O caso Epstein não foi apenas sobre sexo – por Amarildo Luiz Trevisan
“Consumido com (...) sucessão de detalhes obscenos que distrai do essencial”

A cobertura do caso Epstein costuma seguir um roteiro previsível. Mansões, aviões, festas, meninas aliciadas, relatos sórdidos, nomes famosos. A imprensa abre a vitrine do horror e o público, entre chocado e curioso, espia como quem acompanha mais um capítulo da novela da decadência dos ricos. Tudo isso é grave. Tudo isso é monstruoso. Mas tudo isso, sozinho, talvez não explique o enigma principal.
A pergunta que permanece de pé é outra. O que fazia um homem como Epstein atrair tanta gente poderosa? Por que bilionários, financistas, celebridades, príncipes e figurões da política orbitavam em torno dele com tamanha naturalidade? Seria ingenuidade supor que tudo se resumia à libertinagem. Se tantos o procuravam, é porque ele vendia algo mais raro do que prazer. Vendia acesso a uma fantasia.
O sexo, nesse caso, parece ter sido apenas a porta de entrada. O salão principal era outro. Ali circulavam as fantasias mais antigas e mais perigosas das elites, o desejo de vencer a decadência, prolongar a vida, aperfeiçoar a espécie, brincar de demiurgo com o corpo alheio e com o futuro da humanidade.
Segundo relatos publicados por grandes jornais, Epstein alimentava ideias eugenistas e delirava com a possibilidade de disseminar o próprio DNA, como se o mundo precisasse de mais dele. Não há evidência de que isso tenha passado do campo da obsessão e da conversa privada. Mas o simples fato de tais ideias encontrarem eco entre gente tão influente já é revelador.
Em outras palavras, Epstein não era apenas um agenciador; ele era um mercador de distopias. Enquanto as câmeras focavam no tráfico sexual, nos bastidores ele vendia o “transumanismo” e a eugenia disfarçada de filantropia científica. O seu rancho no Novo México não era apenas um refúgio de excessos, mas o laboratório de um delírio que ecoa os anos mais sombrios do século XX: a criação de uma super-raça.
É aí que o caso muda de figura. Deixa de ser apenas um escândalo sexual e se transforma em sintoma de época. O que aparece ali é a velha tentação da eugenia, agora perfumada pela linguagem da inovação. Sai o racismo científico de uniforme. Entra o entusiasmo elegante com genética, inteligência artificial, longevidade, transumanismo e aprimoramento humano. O que antes se dizia com brutalidade, agora se cochicha em jantares finos, entre filantropos, investidores e cientistas cortejados pelo capital.
Epstein parecia compreender isso com clareza dantesca. Não oferecia somente festas. Oferecia pertencimento. Não entregava apenas privilégios. Distribuía a sensação de que seus convidados estavam sentados na antessala do futuro. Um futuro reservado aos escolhidos, aos que teriam dinheiro suficiente para não apenas comprar conforto, mas interferir na própria definição do humano. Era um corretor de vaidades imperiais, um atravessador de delírios de grandeza, um anfitrião da fantasia contemporânea de eternidade.
Por isso a cobertura superficial da mídia decepciona. Não porque o sexo deva ser minimizado, de modo algum, mas porque a exploração permanente do aspecto escandaloso transforma a tragédia em mercadoria visual. O público recebe sordidez em doses industriais, como se informação fosse a mesma coisa que excitação. E assim o caso é consumido como um pornô moral de baixa qualidade, uma sucessão de detalhes obscenos que distrai do essencial.
O essencial é que o caso Epstein expõe mais do que o apetite criminoso de um predador. Expõe uma civilização doente. Uma ordem social em que parte da elite já não quer apenas governar mercados, influenciar eleições ou interferir em pesquisas das universidades. Quer moldar a vida. Quer comprar juventude, silenciar vítimas, cercar a ciência, administrar corpos e sonhar com a própria continuação biológica ou simbólica, como se a fortuna fosse uma licença para reescrever a espécie.
Epstein queria inseminar dezenas de mulheres simultaneamente, espalhando o seu DNA como se fosse um código genético sagrado para o futuro da espécie. Ele atraía a elite com a promessa da biopolítica — o controle total sobre a vida, o envelhecimento e a evolução. Oferecia aos poderosos o que o dinheiro comum não compra: a mutação da própria humanidade e a ilusão da imortalidade por meio da engenharia genética e da inteligência artificial.
A manipulação da mídia tradicional, ao reduzir o caso a um escândalo sexual de “baixa categoria”, presta um desserviço à verdade. Ao focar no “ibope” do fuxico, esconde a rede de influência que utilizava a ciência de fronteira como isca para uma nova forma de fascismo intelectual.
O caso Epstein não foi apenas sobre sexo. Foi sobre o desejo narcísico de homens que, já donos do mundo, decidiram que queriam ser donos do tempo e da biologia. O escândalo sexual foi a cortina de fumaça; o verdadeiro crime foi a tentativa de transformar a raça humana num projeto de design particular. No fim, a maior perversão de Epstein não estava no que ele fazia entre quatro paredes, mas no que ele pretendia fazer com o futuro de todos nós.
Portanto, o que unia aqueles mundos tão distintos talvez não fosse apenas a promiscuidade do poder. Talvez fosse algo ainda mais profundo e mais sombrio, a crença silenciosa de que a eternidade pode ser comprada. Quando uma elite começa a imaginar isso com naturalidade, o escândalo já não é só policial. É histórico. É civilizacional.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera II. Epstein com elevada probabilidade matematica não era e nunca foi o unico. Nem P. Diddy. Muito menos Jeany Mary Corner, 2005, escandalo do Mensalão. Alas, congresso de prefeitos, vereadores e outros representantes da classe politica ‘gira’ o mercado. Alas, iniciativa privada, congresso de vendas, representantes comerciais, grandes feiras.
Resumo da opera. Esquema das sanguessugas 2006, quadrilha teria financiado profissionais para congressistas. Jean Willis 2013, segundo ele 60% dos homens do Congresso utilizava serviços especializados. Caso JBS 2017, idem.
Epstein. Trafico de influencia. Kompromat. Parte ‘ideologica’ é o que menos importa. Obviamente os Vermelhos não iriam perder a oportunidade de vincular ‘nazismo’ e ‘luta de classes’. Infantil, mas ovelhas não voam.
Donde se chega no ‘onde gente com muita grana (inclusive publica) comete suas libertinagens e seus pecados’. Existe demanda, haverá oferta.
Em 2021 ocorreram mais de 600 pessoas atingiram o pico do Everest. Em 2025 foram quase 850. Por baixo 70 mil dolares por cabeça só para subir. Não engloba preparação, passagens e outras coisas. Se os guias forem locais, se for comprado o pacote luxo só a subida vai para uns 300 mil dolares.
Mercados mundiais. Mercado de itens de luxo, bens fisicos (bolsas, malas, relogios, etc.), anda encolhendo. Aumento de preços depois da pandemia também ajudou. Cresceu a busca por ‘experiencias’ exclusivas, lugares exoticos, coisas do genero. Quem gosta de ‘ostentar’ é ‘nouveau riche’.
Vamos pressupor que o autor tinha intenção de bancar o ‘esperto’. Vorcaro, caso Master, bancou hotéis de luxo, jatinhos e modelos (inclusive russas e ucranianas!) para gente bastante importante. Mais um motivo para a coisa virar pizza.
Não temos problemas suficientes no Brasil, vamos gastar tempo resolvendo o dos ianques. A 10 mil quilometros de distancia.