KISS. Athos Miralha, as mães da Praça de Mayo e as vítimas de Santa Maria. Uma relação feita em fevereiro
Na edição deste final de semana, a coluna Observatório, que o editor assina no jornal A Razão, e que é reproduzida pelo sítio, faz uma RELAÇÃO entre os familiares das vítimas da tragédia de 27 de janeiro, em Santa Maria, e as mães da praça de Mayo, em Buenos Aires, que tanto constrangeram a ditadura argentina.
Pois este mesmo encadeamento já havia sido feito, e muito bem feito, ainda nos dias posteriores ao acontecido na Kiss. Quem a perpetrou, num texto brilhante, foi o amigo Athos Ronaldo Miralha da Cunha, em seu blogue “Que mal lhe pergunte”, em 10 de fevereiro. Isto é, apenas dois domingos depois da tragédia. Vale a pena conferir, a seguir:
“Tragédia da boate Kiss e as “Madres de plaza de Mayo”
Em 1978 as mães de desaparecidos políticos na Argentina buscavam noticias de seus filhos, como não obtinham respostas dos gestores de plantão – havia uma ditadura na Argentina – essas mães protestavam na praça de Maio em frente a Casa Rosada. Elas faziam caminhadas silenciosas com lenços brancos na cabeça que era o símbolo da luta pela justiça. As mães da praça de Maio fizeram mais de 1500 protestos, elas exigiam o paradeiro de mais de 30 mil desaparecidos e 500 crianças – filhos de presos políticos – que foram enviadas para adoção. Essas “Loucas da praça de Maio” mantem uma universidade, uma rádio e uma biblioteca.
Perseverança, indignação e uma busca incansável por justiça. Esse o legado que temos como exemplo dessas determinadas Mães Argentinas. É nesse sentido que a juventude, pais, amigos e população dessa Santa Maria da Boca do Monte exigirá com respeito ao assassinato coletivo que houve na boate Kiss no fatídico dia 27 de janeiro de 2013. Não queremos nada por debaixo dos panos, queremos lenços brancos nas cabeças em busca de justiça. Não queremos políticos de plantão em busca dos holofotes da tragédia. Queremos “locas y locos” rondando a nossa Casa Rosada clamando por justiça.
São 238 jovens mortos, mais de uma centena de feridos e é notório que essa tragédia da boate Kiss foi causada pela ineficiência e inoperância dos poderes públicos – municipal e estadual –, e até o presente momento ninguém, mas ninguém mesmo foi exonerado de seu cargo. Estão todos lá, tentando justificar o injustificável. E isso é um acinte à memória dos jovens falecidos, às famílias enlutadas e a população em geral. E quando a gente fala em omissão dos agentes públicos ficam cheios de dodóis.
Não está no horizonte dos gaúchos alguma impunidade como consequência dessa tragédia da boate Kiss. Como está bem explicitado nas reportagens, há uma cadeia de responsabilidades e esperamos que os responsáveis pelo funcionamento dessa câmera de gás – projetos, licença e fiscalização – sejam devidamente julgados…”
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Parabéns pela perspicácia em dias tão sombrios e de tanto descaso com a dor das famílias e sobreviventes.
Tanta coisa se escreveu por aqueles dias que esse rico texto, em tom de profecia, passou desapercebido.
Parabéns ao Miralha pela percepção e ao editor pelo resgate.