Perdemos o rumo da História – por Marcelo Arigony
“Talvez nosso maior atraso não seja tecnológico. É a falta de projeto nacional”

Há poucos dias, um brasileiro que ocupou posições estratégicas no Google e na Meta fez um alerta contundente: a inteligência artificial fará alguns países avançarem o equivalente a um século, enquanto o Brasil corre o risco de “ficar em 1.500”.
A frase é forte. Mas merece reflexão.
A inteligência artificial deixará de ser apenas uma tecnologia. Ela definirá quem lidera a economia, a indústria, a medicina, a segurança, a educação e até a defesa nacional.
O Brasil tem universidades qualificadas, pesquisadores competentes, energia, água, território e recursos naturais. Não nos falta potencial. Falta transformar conhecimento em desenvolvimento.
Produzimos conhecimento, mas raramente conseguimos transformá-lo em patentes, empresas, tecnologia, riqueza e soberania.
Enquanto outros países aproximam universidades, empresas e governo para resolver problemas concretos, nós seguimos discutindo prioridades sem construir um projeto nacional de longo prazo.
Desde a escola ouvimos a mesma história: exportamos soja, minério e outras commodities; importamos produtos industrializados por dezenas ou centenas de vezes esse valor. Décadas se passaram e a lógica permanece.
Agora o risco é ainda maior. Podemos exportar dados, energia e minerais para depois comprar inteligência artificial, chips, medicamentos e tecnologia desenvolvidos por outros países.
Também não existe soberania sem capacidade tecnológica de defesa. O ideal é que armas nunca sejam usadas. Mas a paz não se mantém apenas com boas intenções. O tigre talvez não precisasse atacar todos os dias. Sem as unhas, porém, provavelmente não teria sobrevivido.
A História mostra que as sociedades que dominaram a ciência e a tecnologia exerceram influência sobre as demais. Hoje essa disputa não acontece apenas com tanques ou mísseis. Ela ocorre nos laboratórios, nos data centers, nos algoritmos e na inteligência artificial.
Talvez nosso maior atraso não seja tecnológico.
É a falta de um projeto nacional.
Precisamos aproximar universidades, empresas e poder público, investir em pesquisa aplicada, inteligência artificial, energia, indústria de alta tecnologia e formação científica. Produzir conhecimento é essencial. Transformá-lo em desenvolvimento é indispensável.
Se continuarmos adiando essa escolha, corremos o risco de permanecer como exportadores de matéria-prima e importadores do futuro.
E isso, em pleno século XXI, talvez seja a forma mais sofisticada de dependência.
(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil. Ele escreve no site às quartas-feiras.





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