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“A gente está sendo atacado” – por Leonardo da Rocha Botega

“O Brasil é, e sempre foi, uma peça fundamental no cenário internacional”

Em 2019, enquanto o Brasil vivenciava o começo de um dos governos que mais atacou seu próprio povo, o cinema nacional (mais uma vez) ganhava evidência com o “faroeste sertanejo” Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O filme, vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes e do Festival de Munique, apresentou uma metáfora onde um pequeno vilarejo era entregue pelo prefeito para um grupo de psicopatas estrangeiros (estadunidenses) “brincar” de matar moradores.

Em uma das cenas do filme ocorre o assassinato de uma criança que brincava de esconde-esconde no matagal. Quando os moradores de Bacurau se deparam com o corpo da criança morta, Lunga, um “neocangaceiro” chamado para ajudar na defesa do vilarejo, olha fixamente para as pessoas de sua volta e pronúncia uma frase que pode ser interpretada como uma síntese da tomada de consciência do que se estava vivenciando naquele momento: “A gente está sendo atacado!”

A frase pronunciada por Lunga ecoou realista ao longo dos anos seguintes, sobretudo, durante a Pandemia da Covid-19. Naquela ocasião fomos atacados por um vírus até então desconhecido e altamente letal que contou com a colaboração do próprio governo brasileiro que, seguindo a mesma estratégia adotada pelo governo estadunidense, apostou no negacionismo como política de governo. O resultado: mais de 700 mil mortes e frases como “Vão chorar até quando?”

Passados pouco mais de dois anos desde o anúncio oficial pela Organização Mundial da Saúde do fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, em 5 de maio de 2023, mais uma vez podemos afirmar que estamos sendo atacados. Dessa vez não é um vírus invisível que nos ataca, mas sim, uma articulação da extrema-direita internacional liderada por Donald Trump com a colaboração de quem perdeu as eleições em 2022 e tentou um golpe em 8 de janeiro de 2023.

Desde seu retorno ao governo estadunidense, Donald Trump tem adotado uma política de afirmação internacional a partir da produção do caos em uma ordem internacional incerta e instável. A política externa do Make America Great Again – MAGA (“tornar a América grande novamente”) é uma ofensiva diante do processo de decadência do poder dos Estados Unidos e de transição para um cenário internacional multipolar e até mesmo Pós-Ocidental.

Esta ofensiva despudorada e sem preocupação com a construção de uma estabilidade mundial que não seja a própria hegemonia estadunidense, tem apostado no aprofundamento da guerra comercial com a China a partir da abertura de novos flancos de combate contra países que têm ampliado suas relações comerciais com os chineses. O aumento das tarifas de importação de produtos brasileiros em 50%, anunciado para entrar em vigor em 1 de agosto, se insere nessa aposta.

O Brasil não foi o único país a ser atingido, outros países pertencentes aos Brics, a União Europeia, o Canadá, o México e até mesmo Israel tiveram as tarifas de importação para os Estados Unidos elevadas. A grande diferença do Brasil em relação aos demais países foi o teor do argumento do presidente estadunidense em sua carta enviada ao governo brasileiro. A imposição da suspensão do processo contra Bolsonaro como condição de negociação é uma afronta a soberania e a democracia nacional.

A intervenção estadunidense nos assuntos internos do Brasil não é uma novidade em nossa História. Ao longo do Século XX, sobretudo, durante a Guerra Fria, tal prática foi uma constante. Não foi diferente nestas primeiras décadas de Século XXI, o governo do democrata Obama chegou a espionar a presidenta Dilma Rousseff através da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), conforme revelou, em julho de 2015, o site Wikileaks, a partir de documentos entregues pelo ex-agente Edward Snowden.

Na quase totalidade das interferências estadunidenses nos assuntos internos do Brasil houve colaboração de figuras da própria política brasileira. Em comum a essas figuras sempre esteve o golpismo e o desejo de destruição da nossa democracia, como vimos em 1954, em 1955, em 1961, em 1964 e agora com os pedidos de intervenção estadunidense feitos nas manifestações bolsonaristas e articuladas pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro junto ao governo Donald Trump.

O Brasil é, e sempre foi, uma peça fundamental no cenário internacional. Os governos estadunidenses sempre estiveram cientes dessa condição. Atualmente, o Brasil é a oitava economia do mundo. No primeiro trimestre de 2025, foi o quinto colocado no ranking global de crescimento econômico, com o aumento de 1,4% do PIB, superando China, Alemanha, França, Reino Unido e os próprios Estados Unidos. Desde a posse do presidente Lula o país voltou a ser parte ativa nas discussões internacionais.

O ataque de Donald Trump ao Brasil ocorre porque o governo estadunidense sabe do tamanho que o país tem no cenário internacional. A imposição de um tarifaço numa relação comercial onde possui vantagens pode parecer uma irracionalidade, mas não é! É parte de uma estratégia de submeter o Brasil aos seus interesses. O MAGA só tem olhos para si! O bolsonarismo também! Para eles, a desestabilização da economia nacional é o custo que temos que pagar para que possam voltar ao governo e seguir nos atacando.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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7 Comentários

  1. Resumo da opera. Não existe ‘a gente’. Passarinho que acompanha morcego acorda de cabeça para baixo.

  2. Bom lembra que todas as abobrinhas que o Rato Rouco falou em campanha eleitoral antecipada chegaram na mesa do Secretario de Estado ianque. Que dizem não ter gostado nada.

  3. Cavalismo. Transformaram Coriolano de Shakespeare numa opera bufa. Não devem conseguir o que querem e dão um tiro no pé.

  4. ‘[…] outros países pertencentes aos Brics, a União Europeia, o Canadá, o México e até mesmo Israel tiveram as tarifas de importação para os Estados Unidos elevadas.’ Canadá e Mexico são vizinhos. Israel eliminou todas as tarifas de importação dos EUA. Vamos combinar que a União Europeia é mais importante que o Brasil, gostem ou não, e fechou acordo, ainda que provisório, com os ianques.

  5. Rato Rouco em novembro de 2024 sugeriu: ‘vitoria de Trump nos EUA seria nazismo e fascismo voltando com outra cara’. Dizia torcer por Kamala nas eleições. Não ligou para o Agente Laranja para felicitar por ter ganho as eleições e nem depois da posse. O nome disto é ‘falta de preparo’.

  6. ‘O Brasil é, e sempre foi, uma peça fundamental no cenário internacional.’ ‘Desde a posse do presidente Lula o país voltou a ser parte ativa nas discussões internacionais.’ ‘O ataque de Donald Trump ao Brasil ocorre porque o governo estadunidense sabe do tamanho que o país tem no cenário internacional.’ Se precisa repetir tres vezes é porque ‘tenta convencer’. Logo não é. Basico.

  7. Bacurau. A maior parte da população não tomou conhecimento. E não é por conta de premios que ‘é bom’. Tipico truquezinho vermelho.

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