O tempo – por Orlando Fonseca

O tempo é o senhor da razão. O ditado de origem latina nos diz que a racionalidade prevalece com o passar dos dias, dos anos. Embora tenha sido popularizado em uma camiseta pelo ex-presidente Collor, isso agora parece ironia; no entanto, como vimos depois dos caras-pintadas, do PC Farias e turma, do impeachment, a frase se confirmou. Acontece que, muito antes dele, Marcel Proust também havia usado a expressão para sair em busca do tal senhor perdido. Voltando para o momento atual, em ano eleitoral e ano de Copa do Mundo, isso vale tanto para o TSE quanto para a CBF; vale para candidatos, Institutos de pesquisa e para Ancelotti, comentaristas esportivos e colecionadores de figurinhas do Álbum. Digo isso porque, em certos momentos, tanto de um calendário quanto de outro, a impressão é que a razão deu lugar ao delírio total. Com o ano ainda pelo meio, em poucos dias começa o maior evento esportivo, embolando o meio de campo da disputa eleitoral no Brasil.
A poucos dias do início do maior Campeonato de Futebol do mundo, é arriscado colocar a nossa seleção no topo do ranking. Aliás, nem a FIFA considera os canarinhos os melhores, o Brasil está na sexta posição, abaixo de Portugal; a França aparece em primeiro. No entanto, a convocação de Neymar, para delírio de uma grande parcela dos torcedores verde-amarelo, mobilizou fãs e imprensa durante os meses que antecederam a lista de convocados. Isso que o jogador do Santos não esteja na melhor condição técnica, e agora, como se fica sabendo pelo noticiário, também tem uma lesão grau 2 na panturrilha. No entanto, ao que tudo indica, se Carletto não o convocasse as coisas poderiam ficar muito complicadas para administrar o escrete nacional, não apenas no vestiário, mas sobretudo nas rodas de conversa e nas colunas da crônica esportiva. Tudo bem, o futebol não tem lógica (dizem os comentaristas), por isso não dá para apostar na razão nessa história.
Trocando o jazz, ou melhor a bossa nova, no cenário eleitoral estamos na mesma barafunda. Com as oscilações dos números apresentados pelos Institutos de Pesquisa, pode-se prever que teremos uma disputa acirrada, espelhando a polarização que se consolidou nos últimos anos. A indicação de Flávio por decisão de seu pai, Bolsonaro, como se estivéssemos em um Brasil monárquico, cuja sucessão presidencial devesse se dar por afinidade sanguínea, já consistiu por si só uma situação que beira o irracional. Que tenha tantos pontos na preferência do eleitorado então? Aí vieram à tona todos os rolos com o escândalo do Banco Master, os pedidos de grana a Vorcaro, para terminar um tal de filme épico, sobre o chefe do clã. O candidato precisou dar um cavalo-de-pau, pedindo ajuda aos americanos. Uma fumaceira para enuviar a cabeça de certo segmento nacional, afeito a adorar mitos e a fazer preces a pneus. Só que é um tiro de canhão pra matar tico-tico no fubá: considerar PCC e CV como grupos terroristas é uma forçação de barra do maior calibre de irracionalidade. É o Tarifaço 2.0 (o primeiro foi provocado pelo irmão Eduardo, e fez muitos estragos), e as consequências vão além do espectro eleitoral. A ver.
Entendo que o País do Carnaval, mesmo que abençoado por Deus, tenha suas formas muito peculiares de conduzir a vida nacional, para dizer o mínimo. Basta conferir como os demais países convocaram seus melhores atletas, e como estão administrando os preparativos para a Copa do Mundo. Basta conferir como os demais países desenvolvidos lançam candidatos a administrar o país, com a finalidade de se manterem como grandes nações. Vamos chegar à conclusão de que, por aqui, com esta longa redemocratização, iniciada com Sarney – vejam só – lá no longínquo 1985, o tempo tem suas peculiaridades para se tornar senhor da razão. E ainda, depois de tudo isso, com Hexa ou sem Hexa, um novo ciclo começando com as velhas novidades da política, ainda vamos exclamar admirados: Nossa, já é época de Natal! É o que dá não ver o tempo passar por não “não ver a hora” de atingir metas e alcançar virtuais novidades do futuro. De resto, é a vida, e as coisas que devem ser, hão de ser, de acordo com o que dispõe o tempo, esse senhor sisudo e implacável. Mas um dia após o outro, porque ainda temos de concluir o primeiro semestre.
(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.





Em tempo. Governo criou um streaming só para dar dinheiro para a patotinha dele na ‘cultura’. Em dois mandados ou não existe mais ou estará sucateado. Para isto serve a eleição.
Resumo da opera IV. Não existe ‘soberania’ nos territorios controlados pelo crime organizado. Eles fazem a lei por lá. Penitenciarias idem.
Resumo da opera III. Candidatos a presidencia se baterem todos num liquidificador não resulta um que preste. O Supremo Tribunal Cumpanhero vai continuar lá e o Alcolumbre, ou equivalente, também. Pais está sendo empurrado com a barriga, totalmente sem rumo.
Resumo da opera II. Ianques declararam como organizações terroristas o Antifa Ost na Alemanha, a Frente Revolucionaria Internacional na Italia, o Movimento de Resistencia Nordico da Suécia e mais alguns grupos na Grecia. Efeito maior é mais cuidado (e mais custo) no ‘compliance’ em empresas que negociam com empresas ianques. Não só bancos. Algo que deveria acontecer sem pressão externa diga-se de passagem. O que se ve é muita chinelagem eleitoreira e muita especulação e chute de ‘especialistas’.
Resumo da opera. Neymarketing não era para estar na Copa. Total zero, com ou sem vai perder do mesmo jeito. Desculpa é que o sujeito estava machucado.
‘Basta conferir como os demais países convocaram seus melhores atletas, e como estão administrando os preparativos para a Copa do Mundo.’ De fato aquilo foi um circo. Detalhe, vendem a fama de ‘criativo’ dos tupiniquins e outros paises foram muito mais.
‘Entendo que o País do Carnaval, mesmo que abençoado por Deus, […]’. Entendo que tem muito mais gente fora do Carnaval do que dentro na epoca da festa. Pior, a imagem no exterior é que aqui só tem Carnaval e floresta. E o estereotipo.
‘É o Tarifaço 2.0 (o primeiro foi provocado pelo irmão Eduardo, e fez muitos estragos), e as consequências vão além do espectro eleitoral.’ O mesmo pessoal que afirmou que ‘a Lava a Jato eliminou 4 milhões de empregos’, ‘reduziu investimentos equivalentes a 2% do PIB da Petrobras e 2,8% das empreiteiras’. Conclusão é que corrupção e crime não podem ser enfrentados, a não ser por medidas para ingles ver, porque senão ‘prejudica a economia’.
‘[…] cuja sucessão presidencial devesse se dar por afinidade sanguínea, já consistiu por si só uma situação que beira o irracional.’ Conversa mole, na politica brasileira esta longe de ser incomum. Vide Renan Filho, Sarney Filho, Simone Tebet, João Campos, etc.
‘Trocando o jazz, […]’. Como dizia Luciano Potter na Rede Bullshit.
‘ Tudo bem, o futebol não tem lógica (dizem os comentaristas), por isso não dá para apostar na razão nessa história.’ Que de simples não tem nada. Neymarketing era queridinho da imprensa. Jogadores de outros times tinham que abrir corredor, não podiam enconstar nele porque ‘era o nosso futuro’. Virou meme mundial de cai cai. Agora polarizou, cavalistas defendem o jogador, Vermelhos são contra.
‘Aliás, nem a FIFA considera os canarinhos os melhores, o Brasil está na sexta posição, abaixo de Portugal; a França aparece em primeiro.’ Não muda absolutamente nada na vida de ninguém diretamente envolvida.
‘O tempo é o senhor da razão.’ Como escreveu o outro, o problema das consequencias é que vem depois. !!!!