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A guerra que deixa os municípios de tanque vazio – por Luís Henrique Kittel

“O resultado que testemunhamos agora é o risco real de desabastecimento”

Já se foi o tempo em que conflitos no Oriente Médio eram apenas imagens em telejornais distantes. Hoje, a necessidade de uma postura firme dos Estados Unidos e de Israel contra as investidas do Irã revela como a economia global é um organismo vivo e hiperconectado. A prova disso está no Estreito de Ormuz, o gargalo marítimo entre o Irã e Omã, por onde escoa 20% do petróleo mundial, e cujo impacto já é sentido no nosso estado.

O sinal de alerta para o municipalismo mudou para o vermelho. Aos que questionam como uma guerra a milhares de quilômetros pode paralisar um serviço básico no interior do Rio Grande do Sul, a resposta reside em uma matemática cruel: embora o Brasil seja um gigante na extração de óleo bruto, nossa capacidade de refino é insuficiente. Importamos mais de 20% do diesel que consumimos. Com a logística global sob ameaça, o risco dispara e o preço, por óbvio, acompanha a curva da tensão.

O mecanismo é implacável. O preço sobe no mercado internacional, a Petrobras sofre a pressão do repasse e, na ponta final, o fornecedor que abastece a frota municipal bate à porta da prefeitura exigindo o reequilíbrio de preços. O resultado que testemunhamos agora é o risco real de desabastecimento.

Muitas vezes, a única saída é a “parada técnica” como medida de sobrevivência administrativa. Sem lastro no orçamento, o gestor se vê diante de uma escolha de Sofia: retira-se a patrola da estrada para garantir que a ambulância tenha combustível e que o ônibus escolar não deixe as crianças a pé.

Esta semana, o município de Formigueiro deu o primeiro grito de socorro ao decretar emergência. É o sintoma inicial de um colapso que ameaça ser sistêmico. Embora o Governo Federal tenha agido ao zerar o PIS e a Cofins sobre o diesel, a pressão agora recai sobre os Estados para a redução do ICMS, que é a espinha dorsal do financiamento dos municípios.

Na prática, o que estamos fazendo é “descobrir um santo para cobrir outro”. Não há saída individual para uma crise de escala global. O momento exige um movimento institucional robusto e coordenado. As cidades gaúchas, através de suas associações, precisam exigir da União e do Estado um plano que blinde quem produz e quem serve à população.

O “Efeito Ormuz” provou, de forma definitiva, que o mundo ficou pequeno demais para gestões isoladas. Se a crise é global, a proteção precisa ser estratégica, sob pena de paralisarmos o que ainda resta de fôlego nos municípios.

(*) Luís Henrique Kittel, 40 anos, é jornalista formado pela então Unifra, atual UFN. É prefeito de Agudo (o único do PL na região), e é o atual presidente da Associação dos Municípios da Região Central (AM Centro) e já foi vice-presidente do Consórcio de Desenvolvimento Sustentável da Quarta Colônia. Ele escreve no site às quintas-feiras.

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3 Comentários

  1. Resumo da opera. Biodiesel para la e para ca. Deu m. e a marketagem ficou evidente. O que também aconteceu com os ‘ecologicos’ e sua enorme dependencia de combustiveis fosseis.

  2. ‘Não há saída individual para uma crise de escala global.’ Desculpa fiada. Crise tem tamanhos diferentes em lugares diferentes.

  3. ‘[…]a Petrobras sofre a pressão do repasse […]’. Tenta segurar os preços. Quem normalmente importa não o faz para não ter prejuizo. Dai o desabastecimento.

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