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“Setembro 5” e os conflitos no Oriente Médio – por Roselâine Casanova Corrêa 

Sobre “o maior atentado da história dos eventos esportivos”. Mas não apenas

O chamado “Massacre de Munique” foi um ataque terrorista nas Olimpíadas de 1972, na Alemanha. Tratava-se do sequestro de onze atletas e treinadores israelenses pela organização palestina “Setembro Negro”. Teve início na madrugada do dia 4 e se desenrolou ao longo do dia 5 de setembro, em Munique. É considerado, até hoje, o maior atentado da história dos eventos esportivos, que exigia a libertação de prisioneiros palestinos em Israel. 

“Setembro 5” (2024) chegou à Netflix em dezembro/2025. Sob a direção do produtor e roteirista suíço, Tim Fehlbaum, tem no elenco Peter Sarsgaard (Roone Arledge), John Magado (Geoffrey Mason), Bem Chaplin (Marvin Bader) e Leonie Benesch (Marianne Gebhardt). Desde o início essa trama é controversa, em que algumas críticas a veem como um mecanismo pró-Israel, outras frisam o interesse em denunciar as ações da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), sob a liderança de Yasser Arafat. E há outra linha de entendimento que a vê como um fato histórico explorado à exaustão pela mídia à época, reproduzido no longa por meio de cenas rápidas e tensas, de forma muito competente. Não à toa, o roteiro foi indicado ao Oscar/2025.   

O fato é que o sequestro dos israelenses em Munique, na Alemanha Ocidental – durante a Guerra Fria (1947-1991) – é um divisor de águas na cobertura midiática. O protagonista do longa, John Magaro, afirmou que o fatídico 5 de setembro “mudou a mídia para sempre. Foi a primeira vez que um evento horrível como esse foi compartilhado globalmente via satélite na TV ao vivo e foi inovador na época”.

O caso foi originalmente transmitido pela equipe de jornalismo esportivo do canal americano ABC, que se adaptou para cobrir o sequestro em tempo real. E aproveitou-se com êxito na empreitada em mostrar ao mundo o que ocorria na Vila Olímpica de Munique, que contava com uma segurança precária, o que facilitou a entrada dos sequestradores nas dependências em que estavam os atletas israelenses.

Estima-se que em torno de 900 milhões de pessoas assistiram as cenas ao vivo. Mais de 4 mil jornalistas cobriam o evento e procuravam entender as informações desencontradas nos diversos meios de comunicação locais. As competições foram inicialmente paralisadas, as negociações não evoluíam e a mídia, inclusive, atrapalhou as já divergentes estratégias da polícia, como bem aponta o filme. Posteriormente, os esquemas de segurança foram aprimorados, com reflexos nos Jogos Olímpicos de Montreal (Canadá/1976). Isso não impediu o ataque a bomba nas Olimpíadas nos EUA/1996. Contudo, somente nas Olimpíadas do Rio/2016, houve um reconhecimento oficial em memória das vítimas de 1972.

Há filmes, documentários, fotografias e relatos diversos acerca do ocorrido. Porém, “Setembro 5” enfoca exclusivamente os bastidores, nas dependências em que estava a equipe do canal ABC de notícias. E esses bastidores eram quase tão tensos quanto o sequestro em si. Nem sempre os jornalistas concordavam com as tomadas de decisão de seus superiores, não raro perdiam os sinais de transmissão, mas conseguiram mostrar ao mundo uma das cenas mais conhecidas do caso: o sequestrador encapuzado, em uma janela, na Vila Olímpica.

As cenas do longa recriam a estética dos anos de 1970, com uma fotografia saturada, não raro, granulada.

Quando estreou no Brasil (janeiro/2025), o longa teve significativa repercussão, com exibições especiais e debates sobre o tema. Isso, provavelmente, em razão do conflito em Gaza ter se intensificado a partir de 2023. O ano de 1972 ainda não acabou no Oriente Médio!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve sobre cinema, às quintas-feiras, nesse site.

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