Santa Maria: cidade misógina? – por Leonardo da Rocha Botega
Dois episódios recentes na cidade sugerem que a resposta seja sim. Mas...

O início do ano de 2026 tem sido marcado por uma verdadeira “epidemia” de feminicídios no Rio Grande do Sul. Até metade de abril foram registrados 27 assassinatos de mulheres no estado, um crescimento de 68,75% em relação ao mesmo período em 2025. Um quadro que fica ainda mais assustador quando verificamos que até março o estado registrava cerca de 12 mil medidas protetivas de urgência ativadas.
Apesar de nenhum dos 27 casos de feminicídios terem ocorrido em Santa Maria, a cidade possui alguns dados que servem de alerta. Até 10 de março, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) havia registrado 235 ocorrências, sendo concedidas 86 medidas protetivas. O que demonstra que a aparente “tranquilidade” gerada pela não ocorrência de feminicídios na cidade não passa de uma mera aparência.
Nesse início de ano, Santa Maria virou “destaque nacional” a partir de dois eventos que contrastam ainda mais essa aparência. Em sessão plenária realizada no dia 7 de abril, a Câmara de Vereadores da cidade decidiu, por 13 votos contra 7, arquivar a denúncia registrada contra o vereador Tony Oliveira (Podemos) por violência de gênero contra a vereadora Helen Cabral (PT).
Apesar das imagens terem mostrado o vereador movendo-se de forma brusca em direção a vereadora e sendo contido por seguranças, assessores e outros vereadores, isso não foi suficiente para os treze vereadores, todos homens, que talvez acreditem que violência de gênero ocorre apenas com o fato consumado. Ou será que votaram relativizando a vítima por questão ideológica? Se sim, quanta pequenez política!
O segundo evento que ganhou “destaque nacional” foi a utilização por parte da Prefeitura Municipal de um questionário de contratação de professoras(es) que perguntava se as professoras estavam grávidas, quantos partos haviam feito, a data de última menstruação, se tinham tensão pré-menstrual, se tomam anticoncepcional, quantas gestações tiveram, quando foram ao ginecologista pela última vez e se já haviam feito aborto.
Apesar de todas essas perguntas não terem a menor relação com a capacidade de exercício da profissão docente e da não ocorrência no questionário de nenhuma pergunta com esse nível invasivo para os professores homens, o procurador-geral do município tentou normalizar a situação afirmando, em entrevista a uma rádio da cidade, que “em Santa Maria, infelizmente, tudo vira polêmica”.
Além dessa declaração, o procurador-geral também naturalizou as perguntas indicando que o formulário segue “normas técnicas” e tem por objetivo “proteger a saúde das servidoras”. Na ocasião, chegou a falar que estava “explicando para essas mulheres”. Um caso típico do que Rebecca Solnit conceituou como mansplaining, ou seja, quando um homem tenta explicar para uma mulher coisas que ela sabe.
Como escrevi acima, nenhuma das situações perguntadas impede o exercício da docência, portanto, não se sabe ao certo que “técnicas” definem essas normas. Talvez seja a reprodução de uma cultura dominante de controle sobre o corpo das mulheres. Para uma gestão que se define como “moderna”, nada mais arcaico. Assim como também é arcaico o voto dos vereadores da base do governo no episódio da Câmara de Vereadores.
Os dois episódios que relatei abrem brecha para questionarmos se Santa Maria seria uma cidade misógina. A resposta para essa pergunta exige uma pesquisa mais aprofundada e de maior densidade e rigor que não se limita a esse texto. Ao mesmo tempo, a cidade não se restringe aos seus governantes e a maioria dos vereadores. A cidade somos todos nós que vivemos nela.
Apesar dos limites para responder essa pergunta, uma questão é inegável: não basta a criação de uma Coordenadoria da Mulher, nem tampouco a inauguração de bancos vermelhos pela cidade. Por mais louvável que sejam essas medidas, a negação da misoginia exige rupturas com práticas misóginas e o entendimento de que violências simbólicas também são violências. Afinal, são essas violências que naturalizam as outras.
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).





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