Condessa de Beauharnais – por Elen Biguelini
Poeta e filósofa e um salão literário que recebia Rousseau, entre outros ilustres

A poeta, filósofa e política francesa Fanny de Beauharnais, nascida Marie-Anne-Françoise Mouchard de Chaban, era filha do escudeiro real e membro de uma rica familia mercante, François-Abraham-Marie Mouchard e de sua esposa Anne-Louise Lazure. A menina nasceu em 4 de outubro de 1737 em Paris.
Sua mãe veio a falecer quando ela tinha apenas dois anos. Seu pai era responsável pelas finanças de diversas regiões francesas, e ela foi então levada para o convento das Visitandinas em Paris, para assim ser educada por freiras.
Isto era uma prática comum para a educação de mulheres de alta escala social durante o período, especialmente na ausência de uma figura feminina que as pudessem educar. Assim, teria recebido uma educação esmerada, e muito superior a de mulheres de outras escalas da sociedade, ainda que sua mãe tivesse sido filha dos cozinheiros pessoais do rei Louis XV e seu pai não tivesse títulos.
Aos 15 anos, no dia primeiro de março de 1753, casou-se com o conde de Beauharnais, Claude-Joseph de Beauharnais (1717-1784) que era 26 anos mais velho que ela. Seu marido e o irmão deste, François de Beuharnais, foram heróis da Guerra dos 7 anos e vastos detentores de terras em colônias francesas. Após o casamento, ela passa a ser conhecida pelo nome que a deixa marcada na história: Condessa de Beauharnais.
Nove anos após o casamento, separou-se amigavelmente do marido. Volta à casa paterna e é neste local que se volta a literatura e a filosofia. Ainda no convento, quando tinha apenas 10 anos, ela havia escrito um poema que fora rechaçado de forma violenta pelas freiras. Mas agora podia dedicar-se à leitura e à publicação. Em 1772 teve seu primeiro texto publicado e continuou a publicar no periódico “Almanach de Muses” (Almanaque das Musas). Iniciou um romance com Claude Joseph Dorat (1737-1780), escritor e poeta, com quem escreveu um livro.
Na casa paterna recebia seus amigos filósofos e amantes. Mas após o falecimento de seu pai teve que retornar ao convento, pois no período não era permitido a uma mulher separada as mesmas liberdades que seriam aceitas de uma viúva. Mas com o falecimento de seu afastado marido, em 1784, pode retornar ao centro da vida social parisiense. Foi então que iniciou seu celebre salão literário em seu apartamento no hotel d´Entragues durante as sextas feiras.
Este salão não tinha o mesmo prestígio daquele de senhoras de escalões mais altos da sociedade, que são hoje sinônimo de salões literários oitocentistas, no entanto, em sua casa se encontravam mentes pensantes e livres como: Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), a celebre autora feminista dos Direitos das mulheres, Olympe de Gouges (1748-1791), a também escritora e dramaturga feminista Anne-Marie du Boccage (1710-1802) o escritor romancista e dramaturgo Louis-Sébastien Mercier (1740-1814) e o também dramaturgo Louis de Laus de Boissy (1743-1799), o tradutor de Homero para a língua francesa, Paul Jéréme Biatubé (1732-1808), o historiador e geólogo Jean-Louis Giraud-Soulavie (1752-1813) e o literarata Guillaume Dubois de Rochefort (1731-1788), entre muitos outros.
Além destes, seu amante Michel Cubières (1752-1820), que havia sido amigo e influenciado pelo seu anterior e falecido amante Dorat. Nota-se que muitos dos frequentadores de seus salões faziam parte da chamada “Escola de Dorat”.
Segundo Chanel de Halleux, a dinâmica utilizada no salão da autora diferia daquela utilizada por outras salonnières. Ao invés da habitual proteção prometida pelas organizadoras de salões, os membros da escola de Dorat auxiliavam as pretensões literárias de sua hospedeira. A autora acabava trabalhando como crítica literária não oficial do grupo, auxiliando-os também desta forma.
Outros frequentadores de seu salão forram: o filósofo e poeta Jacques Cazotte (1719-1792), o pastor protestante Jean-Paul Rabaut Saint-Étienne (1743-1793). Ambos morreram na guilhotina durante diferentes momentos da Revolução Francesa, assim como Olympe de Gouges. A autora em si sobreviveu aos horrores do Terror, mas nada a impediu de continuar a receber filósofos e literatas em sua casa. Em novembro de 1789 foi presa, mas logo liberada.
Mudou-se para a Italia, mas logo retornou a Paris e embora tenha mudado a localidade de seu salão, passou novamente a receber a elite literária como sempre havia feito. Durante o Terror em si, morou com uma sobrinha. Esta era nada mais nada menos que Joséphine de Beauharnais (1753-1814), a futura primeira esposa de Napoleão.
A posição de tia da esposa de Napoleão lhe deu nova proteção social. Sua casa passa então a ser reduto de uma nova leva de políticos e filósofos.
Escreveu peças para Comédie-Française, e foi aceita pela Academia da Arcadia, de Roma, e também a Academia Literária de Lyon.
Faleceu em Paris, no dia 2 de julho de 1813. Nesta altura sua casa não tinha mais o mesmo esplendor e não recebia mais os ilustres amigos.
Obra:
Deixou uma obra extremamente vasta, tendo escrito para periódicos, além de diversos poemas e livros. Vamos aqui apresentar apenas alguns títulos mais relevantes. Uma lista mais completa da obra da autora pode ser encontrada na Página da wikipedia francesa sobre ela. Acesso via: https://fr.wikipedia.org/wiki/Fanny_de_Beauharnais
“A tous les penseurs, salut”, 1774. Acesso via Gallica: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k134238p.r=fanny%20de%20beauharnais?rk=21459;2
“La Haine par amour”, drama em um ato, 1776.
“Lettres de Stéphanie, ou l’Héroïsme du sentiment”, romance epistolário, escrito com Dorat. 1778. Os três volumes em acesso via Gallica: https://gallica.bnf.fr/services/engine/search/sru?operation=searchRetrieve&version=1.2&collapsing=disabled&query=%28gallica%20all%20%22fanny%20de%20beauharnais%22%29%20and%20dc.relation%20all%20%22cb30072242s%22%20sortby%20dc.title%2Fsort.ascending&rk=236052;4
“L’Abailard supposé, ou le Sentimente à l’épreuve”, romance, 1780. Acesso via Gallica: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k9740847s.r=fanny%20de%20beauharnais?rk=128756;0
“Le somnambule: oeuvres posthumes en prose et en vers, où l’on trouve l’histoire Générale d’une isle três singulière découverte aux Grandes Indes en 1784”, 1786. Acesso via Gallica: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k101792g.r=fanny%20de%20beauharnais?rk=85837;2
“Lettres des femmes’, romance, 1787.
“Fausse inconstance”, teatro apresentado em 31 de janeiro de 1787 na Comédie-Française. Acesso via Gallica: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k8504651.r=fanny%20de%20beauharnais?rk=171674;4
“Les Époux amans ou Colisan et Féniecie. Anecdote espagnole”, com Michel de Cubières, 1810.
“La Cyn-Achantide, ou LE Voyage de Zizi et d’Azor”, poema, 1811. Acesso via Gallica: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k5464069v.r=fanny%20de%20beauharnais?rk=42918;4
“Les Amours magiques”, novela, 1811.
“La Nouvelle folle anglaise”, novela, 1811
“Autres nouvelles et opuscules”, novelas, 1811.
Referências
Página da wikipedia francesa sobre a autora. Acesso via : https://fr.wikipedia.org/wiki/Fanny_de_Beauharnais
Halleux, Chanel de. “A Salon Hostess’s Entrey into the Literary Field: Fanny de Beauharnais and the Members of the School of Dorat (~1770-80)”. The Scholar and Feminist Online. Acesso via: https://sfonline.barnard.edu/a-salon-hostesss-entry-into-the-literary-field-fanny-de-beauharnais-and-the-members-of-the-school-of-dorat-1770-80/
Leitão Bandeira, Lourdes. “Salões culturais abertos por figuras femininas: O salão ‘Universitas Gratie’”. Lisboa: Carvalho e Simões Lda, 2006. p. 108
Piuco, Narceli; Torres, Hélène C. “Antologia de Escritoras Francesas do Século XVIII. Biografias: Fanny de Bauharnais”. Livro online. Acesso via https://share.google/761PGpB9bmKOnk5JI
(*) Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos no Site.





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