“A Caixa Azul”: trauma e ambição – por Roselâine Casanova Corrêa
“Focada nos gestos e nas pausas, a narrativa prioriza o que não é dito...”

A máxima – e já batida expressão – sobre a qual os melhores perfumes estão nos menores frascos (e os venenos também!) pode ser usada sem receio para o filme argentino “La Caja Azul”/2026, com apenas 86 minutos, rodado no Canadá e disponível no Prime. A trama – dirigida por Martín Hodara – aparentemente banal, traz como protagonistas o milionário e introspectivo Pablo (Gustavo Bassani) e a delicada e pacienciosa Lara (Luisana Lopilato), que se conhecem por meio de um aplicativo de relacionamentos, chamado Bluebox.
Javier (o franco-argentino Jean Pierre Noher), advogado e administrador das empresas de Pablo, o incentiva a entrar no aplicativo. O personagem de Noher parece ser mais que o gestor da fortuna de Pablo, funcionando como um elo do personagem com o mundo externo, protetor e preocupado. Aparenta ser a figura paterna que ampara o protagonista.
Pablo é sobrevivente de um acidente, onde perdeu os pais e desde então, vive nos arredores da Patagonia, sem nenhum contato humano, a não ser com Javier, em quem confia fielmente e em sua camareira, também muito dedicada.
O cineasta portenho Hodara é conhecido pelos diálogos econômicos, longas pausas e gestos calculados. Aqui não é diferente, contudo, o que não é dito possui um peso ainda maior na narrativa. O isolamento geográfico na Patagônia coaduna com o retraimento voluntário de Pablo. Para o protagonista, o confinamento também sugere segurança e distanciamento do mundo real. Isso seu dinheiro pode comprar. Suas memórias, contudo, não são negociáveis. E lhe renderam traumas e a dependência de medicamentos.

O aplicativo de relacionamento – em que o casal principal se conhece – sugere que no primeiro encontro o casal troque uma caixa azul, com um objeto de escolha pessoal. Você imaginou o que colocaria nessa caixa, em igual situação? Pablo sabia, Lara ainda não. Estratégia ou uma maneira de ganhar tempo? Independente da resposta, o fato é que, a partir daí, tudo vai se alterando, trocando de lugar, de atitude, de expressões. Parece um jogo ou um ritual para conduzir um ao outro, sem restrições.
E aí consiste o perigo. Lara é discreta, não força sua presença, na mesma medida que não se mantém distante. Quase invisível, começa a tomar pequenas decisões, que mesmo sendo banais, indicam sua influência sobre o protagonista.
Tudo muda quando Pablo recebe um aviso anônimo, sem provas, que sugere que Lara não é o que aparenta ser. Daí em diante, o protagonista passa a observar mais atentamente sua acompanhante. E indagar, na mesma medida em que ela, acuada, responde apenas o suficiente para manter a confiança. Contudo, não a ponto de eliminar completamente as dúvidas. É um jogo sutil, em que o espectador vacila entre quem é o vilão e quem é a vítima. Até o último minuto do longa.
Pode-se arguir que “A Caixa Azul” é dividida em duas partes: a primeira apresenta os personagens e o encontro do casal principal; a segunda, quando iniciam as dúvidas acerca de quem é quem nessa narrativa. E tudo isso sob uma fotografia magistral, em estradas secundárias do que seria a Patagonia.
De fato, os personagens são ambíguos em suas ações. Todos eles! Focada nos gestos e nas pausas, a narrativa prioriza o que não é dito. A câmera parece colaborar com a dúvida, deixando de fora parte das informações, em uma trama enxuta.
“A Caixa Azul” é, em síntese, um suspense instigante do início ao fim!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve sobre cinema, às quintas-feiras, nesse site.





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