lá, a formação docente exige mestrado, seletividade rigorosa e, acima de tudo, um ecossistema de pesquisa que ampara a prática em sala de aula.
Está na hora de pais e educadores exigirem mais do que metas modestas em anos eleitorais. Precisamos de uma estatal – uma “Edubrás” ou uma “Embrapa do Conhecimento” – dedicada exclusivamente a pesquisar os gargalos da sala de aula e propor soluções estruturais. Não podemos mais aceitar que, enquanto Lobato sofria para encontrar o “ouro negro”, o professor moderno sofra a mesma cruzada de incompreensão e precarização.

Não se trata aqui de ignorar contradições, impactos ambientais ou dilemas desse modelo, mas de reconhecer um fato elementar: quando o Estado decide pesquisar seriamente um setor estratégico e construir inteligência institucional para ele, os resultados aparecem.
Talvez já tenha passado da hora de pensarmos numa espécie de Embrapa da alfabetização, numa Petrobras da escola pública, numa instituição forte o bastante para pesquisar os problemas reais da educação básica e propor soluções duradouras, em vez de apenas fotografar o fracasso a cada ano.
Seria bonito, inclusive, ver uma campanha nacional em defesa disso. Pais, professores, gestores, comunidades, todos dizendo em voz alta que não basta contar quantas crianças aprenderam, é preciso perguntar por que tantas ainda não aprenderam.
Mas talvez a estatal de pesquisa em educação que o Brasil nunca criou já exista há muito tempo. Só que ela atende pelo nome de professor/a. E trabalha sem laboratório, sem orçamento e, quase sempre, sem aplauso.
Em resumo, a educação brasileira não precisa de mais um índice de avaliação. Precisa, isto sim, de uma instituição que trate nossas crianças e nossos jovens com a mesma seriedade estratégica dedicada ao petróleo e à soja. É hora de prospectar o potencial humano com o mesmo rigor com que furamos o oceano e transformamos o cerrado em fronteira agrícola.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera II. Brasil tem mais de 70 programas de pós-graduação strictu sensu em educação. Bolsas do CNPq inclusive, que ficou fora da conta. Fazem o que? Pesquisam a morte da bezerra ou estão mais preocupados com a pregação doutrinaria via teses inuteis? Brasil precisa importar especialistas em educação de verdade. Trazer missões da Europa como no pos-guerra. Porque os ‘especialistas’ tupiniquins não sabem absolutamente nada.
Resumo da opera. Canoas tem uma Fundação Municipal da Saúde. E uma secretaria da saúde. Como esta a saude no municipio? Na base do que a casa tem para oferecer. Desova em POA.
‘Está na hora de pais e educadores exigirem mais do que metas modestas em anos eleitorais. Precisamos de uma estatal – uma “Edubrás” ou uma “Embrapa do Conhecimento” – dedicada exclusivamente a pesquisar os gargalos da sala de aula e propor soluções estruturais.’ Ou seja, centralizar, criar uma repartição publica, aumentar os cabides. Que como todo setor tocado pelo governo vai entregar pouco mais que nada.
‘Enquanto isso, o Inep – idealizado por Anísio Teixeira para ser o cérebro da nossa inteligência educacional – foi reduzido a uma mega-agência de aplicação de exames.’ Na gestão de Fernando Taxad; Bom lembrar.