Servidores públicos: entre o preconceito e a realidade – por Marionaldo Ferreira

Minha trajetória como profissional do serviço público me dá a responsabilidade — e também a legitimidade — de tratar desse tema com franqueza.
Durante muitos anos, ouvi e senti o peso de um discurso recorrente em diferentes setores da sociedade: a ideia de que o serviço público é sinônimo de ineficiência, de acomodação, de falta de compromisso. Não foram poucas as vezes em que servidores foram rotulados de forma simplista e injusta, como se não houvesse dedicação, preparo e entrega naquilo que fazem diariamente.
Essa narrativa, além de equivocada, ignora a complexidade do papel que o serviço público desempenha.
Lembro, com frequência, da postura firme de Leonel Brizola, que sempre defendeu uma relação respeitosa e estratégica com os servidores. Brizola compreendia algo essencial: o servidor público não pertence a governos, partidos ou ideologias. Ele pertence à sociedade.
Somos, na prática, o elo entre as políticas públicas — formuladas nos programas de governo — e a vida concreta das pessoas. É o servidor que transforma decisões em ações, projetos em resultados, intenções em serviços efetivos.
Essa posição, naturalmente, não é isenta de críticas. E nem deve ser. O serviço público, como qualquer estrutura complexa, precisa ser constantemente aprimorado, cobrado e qualificado.
No entanto, há um ponto que precisa ser enfrentado com clareza: a incoerência presente em certos discursos.
Há quem defenda um “Estado mínimo” de forma quase dogmática, pregando a redução drástica da presença estatal, a privatização irrestrita e a crença de que o mercado, por si só, é capaz de regular todas as dimensões da vida econômica e social. Mas, na prática, muitos desses mesmos defensores não abrem mão de ocupar cargos públicos ou de se beneficiar da estrutura estatal.
Mais do que isso: em momentos de crise — como em quebras de safra, colapsos econômicos ou situações de emergência — são justamente esses setores que recorrem ao Estado, exigindo intervenção, apoio e financiamento.
A contradição não para por aí. Há também aqueles que desacreditam o processo político e eleitoral, questionando sua legitimidade, mas participam ativamente dele como candidatos ou apoiadores, quando lhes é conveniente.
Esse cenário revela menos uma crítica consistente ao Estado e mais uma disputa seletiva sobre quando e para quem ele deve funcionar.
Diante disso, é fundamental reafirmar: o serviço público não é um problema em si. Ele é parte da solução.
Valorizar o servidor público não significa ignorar falhas ou evitar reformas. Significa reconhecer que nenhuma política pública se concretiza sem pessoas comprometidas em executá-la. Significa entender que saúde, educação, segurança, infraestrutura e desenvolvimento passam, necessariamente, pelo trabalho cotidiano de milhares de profissionais que sustentam o funcionamento do Estado.
O debate sobre o tamanho e o papel do Estado é legítimo e necessário. Mas ele precisa ser feito com honestidade intelectual, coerência e respeito.
Porque, no fim, é o servidor público que garante que o Estado — maior ou menor — cumpra sua função essencial: servir à sociedade.
(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.





Resumo da opera II. Universidade de Oxford tem o indice Blavatnik de administração publica. Singapura ocupa o primeiro lugar geral (indice 0,85). Quinto lugar em estrategia e liderança. Primeiro lugar em politicas publicas e ‘entrega nacional’. Quarto lugar em processos e pessoas. Brasil esta em 32º lugar (indice 0,64, empata com Colombia, perde para Chile e Uruguai). Liderança e estrategia 33º lugar. Politicas publicas e ‘entrega nacional’ 36º lugar. Pessoas e processos 28º lugar. O Chile esta em 7º lugar em pessoas e processos. O Uruguai em 10º. Melhor que a Suecia. Melhor do que Portugal. !!!
Resumo da opera II. Universidade de Oxford tem o indice Blavatnik de administração publica. Singapura ocupa o primeiro lugar geral (indice 0,85). Quinto lugar em estrategia e liderança. Primeiro lugar em politicas publicas e ‘entrega nacional’. Quarto lugar em processos e pessoas. Brasil esta em 32º lugar (indice 0,64, empata com Colombia, perde para Chile e Uruguai). Liderança e estrategia 33º lugar. Politicas publicas e ‘entrega nacional’ 36º lugar. Pessoas e processos 28º lugar. O Chile esta em 7º lugar em pessoas e processos. O Uruguai em 10º. Melhor que a Suecia. Melhor do que Portugal.
Resumo da opera. Como sempre o truquezinho é ‘debater’ sem argumentos e com desqualificações. O ‘Estado’ e o ‘servidor publico’ são entidades etéreas flutuando no ar. Afasta-se da realidade, usa-se só o qualitativo, reduz-se tudo a ‘retórica’.
‘[…] é o servidor público que garante que o Estado — maior ou menor — cumpra sua função essencial: servir à sociedade.’ Na base do ‘é o que tem para hoje’.
‘Mas ele precisa ser feito com honestidade intelectual, […]’. E argumentos, e dados. sem desqualificações.
‘[… milhares de profissionais que sustentam o funcionamento do Estado.’ Funcionamento meia boca.
‘[…] mais uma disputa seletiva sobre quando e para quem ele deve funcionar.’ O problema é que não funciona direito. Alas, existe uma fabrica estatal de camisinhas no Acre, a Natex. Fornece para o ministerio da saúde. Não precisa dizer que gera prejuizos ao erario. Seria mais barato e mais ecologico pagar um salario para os seringueiros.
‘Há também aqueles que desacreditam o processo político e eleitoral, questionando sua legitimidade, mas participam ativamente dele como candidatos ou apoiadores,[…]’. Isto não tem nada a ver com tamanho do Estado ou ineficiencia dos servidores.
‘[…] são justamente esses setores que recorrem ao Estado, exigindo intervenção, apoio e financiamento.’ Sim, pagam um absurdo de tributos. Algo como 34% de tudo que é produzido no pais. Alas, além de plano de saude, escola particular e segurança privada ainda teria que existir entidade privada para ajudar em emergencias? Pode até não ajudar na quebra de safra, mas o agronegócio é 25% do PIB. No outro ano vão cobrar tributos de quem? Colapso economico? Se acabar o sistema financeiro o pais para.
‘Mas, na prática, muitos desses mesmos defensores não abrem mão de ocupar cargos públicos ou de se beneficiar da estrutura estatal.’ De novo a falta de argumentos. a desqualificação. Liberdade de opinião é direito fundamental. É possivel, sem nenhum problema, defender Estado enxuto e trabalhar nele. Não é hipocrisia. ‘Beneficiar da estrutura’ como se no Brasil fosse possivel fazer alguma coisa sem dar de frente com o Estado. Alas, pressupõe que toda ação estatal é ‘benéfica’, não atrapalharia nada, não sugasse recursos, não cobrasse uma enormidade de tributos.
‘[…] o mercado, por si só, é capaz de regular todas as dimensões da vida econômica e social.’ Outra falacia. Seria praticamente um anarquismo. Partido Novo: ‘Estado enxuto, eficiente e a serviço das pessoas’. PL, a ‘extrema-direita’. ‘A cargo do Estado deve-se deixar somente aquilo que ele pode realizar. Concentrar seus esforços em exercer sua função estabilizadora e com enfoque nas suas principais responsabilidades como saúde, educação, segurança e bem-estar.’
‘Há quem defenda um “Estado mínimo” […]’. Infantil. Esta historia de ‘Estado minimo’ foi um bordão inventado pelos Vermelhos para desqualificar quem critica o Estado inchado e ineficiente. Não é argumento.
‘ É o servidor que transforma decisões em ações, projetos em resultados, intenções em serviços efetivos.’ Exceções existem. Mas a saúde, educação e segurança são o que a casa tem para oferecer. Alas, vide o PISA. Se o Brasil caiu no ranking é porque a educação já foi melhor. Não foi falta de investimento, este aumentou. A responsabilidade dos servidores é zero? Ou de cada 100 reais que saem de BSB chegam 50 centavos aqui na ponta?
‘[…] postura firme de Leonel Brizola […]’. Morto há quase 22 anos. Naquela epoca a substituição de servidores por IA não era possibilidade. Alas, no serviço publico dizem que vão colocar a IA a funcionar num PC XT rodando um sistema operacional super avançado, Windows 1.0.
‘[…] como se não houvesse dedicação, preparo e entrega naquilo que fazem diariamente.’ Existe o aspecto cultural. ‘O certo paga pelo errado’ serve para todo mundo, inclusive na burocracia estatal.
‘[…] a ideia de que o serviço público é sinônimo de ineficiência, de acomodação, de falta de compromisso.’ Não saiu do nada. Não é ‘injuria’. Ja vi inumeros casos em outras cidades e outros estados. Surge nos lugares onde existe atendimento ao publico. Filas que não andam. Bate-papo. Diferente de SM em outros lugares a maioria dos habitantes não trabalham no comercio ou são servidores também. Na iniciativa privada o ‘corre’ é mais rapido, quem não ‘entrega’ é ‘encaminhado para outras oportunidades’. Alas, a frase ‘enquanto aquele lá atendeu um eu tinha atendido três’ é pronunciada diariamente Brasil afora.
‘Minha trajetória como profissional do serviço público me dá […] a legitimidade […]’. Obvio que não. Primeiro é o ponto de vista corporativista. Segundo, ‘servidores publicos’ é muita gente. Como uma visão pessoal vai refletir a realidade de Chuí no RS ou Tabatinga no Amazonas?