As belezas de Natal não são só fenômenos da natureza – por Amarildo Luiz Trevisan
“Há belezas que se veem de imediato e outras que exigem demora”

A cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte, exerce um fascínio imediato sobre os turistas. Quase todos com quem converso por aqui dizem que vieram conhecer os seus fenômenos naturais. Alguns chegam atraídos pelo maior Cajueiro do Mundo, localizado em Pirangi, na região metropolitana. Trata-se de um fenômeno genético raro: seus galhos crescem para os lados e, ao tocar o solo, criam novas raízes, espalhando-se por uma área de cerca de 8.500 m². Outros vêm movidos pela curiosidade de ver o Morro do Careca, maior símbolo da cidade, um fenômeno geológico em plena Praia de Ponta Negra. A duna, imponente, com aproximadamente 107 a 120 metros de altura, cercada por vegetação de Mata Atlântica, parece vigiar o mar e a cidade ao mesmo tempo.
Natal também se oferece ao visitante pelo sol. São mais de 300 dias de luminosidade por ano, como se a cidade tivesse feito um pacto antigo com a claridade. Some-se a isso a fama de possuir um dos ares mais puros do mundo, favorecido pelas brisas constantes do Atlântico e pela baixa industrialização. Há ainda as dunas de Genipabu, esses relevos vivos, sempre redesenhados pelos ventos, onde foram gravadas cenas da novela O Clone, da Rede Globo. Ali, a paisagem não fica parada. Move-se, muda de forma, brinca com o olhar de quem pensa que a natureza é apenas cenário.
No entanto, há turistas, inclusive vindos de fora do Brasil, que chegam a Natal por outro motivo, menos divulgado nos roteiros tradicionais: vêm conhecer os seus fenômenos humanos. Porque Natal não é fértil apenas em sol, mar, cajueiros e dunas. É também solo de mentes brilhantes, de personagens que marcaram o folclore, a educação, a política e a cultura brasileira. São presenças que continuam a habitar a cidade, não como estátuas frias, mas como vozes que ainda conversam conosco.
Entre esses pilares culturais e intelectuais está Luís da Câmara Cascudo. O Ludovicus, Instituto Câmara Cascudo, guarda a casa onde viveu o maior folclorista do Brasil. Foi em Natal que Cascudo produziu grande parte de sua obra, por mais de quarenta anos. Ali estão preservados sua biblioteca pessoal, seus móveis, seus manuscritos e um pouco da atmosfera em que recebia intelectuais de várias partes do mundo. Já o Memorial Câmara Cascudo, localizado na Cidade Alta, em um prédio neoclássico de 1875, apresenta a cronologia de sua vida e de suas pesquisas sobre as raízes do povo brasileiro.
Outro fenômeno humano é Nísia Floresta, pioneira do feminismo e da educação no Brasil. Sua memória é preservada no Museu Nísia Floresta, no município vizinho que leva seu nome, a cerca de 30 quilômetros de Natal. O museu funciona em um casarão do século XIX e abriga o túmulo com os restos mortais da escritora, trazidos da França. É como se, depois de circular pelo mundo, Nísia tivesse retornado ao seu chão de origem para continuar ensinando que a educação também é uma forma de liberdade.
Há ainda Café Filho, único potiguar a ocupar a Presidência da República. O Museu Casa Café Filho, conhecido como “Sobradinho” ou “Véu de Noiva”, por causa de seu telhado singular, conserva objetos pessoais, documentos e a biblioteca do ex-presidente. O edifício, que foi o primeiro sobrado particular de Natal, também conta uma parte da história política do país a partir de uma esquina potiguar.
No campo da cultura popular, destaca-se Djalma Maranhão. Embora tenha sido um político influente, sua memória permanece ligada ao Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, espaço que reúne um vasto acervo de arte popular, brinquedos e tradições como o Boi de Reis e o Pastoril. Ali, a cultura não aparece como relíquia, mas como gesto vivo, como dança, canto, invenção e resistência.
E ganha destaque especial, nesse contexto, a amizade entre Câmara Cascudo e Mário de Andrade, o modernista. A correspondência entre os dois durou mais de uma década e é considerada um dos grandes tesouros literários do país. Trocaram cerca de 180 cartas entre 1924 e 1944. Em certo momento, Cascudo teria provocado Mário sobre a fama de preguiçoso atribuída ao brasileiro, tema que atravessa Macunaíma. Mário, em uma de suas cartas ou conversas, segundo versões que circulam, teria respondido algo que parece traduzir o próprio espírito de Natal: “Cascudo, o problema não é a preguiça, é que o sol daqui é um convite para a imobilidade contemplativa. Vocês não são lentos, vocês são sábios.”
Talvez seja isso. Natal ensina que há belezas que se veem de imediato e outras que exigem demora. O turista apressado fotografa o cajueiro, o Morro do Careca, as dunas, o mar e o pôr do sol. Mas quem permanece um pouco mais descobre que a cidade também é feita de memória, pensamento, educação, folclore, política e cultura popular. Descobre que seus maiores fenômenos não estão apenas na natureza. Estão também nas pessoas que aqui viveram, pensaram, escreveram, lutaram e deixaram marcas no modo brasileiro de compreender a si mesmo.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Desculpa de alguns santamarienses é que não tem estrada duplicada e nem aeroporto com voos regulares. Quem tem grana e possibilidade de escolher faria turismo na Aldeia ou em Natal?