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Quatro troncos missioneiros e a música das Missões – por Oscar Daniel Morales

O quarteto: Noel Guarani, Jaime Caetano Braun, Cenair Maicá e Pedro Ortaça

Em março de 2025, a UFSM concedeu o título de Doutor Honoris Causa ao músico e compositor missioneiro Pedro Ortaça, recentemente falecido. Quando começamos o processo para encaminhamento desta proposta, pensávamos que não seria fácil, não sabíamos o quanto de resistência poderíamos encontrar na academia, para o reconhecimento da sua obra. Felizmente, encontramos sempre, muita facilidade nos encaminhamentos devidos.

Sentimos desde o início, que a sua obra transcendia o ambiente da música popular gaúcha, tinha se convertido em elemento básico, para valorizar a denominada cultura missioneira. Junto com esse processo de titulação do Ortaça, está junto a preocupação pelo depois. Como dar continuidade a valorização dessa imensa obra? Essa inquietude indica que, depois desse momento culminante da titulação ao músico popular gaúcho, devemos continuar a olhar para aquela obra em toda a sua complexidade.

Se afirmamos que, o popular antecede ao científico, então devemos continuar as nossas pesquisas para assim poder render a nossa homenagem a esses Quatro Troncos da cultura missioneira.  

Mas, então, é chegado o momento de conceituar o que é, onde nasce, quais são as raízes, os frutos desta cultura. Não pretendemos aqui fazer uma análise da obra de Pedro Ortaça, um dos denominados Troncos, ou uma conceitualização definitiva da cultura missioneira do ponto de vista antropológico, mas sim, somar alguns elementos a uma discussão, que mesmo incipiente ou reduzida, não por isso é menos importante.

Ao começar esta reflexão, muitas perguntas começam a vir à tona. Por que essa denominação dos “Quatro Troncos Missioneiros”? Porque a mesma, coube a Noel Guarani, Cenair Maicá, Jaime Caetano Braun e Pedro Ortaça. Quais as características da denominada cultura missioneira que eles conseguiram popularmente consagrar?

A denominação Quatro Troncos Missioneiros nasce da feliz proposta do produtor fonográfico Alex Hohenberger, proposta para nomear o Disco LP, gravado pelos músicos, Noel Guarani, Jaime Caetano Braun, Cenair Maicá e Pedro Ortaça.

Podemos dizer que os Quatro Troncos são produto de uma cultura de fronteira, assim conceitualizada por Teixeira Coelho.

“Cultura sem centro, cultura de muitos centros, feita do cruzamento de modos culturais importados com outros gerados no local.” (Teixeira Coelho, 1999, p. 108).

Estes e todos os troncos se nutrem de raízes, para depois dar ramas e frutos. Esta afirmação nasce da análise da obra dos Quatro Troncos, das suas influências provenientes da música dos territórios do Paraguai, da Argentina e Uruguai. Estas influências que encontramos não somente nos gêneros musicais, base da sua produção composicional, mas também, da temática desenvolvida, assim como da maneira de tocar os instrumentos musicais usados na interpretação dessas obras. Com certeza essa proximidade não foi somente territorial. Observando os movimentos sociais ali desenvolvidos, encontraremos aqueles elementos que perpassam a obra e as raízes das quais estes troncos se nutriram.

Entendemos que para responder a perguntas que querem caracterizar e nomear a Cultura Missioneira, precisamos finalmente pensar em pesquisas que venham a alavancar a análise, de uma cultura comprometida com o desenvolvimento social de um território. A análise da música criada pelos Quatro deve ser uma das ferramentas que precisamos para trabalhar nessa pesquisa.

Não podemos esquecer que essa região foi onde se tentou criar uma proposta de sociedade a partir dos lineamentos e ensinamentos religiosos. Ainda assim, destacamos que, a denominada “evangelização” trazia consigo os fundamentos de uma cultura dominante.

Sendo assim, não é difícil aqui encontrar os preconceitos das divisões entre alguns que pensam, outros que mandam, mas são outros os que laboram. Os indígenas das Missões, em quais desses grupos se encontram?

A cultura desse grupo étnico, por vezes, é “classificada” como menor ou secundária. Podemos dizer que estes preconceitos, com raízes lá nos séculos XVII e XVIII, foram herdadas dos invasores, portugueses, espanhóis, europeus. Sendo assim, vamos melhor entender porque o Padre Antonio Sepp (1), relata que, o seu trabalho para com os músicos guaranis das Missões, deveria ser de “instruir” sobre a música europeia, pois a música deles era “antigua”, rudimentar.

Não foi, ou melhor, não é, com esses preconceitos que nos enfrentamos até hoje, quando falamos em música popular e música erudita? Inclusive quando temos que discutir sobre a música do Centro, do Norte ou do Sul.

Quando tomamos consciência disto é que podemos impulsionar o círculo antropofágico da cultura regional missioneira, expondo seus valores, e ao mesmo tempo, confrontando com outros regionalismos. Não no intuito de fazer levantamento de qual é a melhor, mas sim, para finalmente determinar quais os valores, que caracterizam uma identidade cultural.

Este é o caminho que, a meu ver, de maneira instintiva e por vezes individualmente, estes quatro troncos conseguiram trilhar.  

Então, se admitimos que o saber popular antecede ao científico, devemos tomar os frutos dos Quatro troncos missioneiros, e para dar continuidade a sua trilha, analisar as estruturas da sua obra. Verificar a importância social do pensamento, da ideologia que carregam estas e finalmente assim saber quais os verdadeiros frutos.

Partindo da afirmação de que os valores culturais que conformam a expressão de uma determinada identidade não são “propriedade” ou criação única, cabe a nós, trabalhar na obra de Pedro Ortaça, Cenair Maicá, Jaime Caetano Braun e Noel Guarani, que são os troncos que sorveram de muitas e variadas raízes e assim, conseguiram transitar pelas flexíveis fronteiras culturais.

Penso que esta é uma das maneiras com que podemos homenagear, e lembrar, com a importância que merecem, os Quatro Troncos Missioneiros.

Quero terminar com uma frase que pertence ao genial Sergio Metz, o Jacaré, “Entre irmãos de arte, geografia aparte, não há contrabando” (2).  

(*) Oscar Daniel Morales é Professor Aposentado do Departamento de Música da UFSM. O artigo acima foi inicialmente publicado no site da Seção Sindical dos Docentes da UFSM (Sedufsm), e é aqui reproduzido com a autorização do autor.

1-Antonio Sepp, sacerdote da ordem jesuíta, na sua obra, Relación de viaje a las misiones jesuíticas. Tomo I. Buenos Aires, Eudeba, 1971. Relata do seu trabalho para com os músicos guaranis das Missões, aos quais deveria “instruir” sobre a música européia, pois a música deles era “antigua”, rudimentar.

2- Da composição “São Borja canto e ritmo”. Autores, Sergio Jacaré e Leandro Cachoeira

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13 Comentários

  1. Resumo da opera. Terminando com Noel Guarany. ‘Conheci muita lição/Que nos nega a sociedade/Monstrengos de faculdade/Tentam nos dar mais não dão.’

  2. ‘[…] expondo seus valores, e ao mesmo tempo, confrontando com outros regionalismos.’ Indo para o lado errado. Não é para cima. É abaixo e do lado. Fronteiras culturais. Roberto Lara, musico de camara argentina famoso, gravou um ‘The Guitar of the Pampas’. Internacionalmente conhecido. E Martin Fierro? Arquetipo do payador.

  3. ‘[…] preconceitos que nos enfrentamos até hoje, quando falamos em música popular e música erudita? Inclusive quando temos que discutir sobre a música do Centro, do Norte ou do Sul.’ O que já foi moda no Brasil? Rock. Capipira. Sertanejo. Forró (Falamansa e cia). Funk Carioca. Sertanejo universitario. Musica não é algo que as pessoas necessitam de uma tese universitaria para ouvir (gente chata para k7). Alas, o Funk Carioca vem do Miami Bass. Tem grana envolvida em tudo isto como não poderia deixar de ser.

  4. ‘[…] com esses preconceitos que nos enfrentamos até hoje, quando falamos em música popular e música erudita?’ Preconceito é um juizo feito antecipadamente sem base em ‘fatos reais’. Alguém duvida que a musica de Bach era mais sofisticada do que dos indigenas na epoca das missões? Preconceito para os Vermelhos é tudo que contraria a ideologia e que eles querem mudar. Por bem ou por mal.

  5. ‘Sendo assim, vamos melhor entender porque o Padre Antonio Sepp (1), relata que, o seu trabalho para com os músicos guaranis das Missões, deveria ser de “instruir” sobre a música europeia, pois a música deles era “antigua”, rudimentar.’ Primeiro, eles tinham alguma coisa equivalente ao trabalho de Bach? Segundo, Sepp faleceu em 1733. Queriam que ele tivesse a mentalidade de um professor universitario do século XXI? Anacronismo.

  6. ‘Podemos dizer que estes preconceitos, com raízes lá nos séculos XVII e XVIII, [….]’. Podemos dizer tudo o que quiser. Pode dizer que as raízes estão nos extraterrestres. Porque não tem como provar se esta certo ou errado. É só mimimi.

  7. ‘A cultura desse grupo étnico, por vezes, é “classificada” como menor ou secundária.’ Porque é mais primitiva. Não tem a sofisticação que outras culturas têm. Cultura é espelho da sociedade que a produz. Levanto para o contexto, quem desejaria viver numa sociedade coletores/caçadores? Não é simples, qual habitante urbano desejaria viver numa tribo amazonida isolada? Sem internet, sem rede social, sem tomografia, sem ressonancia magnetica, sem medicamentos modernos?

  8. ‘Ainda assim, destacamos que, a denominada “evangelização” trazia consigo os fundamentos de uma cultura dominante.’ Anacronismo. Jesuitas não eram cinicos que desejavam ‘dominar’ os indigenas e utilizavam a religião como ‘justificativa’ (argumento é um espelho, só não enxerga quem não quer). Jesuítas acreditavam que salvavam as almas dos autoctones. Alas, ruinas atuais são o que sobrou de projetos feitos por arquiteto italiano se lembro bem.

  9. ‘Não podemos esquecer que essa região foi onde se tentou criar uma proposta de sociedade a partir dos lineamentos e ensinamentos religiosos.’ Segundo a narrativa Vermelha as missões eram comunidades proto comunistas.

  10. ‘[…] das suas influências provenientes da música dos territórios do Paraguai, da Argentina e Uruguai.’ Fronteiras culturais da antropologia.

  11. ‘Observando os movimentos sociais ali desenvolvidos, encontraremos aqueles elementos que perpassam a obra e as raízes das quais estes troncos se nutriram.’ Vermelhismo se infiltrando em tudo.

  12. Alex Hohenberger. Que era do grupo Caverá. Gaiteiro se lembro bem. Que lançou um disco solo no Bombril certa feita.

  13. ‘Felizmente, encontramos sempre, muita facilidade nos encaminhamentos devidos.’ Devido a pessoa do agraciado. Não era Janio Quadros condecorando Che Guevara. O que não tinha pena de matar, mas na hora de morrer pediu penico.

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