Um fôlego para quem produz- por Ana Luiza Arigony
‘Fortalecer o campo nunca beneficia apenas quem produz. Beneficia todos nós’

A Medida Provisória nº 1.376 reacende o debate sobre o crédito rural e reforça a necessidade de criar condições para que o produtor continue produzindo.
Nenhum produtor rural faz uma dívida pensando em renegociá-la. Ele faz porque acredita que vai produzir, colher e pagar.
Infelizmente, nem sempre é isso que acontece.
Nos últimos anos, o campo enfrentou uma sequência de desafios que fugiram ao controle de quem produz. Houve estiagens, enchentes, aumento dos custos, juros elevados e oscilações de mercado. Em muitas propriedades, o problema não foi falta de trabalho ou de planejamento. Foi a sucessão de acontecimentos que tornou mais difícil manter a atividade.
Foi nesse cenário que surgiu a Medida Provisória nº 1.376, criando mecanismos para facilitar a renegociação de dívidas rurais em situações específicas. Ainda haverá regulamentação e muitos produtores precisarão verificar se se enquadram nas regras. Mesmo assim, a medida já traz uma mensagem importante.
Ela reconhece que parte do agro precisa de fôlego.
Na minha visão, esse talvez seja o aspecto mais relevante. Não porque a medida resolva todos os problemas do setor. Não resolve. Mas porque parte de uma premissa correta: manter um produtor na atividade costuma ser muito mais inteligente do que lidar com as consequências de sua saída.
Quem convive com o meio rural sabe que uma propriedade não movimenta apenas a renda de uma família. Ela gera empregos, movimenta o comércio e mantém viva a economia de muitos municípios. Quando um produtor perde a capacidade de continuar produzindo, os reflexos ultrapassam a porteira.
É por isso que toda iniciativa voltada à reorganização financeira merece ser acompanhada com atenção. Naturalmente, será preciso avaliar como a medida será aplicada e se ela realmente alcançará quem mais precisa. Esse será o verdadeiro teste da sua efetividade.
Espero que a MP nº 1.376 seja lembrada não apenas como uma resposta a um momento de dificuldade, mas como o início de uma forma diferente de enxergar o crédito rural. O produtor precisa, acima de tudo, de previsibilidade. Precisa conseguir planejar a próxima safra com a confiança de que terá condições de seguir produzindo.
O agro brasileiro sempre demonstrou capacidade de superar desafios. Mas resiliência não pode significar enfrentar tudo sozinho. Em alguns momentos, oferecer condições para recomeçar também é uma forma de fortalecer o campo.
E fortalecer o campo nunca beneficia apenas quem produz. Beneficia todos nós.
(*) Ana Luiza Arigony é advogada ambiental e mestranda em Engenharia de Produção pela UFSM. Ela escreve no site às terças-feiras.





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